sábado, 6 de dezembro de 2014

EU NÃO CONHEÇO DEUS

Por Julio Zamparetti

Confesso: eu não conheço Deus! Também não conheço Curitiba, embora já tenha estado lá diversas vezes. Já estive algumas vezes na cidade de São Paulo, mas sem dúvida não a conheço mesmo! Seria insanidade afirmar conhece-la por ter andado pelo terminal Tietê ou ter corrido pelos portões de embarque do aeroporto de Congonhas. E o Rio de Janeiro... Ah o Rio! Conheço alguns quarteirões de Curicica, algumas ruas de Jacarepaguá, Duque de Caxias, baixada Fluminense, o Shopping da Barra, a praia de Ipanema e claro, o Maracanã. Mas tudo isso eu devo aos amigos anfitriões que gentilmente me conduziram pela Cidade Maravilhosa, pois eu, sozinho no Rio, faria coro à música de Renato Russo: “preciso me encontrar, mas não sei onde estou”. Isso, simplesmente porque não conheço o Rio de Janeiro, senão de por lá passar, assistir TV e ouvir falar.

Como, pois, eu poderia conhecer Deus? Nem minha pequena cidade, no interior catarinense, eu conheço todalmente! Deus seria ainda menor que ela para que eu o conhecesse?

Houve quem em sã consciência afirmou ter conhecido Deus de ouvir falar e depois de andar com Ele. Com base nisso há quem presuma conhecer Deus dessa mesma forma. Mas eu, na minha loucura, afirmo que estão todos enganados. Afinal, por onde tem andado essa gente a ponto de conhecê-lo? Teriam eles andado por outras galáxias? Teriam absorvido todas as culturas da terra? Teriam penetrado a mente de cada ser humano? A menos que você seja capaz de responder sim a todas essas prerrogativas, você não pode dizer que conhece aquele que se revelou de diferentes formas em cada ponto do universo e multiversos, em cada cultura da terra e em cada solitário e livre pensamento humano. A menos, é claro, que você tenha por Deus algo menor que isso, tão medíocre e pequeno a ponto de ser confinado ao seu planeta, à sua cultura, à sua religião e ao que você pensa.

O que conheço de Deus não é nada mais do que aquilo que leio, ouço, vejo, penso ou sinto. E tudo isso está subjugado à minha limitação cognitiva e a condição de onde estou e por onde ando. Há tantos outros caminhos que não são os meus, que não os sei e jamais trilharei, mas sei que Ele lá está também! E lá se revelará a outros que não sou eu, nem se parecem comigo, talvez nunca os conheça, nem os entenda. No entanto, eles entenderão de maneira tão diferente, um pouco do mesmo Deus do qual outro pouco eu entendo.

Conhecê-lo de andar com Ele não é nada, e ainda assim é o máximo que dEle podemos conhecer. A verdade é que Deus não é apenas o que se pode conhecer no caminho! Não seria Deus se não fosse bem maior que isso! Por isso não posso dizer que o conheço. Seria loucura dizer que conheço a Deus por ter andado com Ele por alguns lugares, durante alguns anos, pois o Deus que convictamente desconheço não se limita ao tempo e espaço, muito menos ao meu tempo e espaço.

Deus também se revela por onde os outros andam e de maneira que os outros entendam. É por isso que temos culturas tão distintas, mas que, igualmente, visam preservar a história de sua gente e a ordem na sociedade constituída; cristãos são diferentes de taoistas, budistas, umbandistas, e ainda assim procuram o bem comum! Porque nem o cristianismo, nem o taoísmo, nem qualquer outro ‘ismo’ ou cultura poderia comportar todo conhecimento de quem é Deus. Aliás, nem mesmo o universo inteiro poderia revelar a plenitude do Criador, pois, segundo o autor sagrado, os céus e a terra revelam apenas o que é possível dele ser conhecido. (vd.Rm.1,19)

Caso você pense diferente, não faça mal juízo de mim. É que talvez, por andarmos separados, tenhamos conhecido partes diferentes desse mesmo Deus.

Concluo dizendo que ninguém que realmente queira conhecer a Deus pode fechar-se em sua religião, cultura e filosofia. Para conhecermos, o quanto mais se pode conhecer desse Deus desconhecido e inconhecível, é necessário perder o medo do desconhecido, libertarmo-nos de nossos preconceitos, conhecer outros caminhos, religiões, culturas e filosofias, que não sejam as nossas, com a capacidade de respeitá-las, admirá-las, conviver e aprender com elas. Pois estou certo de que Deus revelou um pouquinho de si a cada pessoa, a fim de que conhecendo-nos e respeita-nos uns aos outros possamos juntos conhecer um pouco mais de Deus e a plena felicidade.


Sendo assim, a todos a paz de Cristo, Shalom, Namasté, Axé, Ahadith...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SOBRE HOMOSSEXUALIDADE

Por Julio Zamparetti

Se você descobrisse que seu filho é homossexual, amaria-o da mesma forma? Abençoaria a família que ele constituísse independentemente do modelo familiar? A despeito do que afirmam os fundamentalistas religiosos, acredito que Deus abençoa tal relacionamento. Afinal, uma coisa é o que a Bíblia diz, outra coisa é como a entendemos. É por isso que não temos pleno consenso em nossas interpretações. A única convicção teológica que tenho, hoje, é que o amor encobre multidão de erros, enquanto a falta dele aniquila qualquer chance de acerto. Assim não abro mão de amar indistintamente. Por isso amaria, aceitaria e abençoaria meu filho se fosse o caso, qual caso fosse.

Então o homossexualismo é abençoado por Deus? Duvido que Deus abençoe qualquer "ismo", seja ele qual for. Nem mesmo o cristianismo. Até porque nem Cristo é cristão. Os ‘ismos’ são doutrinas, conjuntos de ideias parciais organizadas para convencer alguém de uma “verdade” normalmente apresentada como absoluta. Destaco, portanto, que defendo o direito de pessoas viverem sua sexualidade seja homo ou hetero; mas de forma alguma defendo qualquer espécie de doutrinação, seja gaysista, machista, feminista, nazista, homofobista, evangelista, ou ceticista. Todas são formas de inculcar verdades particulares que tolhem o livre pensar alheio. E para não ser incoerente, não espero que Deus abençoe nem mesmo este meu antiismismo, pois uma antidoutrina não é mais que outra doutrina. Assim julgo ter apenas alguma chance de estar certo em alguma coisa, e se você quiser acreditar nisso, faça-o por sua conta e risco, se for livre para fazê-lo.

Mas por que o Apóstolo Paulo condenou os efeminados? Ora, se o texto estivesse realmente falando dos efeminados, no sentido da sexualidade, estaria isentando as lésbicas da mesma condenação. No entando, se o sentido real é o de ‘mole’ (tradução literal do grego ‘malakos’), pode estar se referindo a pessoas sem caráter, que se escondem atrás do fundamentalismo religioso e não têm firmeza para expressarem uma opinião livre e sincera, pessoas que não pensam por si, mas importam pensamentos de outros sem serem capazes de julgar qualquer “verdade” que lhes foi inculcada. Eu considero, e acredito que Deus também considere, que a falta de firmeza de caráter (malakos) é algo abominável e digno de condenação.

Lembre-se que amar é uma decisão, sexualidade não. Todas as teses que tentaram explicar a causa da homossexualidade foram derrubadas. Talvez isso tenha acontecido porque a homossexualidade não seja um mero efeito, mas simplesmente uma causa. Isso deveria ser especialmente entendido por quem acredita que não somos apenas corpo, mas corpo e espírito, pois se está comprovado que não há genes da homossexualidade, essa característica do ser deve estar no espírito, e não na carne. E sendo assim, eu até gostaria que a homossexualidade fosse apenas uma questão de influência demoníaca como creem alguns. Assim, “o problema” seria resolvido com um bom exorcismo ou banho de descarrego (rs). Mas ciente de que o não é esse o caso, fico com uma solução mais confiável, embora muito mais difícil: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei".

Então a homossexualidade vem de Deus? Eu não sei de onde mais poderia vir. É a própria Escritura quem diz que a carne vem do pó, que o espírito vem de Deus.

E quanto ao crescei e multiplicai, tantas vezes usado como argumento contra os relacionamentos homoafetivos, por conta da irreprodutibilidade, também deveria ser considerado em relação ao uso de anticoncepcionais. Ou será que seremos bíblicos apenas no que nos convém? Nesse aspecto acho biblicamente coerente o catecismo católico romano, que condena a prática homossexual e também a pílula e a camisinha. Coerente, mas impraticável, sejamos honestos. A prova dessa impraticabilidade é a concessão feita pelo próprio catecismo em relação aos métodos contraceptivos chamados de naturais. Mas estes não ferem também o mandamento que ordena a multiplicação? Mas se Deus desejar a concepção, a tabelinha não impedirá o desejo de Deus, dizem eles. Mas eu pergunto: que Deus é esse que depende da irregularidade de um método para realizar sua vontade? Por que o Deus que faz a virgem conceber não poderia realizar sua vontade a despeito de qualquer impedimento à concepção?


Engraçado é que qualquer ferramenta hermenêutica que você utilizar para justificar o uso de qualquer método contraceptivo, fortalecerá os argumentos que justificam a homoafetividade! Bem por isso, não me oponho nem a um, nem a outro. Acredito que sexo também foi feito para fazer-nos felizes. E se isso fere o fundamentalismo não estou preocupado. Sinto-me seguro na misericórdia de Deus, e disso não me faltam fundamentos. E se Deus é misericordioso, quem sou eu para contestar?

sábado, 5 de abril de 2014

A BÍBLIA É A PALAVRA DE DEUS?

Por Julio Zamparetti

Cumpre-me, inicialmente, dizer que a pergunta correta a respeito da Bíblia não é se ela é A PALAVRA DE DEUS. Enfatizo aqui o uso do artigo definido (A) que precede o termo Palavra de Deus, porque este dá à expressão uma definição objetiva, encerrando na Bíblia tudo o que Deus possa ter dito. Quanto a isso a própria Bíblia alega não encerrar em si o oráculo divino. O apóstolo João afirma que há tantas outras coisas que Cristo fez, que não haveria no mundo lugar para guardar os livros, caso tudo fosse escrito. Essa hipérbole denota o quão pouco da revelação de Deus está contida nas Escrituras, diante de todos os mistérios revelados, ou a serem revelados no mundo e por meio do mundo. O apóstolo São Paulo afirma que tudo o que se pode conhecer de Deus está revelado na criação. Essas revelações estão perfeitamente disponíveis na natureza, nas culturas, na ciência, na consciência, e no espírito (referindo-me às intuições, sonhos e percepções).

De fato, a Bíblia relata diversas formas para a manifestação do falar de Deus. Hora Deus fala por uma mula, outra hora por Balaão, um profeta pagão que profetizou a estrela que indicaria o nascimento de Jesus; fala aos magos (astrólogos) do oriente por meio dos astros, e ainda, na natureza, traz a revelação completa e direta de si mesmo, completamente isenta de erros de tradução. Então, dizer que a Bíblia e A Palavra de Deus, ou que somente a Bíblia é Palavra de Deus é, por si só, descrer da própria Bíblia.

Mas se este é um conceito tão antagônico em si, como pode ser tão defendido? Simples! Esse é nada menos que o principal artifício de dominação e manipulação popular de que a religião dispõe. Pois uma vez que o povo tenha aceitado a Bíblia como A PALAVRA DE DEUS, seu temor intrínseco não lhe permitirá contrariar o que nela está escrito, sob pena de se estar contrariando ao próprio Deus. Essa, portanto, é a deixa que a religião, no seu corpo institucional, precisa para que possa, com suas regras exegéticas, dar à Bíblia a interpretação que mais lhe convir, no intuito de que seus interesses particulares sejam recebidos e aceitos pelo povo como sendo a vontade inquestionável de Deus.

O medo de Deus torna esse conceito mais forte, que, por sua vez, torna o medo de Deus mais forte ainda. Enquanto essa roda gira, poucos têm coragem de descer e observá-la de fora. Os que fazem isso são logo excluídos da irmandade, porque esse círculo não suporta quem pense diferente. Na verdade, pouco suporta quem pense. Uma vez excluídos e logo taxados de hereges e desertores, os pensadores são postos em descrédito pelos demais que se firmam ainda mais no que pensam ser a verdade.

O circulo se fortalece porque o poder de massa é sempre muito forte. Cada um pensa: “se ele está certo, por que está sozinho? Será que só ele está certo e todos estão errados?”. O fato de ser minoria, já é um peso para quem se dispõe a questionar, e uma bengala para quem já não queria pensar. No caso, a maioria.

Como vimos, a Bíblia não reclama para si a autoridade de ser A PALAVRA DE DEUS. Além disso, ela não deixa esse espaço vazio, pois relata claramente a existência de A Palavra de Deus logo no início do Evangelho de São João: “No início era o Verbo, e o Verbo era Deus, e o Verbo estava com Deus”. Portanto, a Bíblia diz que JESUS, e não a Bíblia, é A PALAVRA DE DEUS. A Bíblia não existia no início, nem estava com Deus, nem era Deus.  Mas, de acordo com o conceito bíblico, Jesus sim.  Portanto, a pergunta correta com respeito à Bíblia é: a Bíblia é PALAVRA DE DEUS? (Agora omitindo o artigo definido “A”.)

Para responder essa pergunta, me reportarei ao conceito eucarístico, pouco conhecido nas igrejas do ocidente, chamado de Metabolo. Segundo este ensinamento, o pão consagrado  contém a presença de Cristo e se transforma espiritualmente no corpo de Cristo após ser ingerido pelo comungante, num processo de metabolismo espiritual. Não estou aqui defendendo este conceito em detrimento dos outros. Como padre anglicano, continuo mantendo a Eucaristia no conceito litúrgico de “mistério da fé”, portanto, sem explicação. Entretanto, gosto do conceito de metabolo para a reflexão a respeito de questões práticas da fé. Certo ou não, o conceito de metabolo me ensina uma verdade da qual não abro mão: participar do Corpo de Cristo não é um ato consumado na Celebração Eucarística. A comunhão apenas inicia o processo, chamando-nos a sujeitarmos nossa vida ao metabolismo espiritual, a ponto de que nossas atitudes mentais e físicas sejam uma clara manifestação da pessoa de Cristo. O resultado dessa metabolização é que sejamos transformados segundo a imagem de Jesus Cristo. No conceito de metabolo o pão só é corpo de Cristo se é ingerido com fé e disposição para viver o que propõe a mensagem da vida e morte de Cristo.

Fazendo um paralelo da Bíblia com o conceito do metabolo, a Bíblia se transforma em PALAVRA DE DEUS, quando, na semelhança do pão sagrado, é ingerida com fé e disposição para se viver o que propõe a mensagem da vida e morte de Jesus Cristo. Sem a fé e a disposição em viver Cristo, sem ter o amor como coluna vertebral de toda interpretação bíblica, sem a metabolização espiritual, a Bíblia continua sendo apenas uma coleção de livros, letra mortificante que, como podemos ver através das lentes da história da humanidade, provoca divisões, guerras, massacres e barbáries, serve de ferramenta para os vendilhões da fé, de fundamento para segregacionistas, racistas, machistas e homofóbicos, que vêem as pessoas como Cristo jamais as veria, e de Bíblia em punho as condenam como Cristo jamais as condenaria.

Tome muito cuidado, caro leitor, com aqueles que tentam te arrastar, mostrando-se irredutíveis em suas “verdades”, querendo te provar pela “Palavra” que você está errado e que, portanto, deve mudar para a igreja deles. Se as palavras proferidas por esses pregadores não manifestam o caráter de Cristo, se as interpretações não são motivadas por amor, nem geram compaixão pelos que sofrem, ao contrário, disseminam preconceito, discriminação e exclusão, esses tais podem até falar de Jesus, podem citar a Bíblia, mas o que expressam não é Jesus, não é Palavra de Deus.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A QUEM PERDOARDES...

Por Julio Zamparetti

Aos discípulos disse o Mestre: “a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-á perdoado. A quem retiverdes, ser-lhes-á retido”. Com isso diz a Igreja Católica que os padres têm o poder de conceder a absolvição ou deixar à condenação o pobre pecador. De carona, outras igrejas, mesmo sem crer no sacramento da absolvição, se aproveitam da ideologia para autenticar a autoridade de sua inquestionável liderança. Entretanto, é difícil, para qualquer ser pensante, crer que o Pai deixará a tarefa de absolver ou condenar pessoas nas mãos de uma casta de pessoas igualmente falhas, tão somente por conta de sua patente religiosa.

Se aos discípulos foi-lhes dado o poder de perdoar, isso não se deu pelo fato de portarem uma patente religiosa, nem porque Deus confiava neles para esse fim, mas porque as pessoas confiariam no que eles haveriam de falar a elas. Pois o verdadeiro poder das palavras não está nos lábios de quem as diz, mas no coração de quem, tendo escutado, acredita.

Se é verdade que Cristo disse que seus discípulos teriam o poder de perdoar ou reter pecados, também é bem verdade que ele mesmo ensinou a perdoar sempre. Portanto, o que cabe ao clero não é se colocar na porta de entrada do céu conferindo o alvará de entrada no reino eterno, mas sim proclamar aos quatro ventos que não há mais condenação alguma, e por isso não há mais sacrifício algum a se fazer para se alcançar a misericórdia divina; nem ofertas, nem dízimos, nem vales, nem velas, nem carmas, nem darmas. Tudo está consumado e todos são livres se assim crerem.

Mas de fato pecados são retidos. Não porque há alguém que tenha o poder mágico de retê-los, mas porque há pecadores que creem que esse alguém tem tal poder. E esse mesmo alguém sabendo da farsa, se cala, a fim de exercer o poder dominador sobre os indoutos de boa fé.

Exercer o poder de perdoar pecados é, tão somente, ter influência suficiente sobre alguém, a fim de que este alguém compreenda que o perdão já foi concedido a quem, simplesmente, entende que não existe mais qualquer maldição ou condenação, senão aquela da qual já fomos todos sentenciados, a saber, somos presos ao que cremos.

Portanto, a quem crê, resta-lhe a certeza que o caminho expurga todo mal. É caminhando, errando e acertando, caindo e levantando, que vivemos um purgatório constante onde o aprendizado da vida nos resgata da escuridão e nos faz ser melhores a cada dia. Isso não tem nada a ver com dogmas, rituais ou sacrifícios. Tem a ver com consciência, verdade e liberdade. Porque a verdadeira religião nos salva do religionismo, nos religa ao universo e nos faz livres.

O versículo referido no início deste ensaio não deve, nem pode ser interpretado como uma outorga que Cristo dá aos seus discípulos para que determinem quem recebe ou não o perdão de Deus, quem entra ou fica de fora do céu. Jesus não incumbiria seus discípulo de prestarem o desserviço que já era prestado pelos fariseus e pelo qual Jesus os repreendia, denunciando-os  por sentarem-se na cadeira de Moisés, não entrarem pela porta nem deixarem que outros entrassem. O versículo deve, sim, ser entendido como uma exortação de Cristo sobre a responsabilidade daqueles que se evidenciam no ministério eclesiástico, quanto aos reflexos gerados por seus ensinamentos. Porque o bom ensinamento sempre liberta. “Vós já estais livres, pela palavra que vos tenho ensinado”, disse o Verbo de Deus.

Entendo que essa seja a única forma de sermos livres, para livre amarmos, servirmos e contemplarmos a vida numa relação de adoração sincera ao criador. Doutro modo estaremos apenas trocando amarras por amarras, laços por laços, desprendendo-nos daqui para aprisionarmo-nos ali, enganando-nos numa pseudo-conversão  onde tudo que se faz é, na melhor das hipóteses, barganha, barganha e barganha infernal. Nesse negócio não há mudança de vida, porque a verdadeira mudança de vida só se dá pelo amor, no amor e para o amor. Jamais o medo do castigo mudou alguém. No máximo moldou, limitou, aprisionou, condicionou o estereotipo sem qualquer conversão do interiotipo.

Eu não sei se a religião, como a temos hoje, suportaria uma fé assim. Mas sei que a subsistência de uma fé superficial estereotipada não é benéfica. Jamais foi. A verdade é que ela, assim como a vemos vivida hoje e estampada ao longo da história, precisa, para sua subsistência, mais do inferno do que do céu, mais do diabo do que de Deus, mais do medo do que do amor, mais da delimitação do que da liberdade, e o pior de tudo, mais da mentira do que da verdade. Essa realidade nos faz pensar no que, de fato, essa religião está nos religando. Porque foi em nome dessa fé que velhas benzedeiras que só faziam o bem foram bruxificadas e caçadas até a morte; dádivas preciosas como a música e a dança foram demonizadas; riquezas culturais foras diabolizadas; pessoas boas foram marginalizadas por conta de sua orientação sexual; gente linda foi segregada e escravizada por causa da cor de sua pele e mulheres foram discriminadas pela culpa de terem nascido mulheres. Então me pergunto: Quem precisa perdoar a quem?

Por fim, a verdadeira função sacerdotal cristã não é reter nem deter qualquer poder, mas sim guardar a fé que é vivida no amor, zelar pela consciência da liberdade que Cristo dá a toda criatura, lutar por justiça e paz na terra e não deixar que as coisas sagradas desta vida se corrompam pelo dogmatismo religioso que afasta o ser humano da simplicidade do Evangelho e da liberdade que há em seu Espírito.

Essa é a fé que me faz livre, como livre é o Espírito que a proclama.

quinta-feira, 20 de março de 2014

SISTEMA OU LIBERDADE

Por Julio Zamparetti
Ontem a liturgia lembrou São José, que acolheu Maria e cumpriu o propósito de Deus por conta de um sonho. Poderia ter sido um texto da Torá ou do Talmud, a palavra de um profeta, o conselho de um sacerdote, mas não; ele deu ouvidos ao seu sonho e nesse sonho ouviu a voz do Anjo de Deus.
Você ouviu algum líder religioso falar isso? Posso apostar que não. Afinal, aos líderes religiosos interessa que ninguém encontre a voz de Deus em seus sonhos, no coração, no interior. A eles interessa que você compre seu sistema teológico onde todos os conceitos sobre o que crer, fazer e pensar estão sistematicamente prontos. Se é verdade que onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, o fato é que onde há sistematizações a realidade é bem diferente.
O pior de tudo isso é ver que nós mesmos nos acostumamos a buscar as respostas em terceirizações, e então esperamos que um pastor, padre, guru, pai de santo, necromante ou cartomante nos diga o que fazer. Isso porque é muito trabalhoso buscar as resposta dentro de nós mesmos, nossa insensibilidade não nos permite consultar o sopro do Espírito que nos deu a vida. É como se pensar doesse, então nos parece conveniente que outros pensem pela gente. Ademais, nos disseram que pensar diferente é heresia e quem assim o faz vai para o inferno. E agora, José? Sistema ou liberdade? Eis a questão.
Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. (II Coríntios 3, 17)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

PESCARIA DE FIM DE TARDE E OS VENDILHÕES DA FÉ

Por Julio Zamparetti

Depois de mais uma pescaria daquelas de fim de tarde, em que a gente vai mais interessado na atividade e relaxamento do que no próprio peixe, voltando pra casa, pensei nas igrejas evangélicas que um dia houveram naquele caminho (e lembro-me de pelo menos quatro). Observei que hoje não há mais nenhuma sequer. Fiquei pensando: onde estaria essa gente? Para onde foram seus pastores? Quantos encontraram outra igreja? Quantos voltaram para a igreja Católica? Quantos, desiludidos, abandonaram a fé? Quantos tiveram sua fé corrompida e depois foram abandonados por mercenários que se intitulavam missionários?

Como eu que buscava naquela pescaria a minha própria satisfação, alguns, não poucos, buscaram naquele vilarejo a satisfação de seu brio religioso. Lançaram suas redes tecidas com linhas de um evangelho estranho, baseado no que chamam de dom de revelação, visão do Espírito, profecias e outros recursos que realmente beiram a loucura (eu disse ‘beiram’ para ser gentil). Suas interpretações bíblicas são outro artifício maligno, sem contexto histórico, textual, nem mesmo gramatical, visam unicamente apregoar o velho anti-catolicismo, convencendo os católicos de que estão todos perdidos e que devem se converter à nova igreja. Dessa forma, arrebatam para si as ovelhas de quem tosquiarão até a última lã. Depois disso, lã tosquiada, fé corrompida, família dividida, escândalo deflagrado, máscara caída, dízimos recolhidos, é fim da tarde, recolher as redes, buscar outros mares. Eu disse mares? Imagine! Pescadores de fim de tarde não buscam mares, buscam açudes, quanto menor melhor, onde o peixe já foi bem tratado pelos criadores e não têm para onde correr.

O Evangelho não é uma teia de argumentos para convencer alguém de sua razão, muito menos para satisfazer o desejo de seres que querem ser seguidos por alguém; também não é uma forma de dominação, nem uma ação circunstancial e momentânea. Ele é antes, bem antes, o amor que nos compromete na caminhada constante e eterna pela paz entre os divergentes, unidade na diversidade, justiça social, preservação ambiental e co-responsabilidade humana.


Já disse Jesus: Se alguém pretende construir uma torre, veja antes se tem recursos para concluí-la. Infelizmente, esses falsos pastores não estão preocupados com o que será das ovelhas que nem são suas. Só querem saber de seu prazer, sua glória, sua demonstração de poder e assim serem vistos como “servos do Altíssimo”. Se depois não der certo, problema de quem fica. Como eu sei que novas igrejas, ou diria, torres malacabadas(sic) continuarão à surgir, resta-me o recurso de dizer a você que não seja mais uma vítima desses mercenários. O mundo precisa de conversões, sim! Conversões que manifestem mudança de atitude, não de religião.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

POR QUE AINDA VAMOS À IGREJA?

Por Julio Zamparetti 

Um Deus de promessas e serviço é o que todos procuramos. É isso que esperamos sentados e de mãos estendidas, pedindo que algo se nos dê, que alguma coisa aconteça. Mas será que realmente cremos em Deus? Não estaríamos depositando a fé, na verdade, numa espécie de Super-man? Afinal, para que nos serve esse Deus?

Volto a me perguntar: por que ainda vamos à igreja? O que procuramos nela? A resposta que ouço não é a mesma que vejo. Porque os nossos lábios dizem que vamos à igreja “adorar ao Senhor”, ao passo que nossas atitudes mostram  que vamos massagear nosso próprio ego, pois saímos de lá tão presunçosos e cheios de si, que tornamo-nos incapazes de nos identificarmos com os pecadores, pobres e miseráveis com quem Jesus se identificou, andou, serviu, conversou, sorriu, festejou, comeu e bebeu. Nossos lábios dizem que vamos “encontrar a Deus”, mas nossas atitudes mostram que não podemos vê-lo, porque só vemos maldade e malícia em tudo o que nos rodeia. Nossos lábios dizem que queremos ser cidadãos dos céus, todavia nossas atitudes mostram que, cada vez mais, estamos acorrentadas às futilidades e riquezas terrenas, de maneira que fizemos delas a própria razão de nossa fé. Nossos lábios dizem que queremos ser felizes, mas nossas atitudes mostram somente a infelicidade de apenas anestesiarmos nossas almas, já não sendo mais capazes de alcançar a felicidade de chorar com os que choram. Nossos lábios dizem que almejamos alcançar a misericórdia divina; no entanto, nossas atitudes mostram a impossibilidade disso, pois nos afastamos dela cada vez que a negamos a quem quer que dela necessite. E a despeito de tudo isso, ainda esperamos que Deus faça alguma coisa, que nossas orações mudem tudo e todos, mas nós mesmos não mudamos.

Deus não se fez um super-herói, se fez homem. Não fez por nós as coisas que devemos fazer, mas serviu sim de exemplo para que nós o seguíssemos, tomando nossa cruz e fazendo o que está à nossa mão para fazermos. Deus também não nos deu as respostas prontas. Como fez no passado, ainda hoje faz, nos leva a olharmos para o nosso interior e buscarmos as respostas no íntimo de nosso consciente, e depois disso, assumirmos as responsabilidades que venhamos a contrair através de nossas respostas e escolhas, principalmente quando, por conta delas, necessitarmos pedir perdão.

A igreja não existe para nos conduzir a um caminho de poder, mas sim para nos fazer entender nossas fraquezas e seguirmos a trilha da humildade e compaixão; não existe para nos fazer deuses, mas sim para nos tornar mais humanos, pois é justamente na nossa humanidade que Deus é revelado, e na nossa fraqueza sua força é manifestada. Afinal, assim como por uma humilde mulher nasceu o próprio Deus, assim também, em nossa pobre humanidade o Cristo é gerado. Ao que o anjo diz: “não temas receber Maria”, direi, então: não temas receber a humanidade do ser, não temas ser humano. A igreja não existe para aliviar a nossa consciência atulhada pelo nosso descaso com as causas ambientais e sociais, mas sim para nos comprometer com a luta por um mundo melhor, sem fome e mais justo. Se algo diferente disso existe - e lamentavelmente existe - com certeza não é igreja.

Estou convencido de que o templo é último lugar onde podemos encontrar a Cristo. Nas Escrituras Cristo é relatado apenas quatro vezes dentro do templo, das quais duas vezes ele ainda era um bebê. Entretanto, Cristo é relatado constantemente nas ruas, montanhas, praias, vilarejos, entre pecadores, leprosos, prostitutas, gente excluída de sua época e, como se isso não bastasse, Ele ainda disse que o encontraríamos nos presos e miseráveis desse mundo. Portanto, só encontrará Cristo na igreja quem for capaz de encontrá-lo em qualquer outro lugar. Por isso penso que a única razão pela qual devo ir à igreja é para aprender a viver no mundo. Se a igreja não ensina isso, nem para isso serve.