quinta-feira, 17 de março de 2011

ENQUANTO O FIM NÃO VEM

Por Julio Zamparetti

Mais uma catástrofe e mais gente se imbui de anunciar o fim do mundo. Não sei quantos fins ainda serão anunciados, mas sei que os mercados faturam alto com essa especulação. O mercado cinematográfico fatura milhões de dólares ocupando, provavelmente, o segundo lugar no ranking mundial. Sim, possivelmente, o segundo lugar, porque estou convencido de que quem fatura mais alto é o mercado religioso.


Até mesmo seguimentos equilibrados do meio religioso, ultimamente, têm se rendido ao frisson do apelo sensacionalista que arrasta milhares de pessoas ao redil da religiosidade pela promessa de segurança em meio ao caos. Neste ínterim, a fim de que a religião seja sempre mais útil, faz-se necessário que a tragédia seja tanto maior. É nesse ponto que muitos religiosos caem na falácia de presumirem que quanto pior, melhor.


Não quero, aqui, fazer pouco caso dos problemas ambientais e das catástrofes que têm aterrorizado nosso planeta. Por outro lado, não posso me valer disso para constranger alguém a apegar-se à religião. O que posso dizer é que catástrofes naturais são naturais, por mais catastróficas que sejam. Sempre foi assim e continuará sendo assim, enquanto a Terra estiver viva. Deveríamos, sim, nos preocuparmos se a terra estivesse parando seus movimentos geológicos. Isso seria terrível, pois presumiria a morte do planeta.


O que não é natural é que tanta gente aproveite do sofrimento alheio para se enriquecer. Nesta semana, em meio à tragédia dos terremotos e a tsunami no Japão, já ouvi pregadores de renome internacional anunciando em tom profético que “isso é só o começo”; que “catástrofes muito maiores sobrevirão ao nosso planeta”. E eu pergunto: onde fica o Espírito de consolação, restauração e esperança que permeia a mensagem de Jesus Cristo e seus apóstolos?


Não venham me dizer que Jesus anunciou o fim do mundo. Somente neófitos caem nessa. O mundo do qual Jesus anunciou o fim, em Mateus 24 e Lucas 22, no texto original é aions que significa tempo, era, período, daí muitas versões o traduzirem por século em vez de mundo. Jesus estava anunciando o fim de um tempo em que os rudimentos que regiam a religiosidade e os valores humanos dariam lugar aos novos rudimentos de sua graça. Conforme o próprio Messias, isso ocorreria ainda naquela geração (Mt.24:34), e de fato aconteceu. Esses novos rudimentos são baseados no amor, na simplicidade, na reconciliação, na misericórdia e no compromisso de ser solidário para com todos que sofrem.


Não sei explicar o sofrimento humano, nem a causa de tanto terror, não quero justificar Deus, nem creio que Deus precise ser justificado. Só sei que a história nos ensina que somos capazes de superar nossas limitações e aprender em meio às dificuldades; somos aptos a recomeçar, reconstruir e sairmos das provações ainda mais fortalecidos. Portanto, prefiro ser grato a Deus que nos concede repensar nossa própria vida, nossa história, nossa espiritualidade, refletirmos sobre nosso ativismo e apego material, e exercitar a solidariedade e o espírito de consolação mútuo.


Enquanto o fim não vem, que fique longe o fim. Que haja lugar para a esperança. Que seja cada vez mais presente o amor fraternal, o espírito solidário e a força para recomeçar. Assim somos humanos, como Cristo foi; fazendo um mundo melhor, como Ele fez.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A SALVAÇÃO É INDIVIDUAL OU COLETIVA?

Por Julio Zamparetti

Sempre ouvi dizer que a salvação é algo individual. Mas, honestamente, nunca li um só versículo bíblico que afirmasse tal conceito. Ao contrário, o que encontro são vários versículos que atestam a salvação de um povo, ou de uma nação, uma raça, tribo, toda terra, ou mundo todo.

Por outro lado podemos perceber que a perdição pode ser individual. Eram cem ovelhas quando uma delas, individualmente, se perdeu. Da mesma forma a perdição do filho pródigo se deu de forma individual. É claro que também encontramos exemplos de perdição coletiva, de tal forma que Deus certa vez afirmou que seu povo (termo coletivo) perecia por falta de conhecimento. Assim, encontramos exemplos de perdição coletiva e individual. No entanto, ao que se refere à salvação só a encontramos coletivamente, nunca individualmente.

A verdade é que não precisamos de ninguém para nos perder; e na maioria das vezes nos perdemos exatamente por não ter ninguém ao lado. Não foi a toa que Deus disse: “Não é bom que o homem viva só”; não por acaso Jesus enviou seus discípulos de dois em dois.

Somos seres sociais e seja qual for nosso temperamento, se quisermos crescer como pessoas, precisamos aprender a viver em comunhão, compreendendo a necessidade que temos uns dos outros.

Não há como ser cristão individual. Não se vive cristianismo isolado. Isso porque o cristianismo não se resume em ter comunhão apenas com Deus, mas ter comunhão com Deus e com o próximo. É essa a mensagem expressa na cruz: uma haste vertical, prefigurando a comunhão com Deus e outra haste horizontal, prefigurando a comunhão com os irmãos. Afinal, se não amas teu irmão a quem vês, como podes amar a Deus, a quem não vês?

É salvo quem faz parte de um povo salvo, quem está ligado ao corpo de Cristo. Pois se alguém não está ligado a ele é como um ramo seco que para nada mais serve senão ser jogado ao fogo. Assim já dizia Santo Agostinho: “não há salvação fora da Igreja de Cristo”.

Não quero dizer com isso que a salvação esteja atrelada a alguma instituição religiosa, seja ela qual for. Afinal, muitas instituições religiosas estão longe de parecer-se Igreja de Cristo, muito embora se denominem como tal. Refiro-me à Igreja àqueles que comungam da fé em Cristo e se dispõem a viver em comunidade a serviço do próximo. Estou certo de que embora existam aqueles que vivem em comunidade sem de fato amar, é impossível que alguém que de fato ame não viva em comunidade.

A salvação não é individual porque a vontade de Deus é salvar a todos. A salvação não é individual porque não é um fim em si mesmo, a finalidade de sermos salvos é levarmos a salvação a outros que ainda estão perdidos. A salvação não é individual porque ninguém consegue salvar-se a si próprio, antes necessita da graça de Cristo que é manifestada por meio de seu corpo na terra, a Igreja. A salvação não é individual porque um dos passos do processo de salvação é o chamado, e este se dá pela voz do Espírito e a noiva (Igreja) que juntamente dizem: “vem” (Apocalipse 22:17).

Por fim, ser salvo não significa qualquer mérito pessoal. Significa sim, graça de Cristo, que move céus, terra e corações a fim de nos alcançar.

Portanto, oremos: Obrigado Senhor, por todos aqueles que o Senhor tem colocado em nosso caminho. Pois são anjos sem os quais não saberíamos encontrar-Te!

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Extraído do livro O CRISTIANISMO QUE OS CRISTÃOS REJEITAM de Julio Zamparetti

terça-feira, 15 de março de 2011

CONTRA QUEM LUTAMOS (III) demônios feitos pela alma humana

Por Julio Zamparetti


Toda vez em que o Novo Testamento traz o termo “demônio”, o texto refere-se a doenças internas, nunca externas. Ou seja, refere-se às doenças psicológicas ou psicossomáticas, nunca às doenças físicas. Em resumo, aquilo que não se sabia o que era e de onde viera, qualificava-se como demônio. Por outro lado, quando Jesus curava um paralítico, Ele não estava mexendo na alma e sim no físico, esses casos não eram relatados como se houvesse expulsado demônio. Em tais casos Ele restaurava os nervos, ossos, tecidos, veias e artérias, enfim era um milagre físico, mesmo. Não há qualquer relação bíblica entre doenças físicas e demônios, isso porque os escritores dos evangelhos atribuíram aos demônios somente aquelas doenças que não entendiam, nem sabiam a causa.


No início dos anos oitenta meu pai começou a sofrer de ataques epiléticos. Naquela época (apesar de, relativamente, tão recente) os médicos nos disseram que não sabiam ao certo o que causava tais ataques, então, nós crentes, logo havíamos proferido o “diagnóstico”: Meu pai estava endemoninhado. O que nós não sabíamos, muito menos sabiam os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João há quase dois mil anos atrás, ao relatarem sobre a cura do lunático (Mateus 17:18), é que aquilo que chamávamos de demônio, a medicina descobriu que é, a grosso termo, um curto circuito nos neurônios. Pobre de meu pai e tantas outras pessoas que, por conta de um problema neurológico, foram discriminadas como “possuídas por espíritos do inferno” e ainda tiveram que suportar os amigos de Jó fazerem os mais absurdos “diagnósticos” das causas de tal “possessão maligna”. E assim como a epilepsia, muitos outros males vão sendo desendemonizados à medida que se descobre a enfermidade e sua causa.


Flávio Joséfo, um historiador judeu que viveu no primeiro século, relata que o rei Salomão expulsava o demônio de uma pessoa pondo em seu nariz certa raiz que ao ser cheirada o demônio saía lançando a pessoa ao chão que levantava-se completamente calma e curada de tal mal1. Ele relata, inclusive, que tal pratica era usada ainda em seus dias, exatamente como fazia Salomão. O nome desta raiz eu não sei, mas o tipo de efeito que ela causava, sabemos bem. E se hoje cheirar raiz para se exorcizar é um programa de índio, muita gente das tribos urbanas busca o mesmo efeito cheirando, injetando, inalando, fumando, tomando calmantes, etc. Situação semelhante é relatada na Bíblia quando Saul, atormentado por um espírito maligno enviado de Deus, encontrava alívio no dedilhar da harpa de Davi. De fato poucas coisas da vida são tão exorcizantes quanto uma boa música suave.


Nesta obra identificaremos três grandes castas de demônios, até aqui, identificamos duas delas: uma feita por mãos humanas (ídolos), outra feita pela alma humana, da qual configuram-se os traumas, o ódio, o desejo de vingança, de morte, de prostituição e tantos outros males que por vezes alimentamos e fermentamos em nosso coração. Acredito que a esta última se referia, Jesus, ao dizer que esta casta demônios não sai senão com jejum e oração. Afinal, jejuar é dizer não à carne, abster-se da própria concupscência, aprendendo a dizer não aos desejos enganosos do coração, pois é do coração que procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias (Mt.15:19). Abstendo-nos do mal e entregando-nos a Cristo por meio de uma vida de oração nossos demônios são vencidos em nossa própria carne.


O mais interessante é que a maioria dos crentes busca atribuir aos demônios aquilo que o próprio Jesus atribuiu ao coração (alma) do homem. Com isso, quando alguém insiste em pôr a culpa de seus maus desígnios aos demônios, deveria primeiro, assumir ser ele mesmo o próprio demônio. Com certeza, esta é a pior casta de demônios que existe, porque assumir a culpa nunca foi o forte da humanidade. Do jardim do Édem até hoje, continuamos lançando nossa culpa sobre a serpente. Aliás, é necessário entendermos que assumir a nossa culpa, em caso de desejarmos a morte, é bem melhor que pôr a culpa no “exu caveira”, assumir a nossa culpa, em caso de cometermos adultério, é bem melhor que pôr a culpa na “pomba-gira”, enfim, assumir a nossa culpa, em caso de cometermos furtos, mentiras, bebedeiras, etc., é bem melhor que pôr a culpa nos “demônios”. Afinal, o que Cristo carregou na cruz foi a nossa culpa2. Se quisermos ter nossos pecados perdoados é necessário, em primeiro lugar, assumi-los.


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1. Flávio Joséfo , História dos Hebreus. Trad. de Vicente Pedroso. Rio de Janeiro. CPAD, 1990. Pg. 200.

2. Isaías 53:4-6 – Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos”.

segunda-feira, 14 de março de 2011

BOAS PROSTITUTAS CRISTÃS

A rede ABC, que pertence ao grupo Disney, provocou indignação e protestos quando anunciou que faria um programa piloto baseado no livro Good Christian Bitches [Boas Prostitutas Cristãs], de Kim Gatlin.

Após o anúncio feito pela emissora na última semana, a AFA [Associação de Famílias da América] iniciou uma petição, exigindo que a Rede ABC e a Disney, sua companhia-mãe, cancelem todos os planos de colocar no ar o programa.

A resposta inicial da ABC foi mudar o título do seriado para “GCB”, mas a AFA não ficou satisfeita.

Embora o título do programa possa ter sido abreviado, a gravidade do insulto não foi, por isso continuaremos o protesto”, afirmou o líder de projetos da AFA, Randy Sharp. “Esta é uma maneira pela qual podemos fazer nossas vozes serem ouvidas pelos executivos da ABC.”

Vou falar por mim”, insiste Sharp. “Qualquer um que se referir a minha esposa e minhas filhas como ‘prostituta’, me deixaria muito zangado. Acho que é ofensivo simplesmente a ABC pensar que essa é uma palavra apropriada para usar para falar do sexo feminino.”

Na esteira da AFA, o Parents Television Council [Conselho de Pais e de Televisão], que já fez campanhas contra programas da MTV no passado, também se manifestou contrário à produção da ABC.

O presidente da PTC, Tim Winter, afirmou: “Isso não apenas afronta as mulheres, mas ataca frontalmente a maior religião do mundo. A palavra ‘puta’ é maldosa e usada para enxovalhar, atacar e humilhar todas as mulheres. E usar ‘cristãs’ apenas aumenta a ofensa… Será que a ABC pensou em ofender outros grupos religiosos? Como seria se eles dissessem que o programa se chamaria ‘putas’ muçulmanas, hindus, judias ou budistas?”.

A proposta da série, que mistura drama e comédia, é mostrar a vida de Amanda, que foi uma “menina má” na escola mas hoje está “recuperada”. Depois de seu divórcio, ela decide retornar com seus 2 filhos a Dallas, sua cidade natal, para recomeçar a vida.

Porém, acaba tendo de lidar com as fofocas maliciosas das mulheres da comunidade cristã. O foco é abordar o comportamento hipócrita de pessoas que se dizem religiosas e mostrar os bastidores da igreja que frequentam.

O papel principal foi dado à atriz Leslie Bibb e o produtor executivo será Darren Star, de séries consagradas como “Sex and the City“ e “Barrados no Baile”. Não há previsão ainda de quando as filmagens começam e nem que dia da semana irá ao ar. O mais provável é que surja como um teste de audiência durante o spring break, substituindo alguma série atual durante parte do segundo semestre.

Fonte: Gospel Channel RCSP

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Por Julio Zamparetti

Não me cria tanto espanto ver que a ABC tenha tido essa idéia relacionada às mulheres cristãs e não às muçulmanas ou judias. Afinal, é o cristianismo quem tem criado um mundanismo paralelo dentro da própria fé, onde vale tudo, desde boates gospel a tchutchucas de Gisuis “evangelizando” com a bunda e pousando nua. Não falta nem mesmo “irmãzinhas” e “irmãozinhos” que atuem em filme pornô. “Oh, tudo bem! Só não esqueçam de dar o dízimo!”

Essa mesma porca vergonha não se vê entre mulçumanos e judeus. Perdemos o respeito próprio, não adianta, agora, querermos ser respeitados.

Temos algo muito mais urgente que protestar contra o programa GCB. Precisamos recobrar a ethos cristão.

domingo, 13 de março de 2011

PADRE CORAJOSO

Recebi e repasso: “O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou ação pedindo a retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas em 2009. E eis que um padre chamado Demetrius, pouco tempo depois, resolveu se manifestar: “Sou padre católico e concordo plenamente com vocês por quererem retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A cruz deve ser retirada! Aliás, nunca gostei de ver a cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas.

Não quero mais ver a cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver, também, a cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver, muito menos, a cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento. É preciso retirar a cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças, das misérias e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos menos favorecidos. Frade Demetrius dos Santos Silva (SP)”. Só diz a verdade quem tem coragem...

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Fonte: http://www.diariodosul.com.br/?pag=variedades&codcol=27

sábado, 12 de março de 2011

VOCÊ REZA OU ORA?

Por Julio Zamparetti

Devido a minha postura assumidamente ecumênica, algumas pessoas evangélicas me perguntam, você reza ou ora? Prontamente lhes respondo: rezo e oro.

Eu tanto rezo quanto oro porque, em primeiro lugar, rezar e orar são sinônimos desde suas raízes latinas: orar vem do termo orare que significa pronunciar uma fórmula ritual, oração, frase, enquanto rezar vem do latim recitare de onde temos o verbo recitar que significa dizer (orar) em alta voz.

No Brasil criou-se por parte dos evangélicos a distinção entre os termos, conotando-se à palavra rezar o ato de se fazer orações decoradas. Ironicamente, as orações recitadas não sofrem, por parte destes, qualquer relação com o termo rezar. O hábito de recitar salmos e versículos lhes é comum, porém, mesmo fazendo, não admitem que estão rezando!

À palavra orar foi dado o sentido de fazer orações espontâneas. Entretanto, o sentido original da palavra, que é pronunciar, permite que o termo também seja relacionado ao ato de proferir orações previamente estabelecidas e até mesmo decoradas.

Alguns argumentam que as orações decoradas não expressam o sentimento do coração. Este é, na verdade, um problema muito sério, que jamais seria resolvido com orações espontâneas. Pois não são as palavras que fazem autênticas as orações, mas sim o Espírito em que se ora. Neste ínterim, podemos comparar a oração à música, onde na maioria das vezes a melhor interpretação não se dá pelo compositor. É comum vermos intérpretes expressarem muito mais sentimento e originalidade que o próprio autor da música.

Eu gosto de recitar (rezar) Salmos, o Pai Nosso e outros textos bíblicos. Tenho alguns deles decorados e comumente os uso em meus devocionais. Honestamente, me acho incapaz de fazer orações melhores que estas. É nas Escrituras Sagradas que encontro as mais perfeitas expressões dos sentimentos de minha alma.

Também gosto de recitar, repetidas vezes, versículos e orações breves. Há quem condene isso por dizer se tratar de “vãs repetições”, tal qual descritas por Jesus em Mateus 6.7. O problema dessa acusação é que ela não expressa a verdade que Jesus estava retratando. Jesus não estava criticando as orações repetidas, mas sim o pensamento de quem deseja impor sua própria vontade sobre a vontade de Deus através de muitas palavras. O que Jesus está dizendo é que é o espírito do orador e não as palavras proferidas que torna as repetições vãs. E neste aspecto podemos dizer sem medo de errar que muitas orações espontâneas não passam de vãs repetições. E haja repetições de “aleluias”, “glórias a Deus”, “louvado sejas” e glossolalias para preencher o tempo de oração! Pois pensam que pelo tempo que gastam e seu muito falar serão ouvidos por Deus.

Não há nada de errado em orar/rezar repetidamente. O erro está em nossas motivações que fazem com que as repetições e qualquer forma de oração tornem-se vãs. O próprio Jesus ensinou a pedir repetidamente, de forma insistente, conforme vemos em Lucas 11.5-8. Se isso já não bastasse, Ele mesmo orou repetindo, por aproximadamente três horas, as mesmas palavras: “E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. E, indo segunda vez, orou, dizendo: Meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras (Mateus 26.39,42,44).

Seja recitando, rezando, declamando, orando, cantando, clamando ou agradecendo de forma espontânea, lida ou decorada; em pensamento, falando ou se calando: achegue-se a Deus e Ele se achegará a você.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O QUE MAIS ME APAVORA É ESSE MUNDO MALIGNO QUE SE DISFARÇA DE RELIGIÃO DE DEUS

Por Caio Fábio

Boate de crente, cerveja de crente, e tudo mais de crente e para crente, além de ser, em si, algo careta e feio, é sintoma e manifestação de que os crentes não são o sal da terra, mas sim o sal dentro do saleiro. Ora, isto é reflexo daquilo que foi ensinado aos crentes: que o diabo mora na boate, que os demônios vivem no álcool e que o mundo é um lugar, não um espírito. Assim, quanto mais pensam que o mundo é feito de lugares, mais eles se tornam mundanos, visto que não vão aos lugares do mundo, mas criam seus “corbãs” (Mc 7:9-13) a fim de jeitosamente darem seus “jeitos” em relação àquilo que se diz ser mundano, mas que eles não vêem mal algum em fazer, tendo que fazê-lo dentro do aquário cristão, visto que para eles o mundo é um lugar, não um espírito. Assim, eles tornam mau, pela sua própria alienação e preconceito, algo que em si nem é bom e nem é mau, dependendo apenas de como cada um lida com a coisa em si.


O mundo é um espírito, de acordo com Paulo. Ele chama de “curso deste mundo”, cuja tradução modernizada seria “o fluxo da corrente deste mundo”. Ora, esse espírito do mundo foi jeitosamente vinculado pelos evangélicos às coisas do lazer, do prazer, da diversão, dos relacionamentos, das festas, das boates, dos cigarros, das bebidas, das roupas e dos cosméticos. Assim, mesmo que uma pessoa que seja bondosa, sóbria, piedosa, misericordiosa, madura, limpa de olhos, sem inveja, não interessada em fofocas nem em disputas de espaço religioso, e plena de amor a Deus — ainda assim a tal pessoa será considerada mundana se tomar cerveja ou outra bebida alcoólica, se gostar de dançar, se fumar cigarro, se vestir-se bem e conforme gostos modernos e se não falar conforme a língua do gueto cristão. E isso é assim porque para os “evangélicos” o que contamina o homem é o que entra pela boca e não o que sai do coração. Ou seja: a maioria dos “evangélicos” são discípulos dos fariseus enquanto pensam que são discípulos de Jesus.


No ensino da Palavra há “um mundo” ao qual se deve odiar e há “um mundo” ao qual se deve amar. O mundo que se deve odiar é feito de espíritos de maldade, inveja, corrupção, malícia, manipulação, ódio, raivas, iras, perseguições, antipatias, inafetividade, e objetização do próximo. Esse é mundo que se deve odiar, e que existe tanto na “igreja”, em seus concílios e em suas convenções, quanto em qualquer disputa política no Congresso Nacional. Já o mundo que se deve amar é feito de gente, de todo tipo de gente, e tem a ver com a celebração da vida, da alegria, da comunhão humana, da sociabilidade que aproxima os diferentes; visto que tal “mundo” é objeto do amor de Deus: a humanidade.


Assim, em Jesus, o mundo existia muito mais no Sinédrio de Jerusalém do que na casa dos publicanos. Era em Jerusalém, a Jerusalém dos cultos ininterruptos, onde Jesus via o mundo; e é de lá que vêm os poderes acerca dos quais Jesus diz: “Vamo-nos daqui; pois aí vem o príncipe deste mundo” — embora quem chegue sejam as autoridades religiosas a fim de prendê-lO.


Se o mundo, segundo Jesus, fosse festa, bebida, dança, etc, então, se deveria dizer que Jesus era um mundano, visto que Ele comia de tudo (a ponto de Lhe chamarem "glutão"), bebia de tudo (a ponto de ser designado como "bebedor de vinho"), andava com todos (a ponto se ser chamado "amigo de pecadores"), e não criava eventos para os pecadores, de um lado, e para os discípulos, de outro. Ao contrário, Ele levava os discípulos para a boate dos publicanos, para a festa dos pecadores, para os banquetes dos mundanos, do ponto de vista da religião.


Jesus também não bebia cerveja ou vinho sem álcool. O vinho que Ele criou em Caná era vinho mesmo, como convinha ser em qualquer festa. Além disso, nos dias dEle, Joaquim Jeremias nos diz que a bebida mais comum era a "cevita", uma cerveja muito apreciada pelo mundo romano e por todas as pessoas da Palestina. Isso sem falar que o vinho da Ceia, segundo Paulo (I Co 11), tinha o poder de fazer embriagar ("...ao passo que há quem se embriague...”). Portanto, os cristãos originais não tinham essa neurose acerca de bebida alcoólica, até porque não dá para ser discípulo de Jesus e praticar essa forma de ascetismo —ou qualquer outra forma de ascetismo—, visto que Jesus era tudo, menos ascético; e o ensino de Paulo aos Colessenses é flagrantemente contrário ao ascetismo do tipo “... não bebas isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro...”, coisas essas que Paulo diz que têm “aparência de sabedoria e humildade, mas que não têm valor algum contra a sensualidade”.


O mundo que mais me apavora é esse mundo maligno que se disfarça de religião de Deus. É aí que as mais estranhas e malignas manifestações do mundo se manifestam, embora ninguém dance, beba ou fume. Sim, eles não fazem nada disso. Porém, devoram-se uns aos outros, conspiram contra os irmãos, torcem pela queda de alguns, alegram-se com suas vitórias filhas da malícia e vivem para garantir o cosmético de sua falsa humildade, as quais são os disfarces dos lobos que se vestem de ovelhas.


Eu vou a boate quando dá —infelizmente, hoje em dia, muito raramente. Mas quando vou, vou a uma boate de gente, onde eu possa dançar com minha mulher, e dançar músicas normais, conforme a poesia da vida. Quase não bebo, pois, depois de duas hepatites, meu fígado não gosta do impacto da bebida em meu organismo. Todavia, meu paladar gosta de um bom vinho, de uma cerveja geladinha num dia quente, de um “Porto” após as refeições, de uma caipirosca na praia, e de champanhe nas celebrações solenes.


O que se tem que saber é que uma pessoa que aparecesse fazendo o que Jesus fazia (curas, milagres e libertações) e dizendo o que Jesus dizia, se, todavia, vivesse com a liberdade que Ele tinha de comer e beber nas festas dos “mundanos” (publicanos e pecadores), tal pessoa seria vista pelos “evangélicos” do mesmo modo que os fariseus e religiosos viram Jesus em Seus dias.


Ou seja, o olhar dos “evangélicos” não vê a vida com os olhos de Jesus.

NEle, que comia e bebia com pecadores, e ia onde era convidado com boas intenções,

Caio Fábio

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Leia este artigo na íntegra em: http://gracaplena.blogspot.com/2011/03/os-evangelicos-trocaram-o-evangelho.html