terça-feira, 12 de abril de 2011

ENXERGAMOS O OUTRO CONFORME SOMOS

Conta uma popular lenda do Oriente que um jovem chegou á beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho perguntou-lhe:

-Que tipo de pessoa de pessoa vive nesse lugar?



-Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem? - perguntou por sua vez o ancião.



-Oh, um grupo de egoístas e malvados - replicou o rapaz - Estou satisfeito de ter saído de lá.



A isso o velho replicou:



-A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui.



No mesmo dia, um outro jovem de acercou do oásis para beber água e, vendo o ancião, também perguntou-lhe:



-Que tipo de pessoa vive neste lugar?



-Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem?-perguntou por sua vez o ancião.



O rapaz respondeu:



-Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter que deixá-las.



-O mesmo encontrará por aqui - respondeu o ancião.



Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou o velho:



-Como é possível dar respostas tão diferentes á mesma pergunta?


Ao que o velho respondeu:


- Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui. Somos todos viajantes no tempo e o futuro de cada um de nós está escrito no passado. Ou seja, cada um encontra na vida exatamente aquilo que traz dentro de si mesmo. O ambiente, o presente e o futuro somos nós que criamos e isso só depende de nós mesmos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

NÃO SERIA COMPLETO, SE NÃO FOSSE IMPERFEITO

Por Julo Zamparetti

Quando Jesus fez lodo com saliva e terra e pôs sobre os olhos daquele cego de nascença, não sujou o homem, apenas o fez lembrar quem de fato era. E de fato, aquele homem, assim como nós, era barro, pó que ao pó retornaria. Ninguém pode sujar a terra com terra, do mesmo modo que não se pode molhar a água. Jesus fez uso de uma pedagogia semelhante a das cinzas, já usada pelos judeus e perpetuada na tradição cristã. Essa pedagogia nos ensina a reconhecermos quem somos e nos defendermos dos males causados por nossa própria presunção e vaidade. Em outras palavras, só podemos ter nossos olhos espirituais abertos quando reconhecemos a necessidade que temos da lavagem de nossas almas nas águas do Espírito.

É nesse estágio que podemos perceber que a perfeição tão requerida pelo senso de espiritualidade se dá não só em reconhecer, mas também saber lidar com nossas imperfeições. O termo ‘perfeito’ significa completo (per-feito = por-concluído). Logo, devemos concluir que ninguém poderá ser completo se não souber viver suas imperfeições, suas angústias, suas dores. A vida é vazia quando não interage com a morte, a riqueza perde o sentido quando não se envolve com a miséria, a alegria perde o gozo quando não há espaço para a melancolia. Quem entende isso descobre o sentido das palavras do Mestre: “felizes os que choram”, “bem-aventurados os pobres pelo espírito”.

Insisto em afirmar que a perfeição não está na ausência do erro, pois onde há ausência, já não há completude. Logo, a perfeição se dá em simplesmente viver a vida em todas as suas dimensões. Não é perfeito quem não cai, nem é completo quem não se levanta após a queda. Nem mesmo Deus seria perfeito se não houvesse provado a dor da humanidade, sua queda e maldição.

“Não deixe o sol morrer, errar é aprender, viver é deixar viver”. Acho, sinceramente, que essa música de Frejat não seria tão espiritual e verdadeira se não fosse secular. Digo isso porque a mensagem da religião, em nossos dias, nem de longe tem essa completude. Pelo contrário, o que se ouve dela é uma mensagem enganosa de triunfalismo gospel, cheia de jargões e padrões de moralidade aparente que reflete bem a intenção daqueles que buscam na religião um disfarce “santo” para a vida pútrida em que tudo é permitido, conquanto nada venha a público. E este fato denuncia a falácia do fundamentalismo religioso, pois nem Cristo, nem os profetas, nem os apóstolos acobertaram qualquer hipocrisia, antes levavam seus seguidores e a si mesmos a reconhecerem suas debilidades. Enquanto a luz de Cristo revela toda imundície de nossas almas, a religião dá aos seus seguidores a falsa sensação de que tudo está purificado; enquanto Cristo aplicava lodo aos olhos, para que até o cego pudesse ver o quanto era pecador, a religiosidade passa óleo perfumado fazendo os pecadores não verem suas misérias e ainda pensarem ser príncipes. De tão cegos, se entregam ao desejo de serem juizes, acusadores e inquisidores de seus semelhantes. Dessa forma o fiel religioso repete o erro tão enfaticamente denunciado por Cristo, de ser religiosamente sepulcro caiado.

Amar alguém, requer amar por inteiro. Advirto que quem quiser me amar não poderá amar-me apenas nos aspectos em que sou luz, porque não sou apenas luz. Queres saber quanto tenho de trevas? Não poderei dizê-lo, pois nem mesmo eu posso saber! Afinal, trevas é área cega. Logo, o amor é um tremendo risco. Talvez por isso seja perfeito!

É que o amor encobre uma multidão de nossas imperfeições! Encobre... não remove! É que se ele as removesse ficaríamos incompletos, e já não poderíamos mais ser perfeitos.

Como se diz numa máxima das artes plásticas: “a perfeição está nas imperfeições”. Amemo-nos, pois, uns aos outros. Amor incondicional, completo, perfeito!

quinta-feira, 31 de março de 2011

CONTRA QUEM LUTAMOS (V) O Gadareno

Por Julio Zamparetti

“Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios que, havia muito, não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia nos sepulcros. E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo em alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes. Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem, pois muitas vezes se apoderara dele. E, embora procurassem conservá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despedaçava e era impelido pelo demônio para o deserto. Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião, porque tinham entrado nele muitos demônios. Rogavam-lhe que não os mandasse sair para o abismo (Lucas 8:27-31).


Para compreendermos o que ocorreu neste episódio, faz-se necessário entendermos o contexto científico da época. Naqueles dias, cria-se que a terra era como um círculo e não como uma esfera. Acreditava-se que se navegássemos muito além da costa chegaríamos ao fim do “círculo” terrestre e cairíamos num eterno nada. Daí o uso da palavra abismo que vem do grego ábyssos e significa literalmente “sem fundo”. Portanto, cair no abismo significava cair numa eterna inexistência, ser expulso da terra, ser extinto do mundo dos vivos. Assim, entendemos porque em Marcos 5:10 diz que os demônios rogavam-lhe que os deixassem ficar naquela província. Estar na província era estar entre os vivos. Para o gadareno, permanecer com seus demônios na província, significaria viver a ameaça constante de ser tomado novamente pelos mesmos demônios, ou mesmo poder voltar a eles tão logo, assim, quisesse. Lançá-los ao abismo significaria extingui-los para sempre de sua vida.


O que se passava no interior do gadareno não era um estado de inconsciência, mas sim um conflito de consciência, um trauma da luta entre quem ele queria ser versus quem ele conseguia ser. Queria ser livre, sociável, comum, mas como suas iniciativas anteriores, tanto quanto a ajuda de seus parentes e amigos, foram frustradas, pensava que melhor lhe seria manter seus demônios na província e se conformar, apenas, com o que conseguisse ser. Ninguém vive por prazer a vida que este homem vivia. Sua vida era fruto de quem desejava respeito, integridade, liberdade, trabalho, dignidade, mas não havendo encontrado forças, nem condições de ser assim, mergulhou no mundo exatamente oposto àquele que desejou e não alcançou.


A verdade é que muitas vezes queremos nos ver livres das conseqüências do velho modo de vida, mas também queremos que este velho modo de vida continue na província, por perto, para quando o desejarmos de volta, ainda que por um tempo muito breve. Assim, muitas vezes nos prolongamos em situações que nos fazem regressar às coisas que Cristo já havia nos libertado. Nesses casos, pedimos a Jesus nossa libertação de todos os demônios, mas não queremos que nenhum deles seja extinto, pois estamos tão acostumados a eles, que já nos parecem familiares.


Outro fator que inibe a completa libertação são os juízos precatórios dos pregadores do terror, que anunciam aos quatro ventos que os demônios estão na província e poderão devorar você, ou porque você tem um pecado não confessado da infância, ou porque você tem algum pecado oculto que nem mesmo você sabe qual. Desse modo, as pobres e indefesas ovelhas caem numa completa neurose, vendo demônios em cada sombra, aterrorizadas pela possibilidade de que cada ato seu pode ser uma “base legal” para o inimigo.


Leia também os capítulos anteriores:

http://juliozamparetti.blogspot.com/2011/03/o-mudo-endemoninhado-terca-polemica-iv.html

http://juliozamparetti.blogspot.com/2011/03/terca-polemica-3-demonios-feitos-pela.html

http://juliozamparetti.blogspot.com/2011/03/terca-polemica-parte-2.html

http://juliozamparetti.blogspot.com/2011/03/terca-polemica-parte-1.html

segunda-feira, 28 de março de 2011

QUEM GOSTA DE ROTINA

Por Julio Zamparetti

Quando aquela mulher samaritana pediu que Jesus lhe desse água viva a fim de que não precisasse mais ir até aquele poço, uma coisa ficou bem evidente: ela estava cansada daquela rotina.

Todos nós somos como aquela mulher, e facilmente nos cansamos das repetidas tarefas diárias, dos hábitos costumeiros e até da vida.

Então, quando Jesus lhe pediu para que trouxesse seu marido, ela lhe disse então que não tinha marido. Ao que Jesus falou: “bem disseste... porque o marido que agora tens, não é teu”. Depois de cinco casamentos, “ter marido” parece ter se tornado uma rotina na vida daquela mulher. Talvez o pior aspecto da rotina seja que aquilo que temos deixa de ser nosso. Fica sempre a sensação de que nosso trabalho já não é nosso, mas nós somos dele; nossos bens já não nos pertencem, ao contrário, parece que pertencemos a eles, deixamos de controlar as coisas para por elas sermos controlados.

Diante dessa circunstância a saída mais obvia que nos vem à mente é a mudança: mudar de carro, mudar de casa, mudar de emprego, mudar de mulher ou de marido, mudar de cidade ou mesmo de país. Infelizmente, a verdade é que esse escapismo, nada mais é que mudar de problema.

Não precisamos mudar de problemas, precisamos, sim, resolvê-los. E a solução não se trata de deixar a rotina, mas mudar a perspectiva que temos dela.

Costumeiramente reclamamos por ter que “lavar roupa todo dia”, fazer o mesmo itinerário, cumprir o mesmo horário, atender os mesmos clientes, usar os mesmos argumentos, encontrar as mesmas pessoas, resolver os mesmos problemas. A partir disso sonhamos em mudar de vida, quem sabe se ganhasse na mega sena... quem sabe se... se... se...

Talvez tenhamos sido ingratos pela graça da rotina. Pois são as rotinas que nos fazem valer os cabelos brancos. Já dizia São Paulo que as provações produzem perseverança, e esta, por sua vez, produz experiência que nos leva a ter esperança. Ou seja, a mesma rotina que faz os problemas se repetirem, também nos permite aprender a resolvê-los.

Se não fosse a rotina, não poderíamos aprender absolutamente nada da vida. Cada dia seria uma incógnita. A experiência de ontem em nada nos ajudaria hoje, e a de hoje não valeria nada amanhã. A rotina da qual nos queixamos é a mesma que nos permite nos precavermos dos percalços constantes.

Não foi a toa que o salmista pedia a Deus que lhe servisse um banquete diante de seus inimigos. A melhor forma de se livrar dos problemas é enfrentando-os, não fugindo, mas enfrentando-os sob uma nova perspectiva, a perspectiva cristã.

Nessa perspectiva cristã, barreiras não são empecilhos, mas desafios; a queda não é uma derrocada, mas uma nova oportunidade de se levantar; para o cristão, nem mesmo a morte é o fim.

A solução não é mudar a rotina. E antes que a própria mudança de rotina se torne rotineira, importa que nos renovemos no espírito e vejamos a rotina sob um prisma de renovação.

Graças à rotina você poderá fazer melhor hoje, o que não fez tão bem ontem; poderá agir corretamente a respeito do que errou ontem; poderá retratar-se amanhã das gafes que vier a cometer hoje; poderá ser mais amável com quem faltou carinho. Na perspectiva cristã, a rotina não é repetição, é recomeço, é nova vida!

“Vai e não peques mais”.

quarta-feira, 23 de março de 2011

PASTOR QUEIMA O ALCORÃO

Terry Jones causou reações diversas no ano passado quando foi noticiado de que ele queimaria o livro sagrado dos mulçumanos. Diante das reações Jones desistiu do ato, mas nos últimos dias voltou atrás e ateou fogo em um exemplar do Alcorão.

Na noite de domingo, o polêmico pastor líder de uma igreja de Gainesville, Flórida, programou uma espécie de julgamento dentro de sua igreja, sendo que o réu era o livro sagrado para os mulçumanos. A congregação declarou o Alcorão culpado de várias acusações, entre elas assassinato. Em seguida a pena foi executada: o exemplar foi queimado.

Os jornais internacionais relataram que o livro foi molhado com querosene e colocado em um recipiente de metal no centro do templo da igreja “Dove World Outreach Center”. O exemplar queimou por 10 minutos.


“Tentamos dar ao mundo muçulmano uma oportunidade de defesa de seu livro”, disse o pastor Terry Jones.

Os planos de Jones era queimar os exemplares do Alcorão em sua igreja no aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos. Após as fortes reações no mundo muçulmano e das críticas de líderes internacionais, incluindo o presidente americano Barack Obama, Jones desistiu da ideia e afirmou que nunca mais voltaria a tentar queimar um Alcorão.

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Fonte: http://www.genizahvirtual.com/2011/03/pastor-queima-o-alcorao-este-e-cabra.html

terça-feira, 22 de março de 2011

CONTRA QUEM LUTAMOS (IV) - O MUDO ENDEMONINHADO

Por Julio Zamparetti

“Ao retirarem-se eles, foi-lhe trazido um mudo endemoninhado. E, expelido o demônio, falou o mudo; e as multidões se admiravam, dizendo: Jamais se viu tal coisa em Israel!” (Mateus 9:32-33)

Neste texto encontramos o relato do episódio de um mudo que ficou curado logo que Jesus expeliu o demônio. Observe que não há relato de que este mudo fosse surdo, ele apenas não falava, mas certamente podia ouvir, caso contrário Mateus relataria a cura de um surdo-mudo ou tão somente um surdo. Ou seja, sua mudez não era conseqüência de surdez, mas possivelmente de algum trauma (doença da alma) que simplesmente o fizera calar-se, ou a ausência ou deformação das pregas vocais (doença física não diagnosticável naquela época), ou um aneurisma ou derrame cerebral (essas sim, nem se sonhava existirem). Qualquer que tenha sido a causa, uma vez que o mudo não era surdo, Mateus não poderia, naquela época, compreende-la, então a atribuiu ao demônio.

Na verdade, não há registro de que forma Jesus tenha expelido o demônio, mas o que quer que Jesus tenha dito ou feito, curado a alma ou o físico, quem o viu, naqueles dias, não saberia distinguir nem o mal, nem a cura, pois enquanto a medicina da época era extremamente limitada, para Jesus não havia limitações, nem restrições para desfazer um trauma ou implantar pregas vocais, perdoar pecados ou curar um paralítico. Jesus não esperaria até que os homens descobrissem, em termos científicos, o que causara aquele mal para só então curá-lo. Jesus curava a quem quisesse, de qualquer mal, e quando o descrevia, o fazia conforme o entendimento do povo.

O poder de Jesus é superior a qualquer enfermidade ou mal que possa acometer o ser humano, seja qual for sua causa. Entretanto, algumas vezes nos é muito difícil crer, simplesmente, no cuidado divino sobre nós, e assim queremos fazer o trabalho que é de Deus, como se a virtude de curar fosse de propriedade nossa. Então nos assentamos na cadeira do médico dos médicos e cuidamos de proferir os mais absurdos diagnósticos, e entre tantos devaneios decide-se pôr a culpa nos demônios e no moribundo que supostamente “deu brecha pro diabo”, ou ainda culpar seus pais, que pecaram e com isso atraíram maldição sobre seu filho. Nesse aspecto a doutrina da cura tem servido apenas para deixar as pessoas ainda mais doentes.

É perfeitamente compreensivo que, há dois mil anos atrás, a causa de epilepsias e doenças psicossomáticas fosse atribuída aos demônios, pela falta do conhecimento científico. Mas é inadmissível, nos dias de hoje, lançar tal fardo psicológico sobre um enfermo, sabendo que a doença física não é propriedade de demônios. Se assim fosse, deveríamos concluir que os idosos são mais volúveis a ação dos demônios que os jovens, e que na medida em que os jovens envelhecem também se tornam cada vez mais suscetíveis aos ataques demoníacos, já que a tendência é que com o passar dos anos venham também o enfado e suscetíveis enfermidades. Ora, dizer que tais desventuras são provenientes de domínio demoníaco seria, no mínimo, um desrespeito aos anciãos, a quem Bíblia trata com toda a devida honra, e a quem nós também devemos honrar.

É por causa das pregações em que se aloca enfermidades a demônios, que muitas pessoas entram num verdadeiro poço de desgosto ao serem acometidas por qualquer mal, principalmente quando a resposta de Deus às suas petições de cura é “a minha graça te basta”. Até mesmo os pregadores dessa “teologia” entram em “parafuso” quando se encontram enfermos. Tenho conhecido a muitos que expulsam demônios de si mesmos, quase enlouquecem tentando descobrir a brecha que deram para que satanás os tomasse com doença, e por fim, acabam se consultando com um médico em outra cidade para que seus liderados não saibam que esteve doente. Ora, ora! Se conhecessem a Palavra que Cristo pregou, já estariam limpos dessa mentira.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O PECADO, A LEI, A GUERRA E A SEXUALIDADE

Por Julio Zamparetti

O pecado sempre tem razão de ser pecado. Nenhum pecado é pecado simplesmente por ser pecado, assim como nenhum mandamento, ou lei, é instituído simplesmente para ver quem o obedece. O pecado é pecado porque lesa o corpo, o espírito, o meio ambiente, a criação, as pessoas e os relacionamentos. Em contraponto, a Lei é instituída tendo em vista a preservação de tudo que possa ser lesado pelo pecado. Logo, o dimensionamento do pecado, bem como a importância da lei, não está no ato, ou lei, em si, mas nos efeitos que eles produzirão. Matar e roubar seriam pecados iguais, se não fosse a diferença atribuída aos seus efeitos. Da mesma forma, a importância da Lei está na prevenção ou remediação da lesão provocada pelo pecado. Uma Lei que não tenha esses propósitos, não tem razão de existir.

A partir dessa premissa entendemos que o pecado é redimensionado, podendo assumir a dimensão de insignificância ou abominação, conforme o efeito gerado em determinado tempo ou cultura. Em certos casos, esse redimensionamento pode transformar aquilo que se tinha por pecado em benesse, ou vice-versa. Se em tempos modernos, o ato de um homem casado possuir a viúva de seu irmão, que morreu sem filhos, apenas para fazer-lhe um filho é pecado, em tempos bíblicos isso era virtude e lei, uma “obrigação de cunhado” (Dt 25.5), conhecida como lei do levirato.

É por essa razão que não se pode fazer doutrina tomando por base a letra das Escrituras sem investigar seu espírito. E para isso deve-se entender o contexto histórico e social no qual estavam imersos aqueles que a escreveram.

É importante que se entenda que assim como o levirato, todas as leis de Moisés relativas à sexualidade traziam em si uma relação intrínseca com o conceito de guerra de sua época. A todo homem distinto cabia-lhe dar à nação, ao menos, um filho que fosse homem de guerra. Por essa razão era, para eles, vergonhoso um homem casado morrer sem gerar filhos. Eis o motivo pelo qual se deu a lei do levirato que determinava que o filho nascido desta relação não fosse contado como prole de seu genitor, mas sim de seu tio falecido, para que esse tivesse descendência e seu nome fosse honrado.

É, no mínimo, estranho pensar que Deus instituiu o levirato em função da guerra que hoje abominamos. Mais estranho ainda é pensar que a mesma lei condenava à morte aqueles que incidiam em adultério, fazendo com que, em nome da justiça, se cometesse um ato pior que o próprio adultério. Impossível negar que a forma tão diferente que hoje temos de pensar sobre o assunto seja uma santa transformação de valores. No entanto, aquele era um povo guerreiro e dependente da geração de filhos do sexo masculino para servirem no campo de batalha, pois a guerra, naquelas circunstâncias, lhes era fundamental no processo de preservação e avanço da fé cultivada pela nacão. Sob esse ponto de vista não é de se estranhar tamanho rigor sobre as questões de sexualidade.

Diante dessa perspectiva se justificam todas as leis relacionadas à sexualidade encontradas no Antigo Testamento. Não se poderia, então, tolerar qualquer desperdício do esforço sexual em relação que não promovesse a procriação. Era-lhes proibido o coito interrompido e relações homo-afetivas pela mesma razão que era estimulado a poligamia.

Cabe-nos analisar que se as relações sexuais, que não tencionassem a procriação, representavam grande prejuízo nos tempos bíblicos, o mesmo não ocorre em nossos dias.

Sob o ponto de vista bíblico, sem que façamos essa releitura dos fatos, tanto a relação sexual homoafetiva, como o uso de métodos contraceptivos deveriam ser recriminados. Pois considerando a razão pelo qual as Escrituras condenam a homossexualidade, os métodos contraceptivos são igualmente condenáveis.

Se por ventura recriminarmos os relacionamentos homoafetivos sob o argumento de que uma relação sexual entre pessoas do mesmo sexo é antinatural, não podemos esquecer que o uso de anticoncepcionais também é antinatural e antibíblico, tendo em vista que o efeito natural de um ato sexual, bem como a ordem bíblica, é a multiplicação da espécie.

Neste ponto, alguns, tentando se defender sem abrir mão de uma vida sexual sem concepção, argumentarão que o sexo não tem apenas a reprodução por objetivo, mas também o prazer e felicidade pessoal (princípio do hedonismo, razão que tem levado muitos cristãos a busca de fetiches e até da poligamia consensual “clandestina”). Neste caso, o argumento derrubará toda razão de resistência ao uso de métodos contraceptivos, mas sob o mesmo argumento também se desbancará os motivos das sentenças homofóbicas.

O fato é que uma relação homossexual que não agrupe prostituição, pornografia, pedofilia ou adultério (e neste ponto muitas relações heterossexuais são mais pecaminozas), não configurará pecado maior que uma relação heterossexual munida de seus fetiches e métodos contraceptivos. Pecaminizar uma relação e santificar a outra, sendo que as duas ferem o mesmo princípio bíblico e são igualmente proibidas pela Bíblia, deveria nos causar o mínimo de estranheza.

Será que a misericórdia que confiamos sobre o nosso hedonismo não está ao alcance dos homossexuais?

Você acha isso complicado? Não se preocupe! Nosso preconceito nos livrará do peso na consciência.