quinta-feira, 20 de março de 2014

SISTEMA OU LIBERDADE

Por Julio Zamparetti
Ontem a liturgia lembrou São José, que acolheu Maria e cumpriu o propósito de Deus por conta de um sonho. Poderia ter sido um texto da Torá ou do Talmud, a palavra de um profeta, o conselho de um sacerdote, mas não; ele deu ouvidos ao seu sonho e nesse sonho ouviu a voz do Anjo de Deus.
Você ouviu algum líder religioso falar isso? Posso apostar que não. Afinal, aos líderes religiosos interessa que ninguém encontre a voz de Deus em seus sonhos, no coração, no interior. A eles interessa que você compre seu sistema teológico onde todos os conceitos sobre o que crer, fazer e pensar estão sistematicamente prontos. Se é verdade que onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, o fato é que onde há sistematizações a realidade é bem diferente.
O pior de tudo isso é ver que nós mesmos nos acostumamos a buscar as respostas em terceirizações, e então esperamos que um pastor, padre, guru, pai de santo, necromante ou cartomante nos diga o que fazer. Isso porque é muito trabalhoso buscar as resposta dentro de nós mesmos, nossa insensibilidade não nos permite consultar o sopro do Espírito que nos deu a vida. É como se pensar doesse, então nos parece conveniente que outros pensem pela gente. Ademais, nos disseram que pensar diferente é heresia e quem assim o faz vai para o inferno. E agora, José? Sistema ou liberdade? Eis a questão.
Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. (II Coríntios 3, 17)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

PESCARIA DE FIM DE TARDE E OS VENDILHÕES DA FÉ

Por Julio Zamparetti

Depois de mais uma pescaria daquelas de fim de tarde, em que a gente vai mais interessado na atividade e relaxamento do que no próprio peixe, voltando pra casa, pensei nas igrejas evangélicas que um dia houveram naquele caminho (e lembro-me de pelo menos quatro). Observei que hoje não há mais nenhuma sequer. Fiquei pensando: onde estaria essa gente? Para onde foram seus pastores? Quantos encontraram outra igreja? Quantos voltaram para a igreja Católica? Quantos, desiludidos, abandonaram a fé? Quantos tiveram sua fé corrompida e depois foram abandonados por mercenários que se intitulavam missionários?

Como eu que buscava naquela pescaria a minha própria satisfação, alguns, não poucos, buscaram naquele vilarejo a satisfação de seu brio religioso. Lançaram suas redes tecidas com linhas de um evangelho estranho, baseado no que chamam de dom de revelação, visão do Espírito, profecias e outros recursos que realmente beiram a loucura (eu disse ‘beiram’ para ser gentil). Suas interpretações bíblicas são outro artifício maligno, sem contexto histórico, textual, nem mesmo gramatical, visam unicamente apregoar o velho anti-catolicismo, convencendo os católicos de que estão todos perdidos e que devem se converter à nova igreja. Dessa forma, arrebatam para si as ovelhas de quem tosquiarão até a última lã. Depois disso, lã tosquiada, fé corrompida, família dividida, escândalo deflagrado, máscara caída, dízimos recolhidos, é fim da tarde, recolher as redes, buscar outros mares. Eu disse mares? Imagine! Pescadores de fim de tarde não buscam mares, buscam açudes, quanto menor melhor, onde o peixe já foi bem tratado pelos criadores e não têm para onde correr.

O Evangelho não é uma teia de argumentos para convencer alguém de sua razão, muito menos para satisfazer o desejo de seres que querem ser seguidos por alguém; também não é uma forma de dominação, nem uma ação circunstancial e momentânea. Ele é antes, bem antes, o amor que nos compromete na caminhada constante e eterna pela paz entre os divergentes, unidade na diversidade, justiça social, preservação ambiental e co-responsabilidade humana.


Já disse Jesus: Se alguém pretende construir uma torre, veja antes se tem recursos para concluí-la. Infelizmente, esses falsos pastores não estão preocupados com o que será das ovelhas que nem são suas. Só querem saber de seu prazer, sua glória, sua demonstração de poder e assim serem vistos como “servos do Altíssimo”. Se depois não der certo, problema de quem fica. Como eu sei que novas igrejas, ou diria, torres malacabadas(sic) continuarão à surgir, resta-me o recurso de dizer a você que não seja mais uma vítima desses mercenários. O mundo precisa de conversões, sim! Conversões que manifestem mudança de atitude, não de religião.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

POR QUE AINDA VAMOS À IGREJA?

Por Julio Zamparetti 

Um Deus de promessas e serviço é o que todos procuramos. É isso que esperamos sentados e de mãos estendidas, pedindo que algo se nos dê, que alguma coisa aconteça. Mas será que realmente cremos em Deus? Não estaríamos depositando a fé, na verdade, numa espécie de Super-man? Afinal, para que nos serve esse Deus?

Volto a me perguntar: por que ainda vamos à igreja? O que procuramos nela? A resposta que ouço não é a mesma que vejo. Porque os nossos lábios dizem que vamos à igreja “adorar ao Senhor”, ao passo que nossas atitudes mostram  que vamos massagear nosso próprio ego, pois saímos de lá tão presunçosos e cheios de si, que tornamo-nos incapazes de nos identificarmos com os pecadores, pobres e miseráveis com quem Jesus se identificou, andou, serviu, conversou, sorriu, festejou, comeu e bebeu. Nossos lábios dizem que vamos “encontrar a Deus”, mas nossas atitudes mostram que não podemos vê-lo, porque só vemos maldade e malícia em tudo o que nos rodeia. Nossos lábios dizem que queremos ser cidadãos dos céus, todavia nossas atitudes mostram que, cada vez mais, estamos acorrentadas às futilidades e riquezas terrenas, de maneira que fizemos delas a própria razão de nossa fé. Nossos lábios dizem que queremos ser felizes, mas nossas atitudes mostram somente a infelicidade de apenas anestesiarmos nossas almas, já não sendo mais capazes de alcançar a felicidade de chorar com os que choram. Nossos lábios dizem que almejamos alcançar a misericórdia divina; no entanto, nossas atitudes mostram a impossibilidade disso, pois nos afastamos dela cada vez que a negamos a quem quer que dela necessite. E a despeito de tudo isso, ainda esperamos que Deus faça alguma coisa, que nossas orações mudem tudo e todos, mas nós mesmos não mudamos.

Deus não se fez um super-herói, se fez homem. Não fez por nós as coisas que devemos fazer, mas serviu sim de exemplo para que nós o seguíssemos, tomando nossa cruz e fazendo o que está à nossa mão para fazermos. Deus também não nos deu as respostas prontas. Como fez no passado, ainda hoje faz, nos leva a olharmos para o nosso interior e buscarmos as respostas no íntimo de nosso consciente, e depois disso, assumirmos as responsabilidades que venhamos a contrair através de nossas respostas e escolhas, principalmente quando, por conta delas, necessitarmos pedir perdão.

A igreja não existe para nos conduzir a um caminho de poder, mas sim para nos fazer entender nossas fraquezas e seguirmos a trilha da humildade e compaixão; não existe para nos fazer deuses, mas sim para nos tornar mais humanos, pois é justamente na nossa humanidade que Deus é revelado, e na nossa fraqueza sua força é manifestada. Afinal, assim como por uma humilde mulher nasceu o próprio Deus, assim também, em nossa pobre humanidade o Cristo é gerado. Ao que o anjo diz: “não temas receber Maria”, direi, então: não temas receber a humanidade do ser, não temas ser humano. A igreja não existe para aliviar a nossa consciência atulhada pelo nosso descaso com as causas ambientais e sociais, mas sim para nos comprometer com a luta por um mundo melhor, sem fome e mais justo. Se algo diferente disso existe - e lamentavelmente existe - com certeza não é igreja.

Estou convencido de que o templo é último lugar onde podemos encontrar a Cristo. Nas Escrituras Cristo é relatado apenas quatro vezes dentro do templo, das quais duas vezes ele ainda era um bebê. Entretanto, Cristo é relatado constantemente nas ruas, montanhas, praias, vilarejos, entre pecadores, leprosos, prostitutas, gente excluída de sua época e, como se isso não bastasse, Ele ainda disse que o encontraríamos nos presos e miseráveis desse mundo. Portanto, só encontrará Cristo na igreja quem for capaz de encontrá-lo em qualquer outro lugar. Por isso penso que a única razão pela qual devo ir à igreja é para aprender a viver no mundo. Se a igreja não ensina isso, nem para isso serve.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

OS DIREITOS DOS HOMOSSEXUAIS

Por Julio Zamparetti

Dia desses alguém me disse: "entendo que os direitos que (os homossexuais) estão a reivindicar já estão contemplados nos direitos da pessoa humana, cobertos por nossa constituição".

Essa é a maior bobagem que alguém pode dizer em relação a esse assunto. Simplesmente porque os direitos que contemplam a mim, que sou hétero, atendem as minhas necessidades; necessidades de quem nunca sofreu preconceito por amar uma mulher e casar com ela; necessidades de quem nunca apanhou na rua por conta, tão somente, de sua orientação sexual; necessidades de quem nunca foi discriminado pela religião pelo fato de ser hétero; necessidades de quem criou dois filhos sem que jamais alguém tenha insinuado que eles sofreriam algum dano educacional, ou emocional, por serem criados por um pai e uma mãe. A verdade é que, até então, os direitos constitucionais só contemplam os homossexuais, caso "optem" viver como héteros. Que democracia é essa? Que respeito é esse? Que justiça é essa?

É preciso lembrar que a igualdade de direitos não se dá com uma legislação igual para todos. Alíás, uma legislação igual para pessoas diferentes, torna os direitos ainda mais desiguais. Por favor, entendam que crianças, mulheres, pobres, negros e homossexuais necessitam de uma legislação diferenciada a fim de que obtenham a igualdade que o berço e o preconceito lhes negou. Sem isso, não há justiça.


E antes que se entre num debate infindável de teologia, vale lembrar que a teologia diz respeito a fé, e não a legislação federal. Em outras palavras, não queiram resolver os problemas sociais de um país laico, a partir de seus conceitos e preconceitos religiosos. Estes já causaram danos  demais à própria religião, que não façam o mesmo à nação.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

INTOLERÂNCIA INTOLERÁVEL

Por Julio Zamparetti


Sim, é paradoxal, mas não tolero mais a intolerância! Cansei de tanto ódio em nome do amor! Não suporto mais tanto julgamento em nome daquele que disse que a ninguém veio julgar!

Em dias de liberdade religiosa, simplesmente, nos esquecemos de ser livres. Deixamos que nos escravizem, e porque deixamos, melhor seria dizer que nos auto-escravizamos nos preconceitos, superstições e dogmas.  

Esquecemos de que a revelação divina se dá numa pessoa, não num livro; que o próprio Cristo afirmou que seria encontrado nos pequeninos sofredores, não nas paredes frias; nos humildes, não nos poderosos; no espírito, não nas letras; na acolhida, não na lei; nos braços abertos, não no dedo apontado.

“O verbo virou gente”. Virou gente por tratar-se de um, apenas um, verbo singular: ‘AMAR’. Só o amor vira gente. Gente como a gente, diversamente, é. Só o amor humaniza as palavras e diviniza o ser humano. E faz tudo isso sem oprimir, sem reprimir, sem condenar, sem cobrar coisa alguma, sem mentir, sem julgar, sem ofender, sem ameaçar infernos, sem prometer céus.

Talvez seja por isso que temos errado tanto... Talvez seja por isso que nossas religiões não tenham nos religado, pelo contrário, só nos separam... Talvez tenhamos conjugado o verbo errado. 

Diz a liturgia: “O amor de Cristo nos uniu”.

Quem sabe um dia!

Por que não agora?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

UM PAPO FRANCO SOBRE HOMOSSEXUALIDADE, PESQUISAS E PRECONCEITO

Por Julio Zamparetti

Amigos - falo com aqueles que, como eu, têm convicção de sua condição heterossexual - façamos, cada um para si, uma simples pergunta e a respondamos com honestidade: a homossexualidade é uma opção para mim? Se a resposta for ‘não’, há que se pensar que exatamente porque a homossexualidade não é uma opção pra mim que sou hétero, não posso acreditar que a heterossexualidade possa ser uma opção para o homossexual. Por outro lado, se para você a homossexualidade é uma opção, hétero você não é.

Quanto ao argumento desses religiosos que defendem que ninguém nasce gay por conta de não existir um cromossoma gay, digo que é lamentável ver quem fala em nome da Igreja defendendo a concepção de que as características humanas sejam definidas tão somente pelo código genético, esquecendo-se de que não somos meramente somáticos, mas principalmente espirituais. Nosso DNA não determina nada além da condição física. Defender a definição da condição humana tão somente pelos atributos genéticos é no mínimo muito estranho para quem prega os valores e o poder da espiritualidade. Mais estranho ainda é ver a religião usar da Bíblia para negar a própria antropologia bíblica, seja ela interpretada de forma dicotomista (corpo e espírito) ou tricotomista (corpo, alma e espírito). Afinal, tudo o que não se espera dos religiosos é que defendam a concepção de que somos apenas matéria.

Aos religiosos que se apegam ao argumento de que “somente se pode defender o conceito de que uma pessoa nasça homossexual, se tal comportamento estiver definido na genética”, vale a seguinte pergunta: pelo que se pauta a igreja: a antropologia bíblica, ou crê que não passamos de matéria? Como cristão, considero o que diz as Escrituras e elas dizem que somos corpo e espírito, não apenas corpo, não apenas DNA. A verdade é que ninguém pode negar o fato de que crianças, em tenra idade, demonstram as tendências de sua orientação sexual, mesmo sem terem a menor noção do que seja sexo. Se isso não está codificado no DNA, certamente o está no espírito que Deus o deu. Assim, não se pode discriminar alguém por conta da forma como Deus o fez.

Preciso, também, dizer que não existe cura gay, pois para haver cura primeiro tem haver doença, o que não é o caso. A psicologia pode até ser muito eficaz no que chamam de “redirecionamento sexual” que promete transformar um gay em hétero. A programação neurolinguística, por exemplo, poderia ter muito êxito nisso. O problema é que a mesma técnica e eficácia pode ser usada no sentido inverso, fazendo um hétero virar gay (aiaiai!!! Rsrs). Logo, isso não é redirecionamento, mas apenas direcionamento, uma manipulação psíquica. Isso é tão antiético e assustador quanto uma manipulação genética de um ser humano.

Sendo assim, não esqueça que sexualidade não é um caso de opção, preconceito é; sexualidade não é doença, preconceito é.

terça-feira, 18 de junho de 2013

VINTE CENTAVOS DE REAIS OU TRINTA MOEDAS DE PRATA?

Por Edmar Pimentel


Ao ver os protestos nas noticias dos jornais de hoje, fiquei pensando qual seria a atitude de JESUS diante de tudo isso. 

Pensei um monte de situações onde JESUS seria contra uns e a favor de outros ou a favor dos primeiros e contra os últimos. Lembrei-me do texto onde Ele destrói a feira do templo dizendo que a casa de seu Pai é casa de oração (Mc 11,17).

Pensei um pouco mais e lembrei-me daquela ocasião em que os discípulos preocupados com a multidão pediram ao Mestre que despedisse em paz o povo para que chegassem a tempo nos povoados e encontrassem restaurantes e lanchonetes abertas e JESUS respondeu: daí-lhes vós de comer (Lc 9,13).

Pensei na viúva que estava caminhando para sepultar o único filho (Lc 7,12-14), na samaritana à margem do poço (Jo 4), no paralítico esperando ajuda para mergulhar no tanque porque não tinha quem o ajudasse (Jo 5), e no próprio JESUS às portas de Jerusalém quando emocionado expressou: Jerusalém quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... E tu não quiseste! (Mt 23,37). 

Achei o texto do Bom Samaritano (Lc 10,27 ss) e percebi a preocupação de JESUS com o Reino e que este Reino é formado pelos pobres deste mundo e que o texto do Bom Samaritano começa com um teste sobre seus significados para os dias atuais quando Jesus questiona a aplicação da lei para seus dias perguntando sobre quem é o meu próximo? Ele conta a história... Mas de certa forma nenhum desses textos traduz o que sinto. Por outro lado chama à atenção a atitude de JESUS diante dos menos favorecidos, a quem sempre olhou e estendeu a mão e sempre buscou interceder e até se por no lugar, afinal por quem JESUS morreu mesmo? – É a pergunta que não quer calar. E assim também não devo me calar, não posso fazê-lo, as “pedras” estão clamando! (Lc 19,40).

Jesus de forma pacífica “revolucionou o mundo inteiro” cantava o “profeta” Raul. Vamos procurar ler o que dizem esses sinais de movimentação popular. Vamos ver e quem sabe nos unir aos pobres do Reino, se de fato os temos entre nós.