terça-feira, 22 de março de 2011

CONTRA QUEM LUTAMOS (IV) - O MUDO ENDEMONINHADO

Por Julio Zamparetti

“Ao retirarem-se eles, foi-lhe trazido um mudo endemoninhado. E, expelido o demônio, falou o mudo; e as multidões se admiravam, dizendo: Jamais se viu tal coisa em Israel!” (Mateus 9:32-33)

Neste texto encontramos o relato do episódio de um mudo que ficou curado logo que Jesus expeliu o demônio. Observe que não há relato de que este mudo fosse surdo, ele apenas não falava, mas certamente podia ouvir, caso contrário Mateus relataria a cura de um surdo-mudo ou tão somente um surdo. Ou seja, sua mudez não era conseqüência de surdez, mas possivelmente de algum trauma (doença da alma) que simplesmente o fizera calar-se, ou a ausência ou deformação das pregas vocais (doença física não diagnosticável naquela época), ou um aneurisma ou derrame cerebral (essas sim, nem se sonhava existirem). Qualquer que tenha sido a causa, uma vez que o mudo não era surdo, Mateus não poderia, naquela época, compreende-la, então a atribuiu ao demônio.

Na verdade, não há registro de que forma Jesus tenha expelido o demônio, mas o que quer que Jesus tenha dito ou feito, curado a alma ou o físico, quem o viu, naqueles dias, não saberia distinguir nem o mal, nem a cura, pois enquanto a medicina da época era extremamente limitada, para Jesus não havia limitações, nem restrições para desfazer um trauma ou implantar pregas vocais, perdoar pecados ou curar um paralítico. Jesus não esperaria até que os homens descobrissem, em termos científicos, o que causara aquele mal para só então curá-lo. Jesus curava a quem quisesse, de qualquer mal, e quando o descrevia, o fazia conforme o entendimento do povo.

O poder de Jesus é superior a qualquer enfermidade ou mal que possa acometer o ser humano, seja qual for sua causa. Entretanto, algumas vezes nos é muito difícil crer, simplesmente, no cuidado divino sobre nós, e assim queremos fazer o trabalho que é de Deus, como se a virtude de curar fosse de propriedade nossa. Então nos assentamos na cadeira do médico dos médicos e cuidamos de proferir os mais absurdos diagnósticos, e entre tantos devaneios decide-se pôr a culpa nos demônios e no moribundo que supostamente “deu brecha pro diabo”, ou ainda culpar seus pais, que pecaram e com isso atraíram maldição sobre seu filho. Nesse aspecto a doutrina da cura tem servido apenas para deixar as pessoas ainda mais doentes.

É perfeitamente compreensivo que, há dois mil anos atrás, a causa de epilepsias e doenças psicossomáticas fosse atribuída aos demônios, pela falta do conhecimento científico. Mas é inadmissível, nos dias de hoje, lançar tal fardo psicológico sobre um enfermo, sabendo que a doença física não é propriedade de demônios. Se assim fosse, deveríamos concluir que os idosos são mais volúveis a ação dos demônios que os jovens, e que na medida em que os jovens envelhecem também se tornam cada vez mais suscetíveis aos ataques demoníacos, já que a tendência é que com o passar dos anos venham também o enfado e suscetíveis enfermidades. Ora, dizer que tais desventuras são provenientes de domínio demoníaco seria, no mínimo, um desrespeito aos anciãos, a quem Bíblia trata com toda a devida honra, e a quem nós também devemos honrar.

É por causa das pregações em que se aloca enfermidades a demônios, que muitas pessoas entram num verdadeiro poço de desgosto ao serem acometidas por qualquer mal, principalmente quando a resposta de Deus às suas petições de cura é “a minha graça te basta”. Até mesmo os pregadores dessa “teologia” entram em “parafuso” quando se encontram enfermos. Tenho conhecido a muitos que expulsam demônios de si mesmos, quase enlouquecem tentando descobrir a brecha que deram para que satanás os tomasse com doença, e por fim, acabam se consultando com um médico em outra cidade para que seus liderados não saibam que esteve doente. Ora, ora! Se conhecessem a Palavra que Cristo pregou, já estariam limpos dessa mentira.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O PECADO, A LEI, A GUERRA E A SEXUALIDADE

Por Julio Zamparetti

O pecado sempre tem razão de ser pecado. Nenhum pecado é pecado simplesmente por ser pecado, assim como nenhum mandamento, ou lei, é instituído simplesmente para ver quem o obedece. O pecado é pecado porque lesa o corpo, o espírito, o meio ambiente, a criação, as pessoas e os relacionamentos. Em contraponto, a Lei é instituída tendo em vista a preservação de tudo que possa ser lesado pelo pecado. Logo, o dimensionamento do pecado, bem como a importância da lei, não está no ato, ou lei, em si, mas nos efeitos que eles produzirão. Matar e roubar seriam pecados iguais, se não fosse a diferença atribuída aos seus efeitos. Da mesma forma, a importância da Lei está na prevenção ou remediação da lesão provocada pelo pecado. Uma Lei que não tenha esses propósitos, não tem razão de existir.

A partir dessa premissa entendemos que o pecado é redimensionado, podendo assumir a dimensão de insignificância ou abominação, conforme o efeito gerado em determinado tempo ou cultura. Em certos casos, esse redimensionamento pode transformar aquilo que se tinha por pecado em benesse, ou vice-versa. Se em tempos modernos, o ato de um homem casado possuir a viúva de seu irmão, que morreu sem filhos, apenas para fazer-lhe um filho é pecado, em tempos bíblicos isso era virtude e lei, uma “obrigação de cunhado” (Dt 25.5), conhecida como lei do levirato.

É por essa razão que não se pode fazer doutrina tomando por base a letra das Escrituras sem investigar seu espírito. E para isso deve-se entender o contexto histórico e social no qual estavam imersos aqueles que a escreveram.

É importante que se entenda que assim como o levirato, todas as leis de Moisés relativas à sexualidade traziam em si uma relação intrínseca com o conceito de guerra de sua época. A todo homem distinto cabia-lhe dar à nação, ao menos, um filho que fosse homem de guerra. Por essa razão era, para eles, vergonhoso um homem casado morrer sem gerar filhos. Eis o motivo pelo qual se deu a lei do levirato que determinava que o filho nascido desta relação não fosse contado como prole de seu genitor, mas sim de seu tio falecido, para que esse tivesse descendência e seu nome fosse honrado.

É, no mínimo, estranho pensar que Deus instituiu o levirato em função da guerra que hoje abominamos. Mais estranho ainda é pensar que a mesma lei condenava à morte aqueles que incidiam em adultério, fazendo com que, em nome da justiça, se cometesse um ato pior que o próprio adultério. Impossível negar que a forma tão diferente que hoje temos de pensar sobre o assunto seja uma santa transformação de valores. No entanto, aquele era um povo guerreiro e dependente da geração de filhos do sexo masculino para servirem no campo de batalha, pois a guerra, naquelas circunstâncias, lhes era fundamental no processo de preservação e avanço da fé cultivada pela nacão. Sob esse ponto de vista não é de se estranhar tamanho rigor sobre as questões de sexualidade.

Diante dessa perspectiva se justificam todas as leis relacionadas à sexualidade encontradas no Antigo Testamento. Não se poderia, então, tolerar qualquer desperdício do esforço sexual em relação que não promovesse a procriação. Era-lhes proibido o coito interrompido e relações homo-afetivas pela mesma razão que era estimulado a poligamia.

Cabe-nos analisar que se as relações sexuais, que não tencionassem a procriação, representavam grande prejuízo nos tempos bíblicos, o mesmo não ocorre em nossos dias.

Sob o ponto de vista bíblico, sem que façamos essa releitura dos fatos, tanto a relação sexual homoafetiva, como o uso de métodos contraceptivos deveriam ser recriminados. Pois considerando a razão pelo qual as Escrituras condenam a homossexualidade, os métodos contraceptivos são igualmente condenáveis.

Se por ventura recriminarmos os relacionamentos homoafetivos sob o argumento de que uma relação sexual entre pessoas do mesmo sexo é antinatural, não podemos esquecer que o uso de anticoncepcionais também é antinatural e antibíblico, tendo em vista que o efeito natural de um ato sexual, bem como a ordem bíblica, é a multiplicação da espécie.

Neste ponto, alguns, tentando se defender sem abrir mão de uma vida sexual sem concepção, argumentarão que o sexo não tem apenas a reprodução por objetivo, mas também o prazer e felicidade pessoal (princípio do hedonismo, razão que tem levado muitos cristãos a busca de fetiches e até da poligamia consensual “clandestina”). Neste caso, o argumento derrubará toda razão de resistência ao uso de métodos contraceptivos, mas sob o mesmo argumento também se desbancará os motivos das sentenças homofóbicas.

O fato é que uma relação homossexual que não agrupe prostituição, pornografia, pedofilia ou adultério (e neste ponto muitas relações heterossexuais são mais pecaminozas), não configurará pecado maior que uma relação heterossexual munida de seus fetiches e métodos contraceptivos. Pecaminizar uma relação e santificar a outra, sendo que as duas ferem o mesmo princípio bíblico e são igualmente proibidas pela Bíblia, deveria nos causar o mínimo de estranheza.

Será que a misericórdia que confiamos sobre o nosso hedonismo não está ao alcance dos homossexuais?

Você acha isso complicado? Não se preocupe! Nosso preconceito nos livrará do peso na consciência.

domingo, 20 de março de 2011

A VERDADEIRA MANIFESTAÇÃO DOS DONS DO ESPÍRITO

“Eis os sinais que acompanharão aqueles que terão acreditado: em meu nome, eles expulsarão os demônios, eles falarão em línguas novas, eles pegarão em serpentes, e se tiverem bebido algum veneno mortal, ele não lhes fará nenhum mal. Eles imporão suas mãos aos doentes e estes serão curados” (São Marcos, XVI,16).

Será que, meus caros irmãos, pelo fato de que vós não fazeis nenhum destes milagres, é sinal de que vós não tendes nenhuma fé? Estes sinais foram necessários no começo da Igreja. Para que a Fé crescesse, era preciso nutri-la com milagres. Também nós, quando nós plantamos árvores, nós as regamos até que as vemos bem implantadas na terra. Uma vez que elas se enraizaram, cessamos de regá-las. Eis porque São Paulo dizia:”O dom das línguas é um milagre não para os fiéis, mas para os infiéis” (I Cor, XIV,22).

Sobre esses sinais e esses poderes, temos nós que fazer observações mais precisa:

A Santa Igreja, faz todo dia, espiritualmente, o que ela realizava então nos corpos, por meio dos Apóstolos. Porque, quando os seus padres, pela graça do exorcismo, impõem as mãos sobre os que crêem, e proibem aos espíritos malignos de habitar sua alma, faz outra coisa que expulsar os demônios?

Todos esses fiéis que abandonam o linguajar mundano de sua vida passada, cantam os santos mistérios, proclamam com todas as suas forças os louvores e o poder de seu Criador, fazem eles outra coisa que falar em línguas novas?

Aqueles que, por sua exortação ao bem, extraem do coração dos outros a maldade, agarram serpentes.
Os que ouvem maus conselhos sem, de modo algum, se deixar arrastar por eles a agir mal, bebem uma bebida mortal, sem que ela lhes faça mal algum.

Aqueles que todas a vezes que vêem seu próximo enfraquecer, para fazer o bem, e o ajudam com tudo o que podem, fortificam, pelo exemplo de suas ações, aqueles cuja vida vacila, que fazem eles senão impor suas mãos aos doentes, a fim de que recobrem a saúde?

Estes milagres são tanto maiores pelo fato de serem espirituais, são tanto maiores porque repõem de pé, não os corpos, mas as almas.

Também vós, irmãos caríssimos, realizais, com a ajuda de Deus, tais milagres, vós os realizais, se quiserdes.

Pelos milagres exteriores não se pode obter a vida. Esses milagres corporais, por vezes, manifestam a santidade. Eles não criam a santidade.

Os milagres espirituais agem na alma. Eles não manifestam uma vida virtuosa. Eles fazem vida virtuosa.

Também os maus podem realizar aqueles milagres materiais. Mas os milagres espirituais só os bons podem fazê-los.

É por isso que a Verdade diz, de certas pessoas:
“Muitos me dirão, naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que nós profetizamos, que nós expulsamos os demônios e que realizamos muitos prodígios? E Eu lhes direi:”Eu não vos conheço. Afastai-vos de Mim, vós que fazeis o mal” (São mateus VII, 22-23).

Não desejeis, ó irmãos caríssimos, fazer os milagres que podem ser comuns também aos réprobos, mas desejai esses milagres da caridade e do amor fraterno dos quais acabamos de falar: eles são tanto mais seguros pelo fato de que são escondidos, e porque acharão, junto a Deus, uma recompensa tanto mais bela quanto eles dão menor glória diante dos homens”

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(São Gregório Magno, Papa, Sermões sobre o Evangelho, Livro II, Les éditions du Cerf, Paris, 2008, volume II, pp. 205 a 209).

sábado, 19 de março de 2011

UM DEUS PERFEITO PODE CRIAR UM SER IMPERFEITO?

Por Julio Zamparetti

Quando dizemos que o homem não foi criado perfeito, mas sim para ser perfeito, comumente se indaga: “mas como pode um ser perfeito, Deus, ter criado o homem imperfeito?”.

Muito simples! Uma criatura não carrega o DNA de seu criador. Para compreendermos isso, faz-se necessário entendermos o sentido aprofundado das palavras criar e crear. Criar retrata a transição de uma existência para outra existência. O termo é bem apropriado para o ser humano enquanto criatura de Deus. Pois Deus não o criou do nada, Ele o criou a partir do pó da terra. Isto é, a terra transitou de sua forma existente para uma outra forma de existência. Crear, por sua vez, retrata a transição da essência para a existência. Um termo bem apropriado para a creação do universo, que do nada se fez tudo o que existe. No entanto, ainda longe de retratar o que de Deus é gerado, pois, segundo o próprio Cristo, o Pai é Espírito. Logo, o que dEle é gerado é espiritual. Pois “o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).

O que é nascido não transita de forma, muito pelo contra-rio, reproduz a exata semelhança, carrega os mesmos traços genéticos. Na geração não há transição, há sim transmissão.

Gosto de pensar nisso usando o exemplo de Santos Dumont e o 14 Bis. Ao criar o 14 Bis, Dumont não o fez transmitindo-lhe seu DNA. O que ele fez foi tomar matérias já existentes e tranformá-las em uma outra forma de existência. O 14 Bis não carregava as características genéticas de Santos Dumont, simplesmente porque Dumont não o fizera a partir do que ele era, mas sim do que ele tinha em mãos. Outros criadores poderiam fazer o mesmo e chegar ao mesmo resultado. Entretanto, quando tratamos de genealogia, genitores diferentes jamais chegarão ao mesmo produto, pois gerar é transmitir a existência a partir do que se é. Assim, um ser tão santo, Deus, não pode gerar algo imperfeito, mas com certeza o pode criar ou crear. Ao que Ele próprio afirmou: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7).


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Extraído do livro ESPIRITUALIDADE DINÂMICA

sexta-feira, 18 de março de 2011

QUARESMA – TEMPO DE ENCONTRAR TEMPO

Por Edmar Pimentel

O período mais enriquecedor e cheio de simbologia no ano litúrgico tem gradativamente perdido seu intento mais profundo na vida da comunidade cristã. Tem empobrecido. Quem não se lembra dos tempos de outrora em que nossos pais diziam que não se faz isso, não se come aquilo, reza-se um pouco mais, priva-se de fazer algo mais extravagante e tantos outros itens que devem estar borbulhando na mente de todos nós. Em alguns lugares do país eram cautelosos até com a cor das roupas sem falar no jejum e nas orações que eram multiplicados nesse período.

É... A Quaresma já não é vista como antes. O que mudou? A nossa vida agitada, a “instantaneidade” das coisas, a pressa da navegação on-line e tantas outras questiúnculas na velocidade da luz que tem nos privado de ver a beleza e a espiritualidade próprias desse tempo.

Vivenciar calma e pausadamente cada passo desse momento é fundamental para reflexão e experiência pessoal. A Igreja é desafiada a refazer os passos messiânicos e sobre eles refletir buscando aplicar à sua vida o resultado desse aprendizado. Nesse período ela deve meditar no passo a passo da ultima semana de Jesus antes da gloriosa ressurreição: a entrada triunfal, o brado do povo, os ramos, o jumentinho, o lava pés, a ultima ceia, o ultimo discurso, a oração sacerdotal, as trinta moedas, o canto do galo, a angustia na cruz, as sete palavras finais e o ultimo suspiro, as trevas, o sábado tenebroso e as boas novas na madrugada do domingo. Quantas lições de vida, quanta oportunidade de crescimento.

Refletir nisso tudo, não é desejar novamente que se repita o que foi feito a Jesus, antes é descobrir novas lições práticas para cada um e todos nós. É voltar três anos antes nas margens do rio Jordão e entender as palavras de João Batista: Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É descobrir-se pecador envolvido em amor. É aprender com o silêncio. É reconhecer as limitações, encontrar-se com a Graça inefável. É sentir-se solidário e descobrir-se cristão.

Antes de sair às compras do chocolate para as crianças e da carne branca para o almoço, entre no seu quarto, feche a porta e reze ao Pai em secreto, que em secreto Ele responderá.

Para isso precisarás de tempo. Tempo para ti, para os teus e tempo para Deus. Quarenta dias, quarenta minutos, quarenta segundos... Quaresma!

quinta-feira, 17 de março de 2011

ENQUANTO O FIM NÃO VEM

Por Julio Zamparetti

Mais uma catástrofe e mais gente se imbui de anunciar o fim do mundo. Não sei quantos fins ainda serão anunciados, mas sei que os mercados faturam alto com essa especulação. O mercado cinematográfico fatura milhões de dólares ocupando, provavelmente, o segundo lugar no ranking mundial. Sim, possivelmente, o segundo lugar, porque estou convencido de que quem fatura mais alto é o mercado religioso.


Até mesmo seguimentos equilibrados do meio religioso, ultimamente, têm se rendido ao frisson do apelo sensacionalista que arrasta milhares de pessoas ao redil da religiosidade pela promessa de segurança em meio ao caos. Neste ínterim, a fim de que a religião seja sempre mais útil, faz-se necessário que a tragédia seja tanto maior. É nesse ponto que muitos religiosos caem na falácia de presumirem que quanto pior, melhor.


Não quero, aqui, fazer pouco caso dos problemas ambientais e das catástrofes que têm aterrorizado nosso planeta. Por outro lado, não posso me valer disso para constranger alguém a apegar-se à religião. O que posso dizer é que catástrofes naturais são naturais, por mais catastróficas que sejam. Sempre foi assim e continuará sendo assim, enquanto a Terra estiver viva. Deveríamos, sim, nos preocuparmos se a terra estivesse parando seus movimentos geológicos. Isso seria terrível, pois presumiria a morte do planeta.


O que não é natural é que tanta gente aproveite do sofrimento alheio para se enriquecer. Nesta semana, em meio à tragédia dos terremotos e a tsunami no Japão, já ouvi pregadores de renome internacional anunciando em tom profético que “isso é só o começo”; que “catástrofes muito maiores sobrevirão ao nosso planeta”. E eu pergunto: onde fica o Espírito de consolação, restauração e esperança que permeia a mensagem de Jesus Cristo e seus apóstolos?


Não venham me dizer que Jesus anunciou o fim do mundo. Somente neófitos caem nessa. O mundo do qual Jesus anunciou o fim, em Mateus 24 e Lucas 22, no texto original é aions que significa tempo, era, período, daí muitas versões o traduzirem por século em vez de mundo. Jesus estava anunciando o fim de um tempo em que os rudimentos que regiam a religiosidade e os valores humanos dariam lugar aos novos rudimentos de sua graça. Conforme o próprio Messias, isso ocorreria ainda naquela geração (Mt.24:34), e de fato aconteceu. Esses novos rudimentos são baseados no amor, na simplicidade, na reconciliação, na misericórdia e no compromisso de ser solidário para com todos que sofrem.


Não sei explicar o sofrimento humano, nem a causa de tanto terror, não quero justificar Deus, nem creio que Deus precise ser justificado. Só sei que a história nos ensina que somos capazes de superar nossas limitações e aprender em meio às dificuldades; somos aptos a recomeçar, reconstruir e sairmos das provações ainda mais fortalecidos. Portanto, prefiro ser grato a Deus que nos concede repensar nossa própria vida, nossa história, nossa espiritualidade, refletirmos sobre nosso ativismo e apego material, e exercitar a solidariedade e o espírito de consolação mútuo.


Enquanto o fim não vem, que fique longe o fim. Que haja lugar para a esperança. Que seja cada vez mais presente o amor fraternal, o espírito solidário e a força para recomeçar. Assim somos humanos, como Cristo foi; fazendo um mundo melhor, como Ele fez.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A SALVAÇÃO É INDIVIDUAL OU COLETIVA?

Por Julio Zamparetti

Sempre ouvi dizer que a salvação é algo individual. Mas, honestamente, nunca li um só versículo bíblico que afirmasse tal conceito. Ao contrário, o que encontro são vários versículos que atestam a salvação de um povo, ou de uma nação, uma raça, tribo, toda terra, ou mundo todo.

Por outro lado podemos perceber que a perdição pode ser individual. Eram cem ovelhas quando uma delas, individualmente, se perdeu. Da mesma forma a perdição do filho pródigo se deu de forma individual. É claro que também encontramos exemplos de perdição coletiva, de tal forma que Deus certa vez afirmou que seu povo (termo coletivo) perecia por falta de conhecimento. Assim, encontramos exemplos de perdição coletiva e individual. No entanto, ao que se refere à salvação só a encontramos coletivamente, nunca individualmente.

A verdade é que não precisamos de ninguém para nos perder; e na maioria das vezes nos perdemos exatamente por não ter ninguém ao lado. Não foi a toa que Deus disse: “Não é bom que o homem viva só”; não por acaso Jesus enviou seus discípulos de dois em dois.

Somos seres sociais e seja qual for nosso temperamento, se quisermos crescer como pessoas, precisamos aprender a viver em comunhão, compreendendo a necessidade que temos uns dos outros.

Não há como ser cristão individual. Não se vive cristianismo isolado. Isso porque o cristianismo não se resume em ter comunhão apenas com Deus, mas ter comunhão com Deus e com o próximo. É essa a mensagem expressa na cruz: uma haste vertical, prefigurando a comunhão com Deus e outra haste horizontal, prefigurando a comunhão com os irmãos. Afinal, se não amas teu irmão a quem vês, como podes amar a Deus, a quem não vês?

É salvo quem faz parte de um povo salvo, quem está ligado ao corpo de Cristo. Pois se alguém não está ligado a ele é como um ramo seco que para nada mais serve senão ser jogado ao fogo. Assim já dizia Santo Agostinho: “não há salvação fora da Igreja de Cristo”.

Não quero dizer com isso que a salvação esteja atrelada a alguma instituição religiosa, seja ela qual for. Afinal, muitas instituições religiosas estão longe de parecer-se Igreja de Cristo, muito embora se denominem como tal. Refiro-me à Igreja àqueles que comungam da fé em Cristo e se dispõem a viver em comunidade a serviço do próximo. Estou certo de que embora existam aqueles que vivem em comunidade sem de fato amar, é impossível que alguém que de fato ame não viva em comunidade.

A salvação não é individual porque a vontade de Deus é salvar a todos. A salvação não é individual porque não é um fim em si mesmo, a finalidade de sermos salvos é levarmos a salvação a outros que ainda estão perdidos. A salvação não é individual porque ninguém consegue salvar-se a si próprio, antes necessita da graça de Cristo que é manifestada por meio de seu corpo na terra, a Igreja. A salvação não é individual porque um dos passos do processo de salvação é o chamado, e este se dá pela voz do Espírito e a noiva (Igreja) que juntamente dizem: “vem” (Apocalipse 22:17).

Por fim, ser salvo não significa qualquer mérito pessoal. Significa sim, graça de Cristo, que move céus, terra e corações a fim de nos alcançar.

Portanto, oremos: Obrigado Senhor, por todos aqueles que o Senhor tem colocado em nosso caminho. Pois são anjos sem os quais não saberíamos encontrar-Te!

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Extraído do livro O CRISTIANISMO QUE OS CRISTÃOS REJEITAM de Julio Zamparetti