quarta-feira, 9 de março de 2011

A QUARESMA DE CRISTO

Por Julio Zamparetti

Nos dias que antecediam a páscoa, os judeus costumavam jejuar e se cingir de pano de saco e cinza. Costume que adentrou ao cristianismo e é observado até hoje pelos seguimentos mais tradicionais.

Também eram dias que antecediam a páscoa quando Jesus alimentou uma multidão com cinco pães e dois peixinhos. Que ligação haveria entre estes fatos?

Defendo piamente que o milagre que Cristo fizera não se tratou de multiplicação e sim partilha, pois o texto em lugar algum faz referência à multiplicação. Muito pelo contrário, diz que Jesus "partiu" e "repartiu" os pães e os peixes.

Em Isaias 58, a partir do verso 5, lemos que Deus não estava interessado nos jejuns de passar fome, nem nas cinzas em que se cingiam. O jejum que Deus quer, segundo Isaias, é que, entre outras coisas, partilhem o pão com o faminto. Eis o que Jesus fez e ensinou a fazer. Num período em que todos estavam habituados a passar fome Jesus promoveu a partilha do pão. Muitos não tinham nada, mas os poucos que tinham, tinham o suficiente para todos e ainda sobrou.

Jesus veio para transformar a religiosidade em algo transformador. Passar fome voluntariamente, por mera religiosidade, não mudará a vida do faminto, mas partilhar o pão faz toda diferença. A partilha, a caridade, o favor ao próximo, esse é o jejum que Deus quer. Essa é cinza da qual Ele quer que nos cinjamos.

Hoje, a páscoa tornou-se um período de consumismo sem sentido. Tudo bem se você gosta de chocolates em forma de tabletes ou ovos e os queira degustar na páscoa ou qualquer outro tempo. Tudo bem se você se cinge de saco e cinza. Mas faça a diferença. Faça com que a pedagogia desta quaresma transforme-se numa verdadeira páscoa cristã. Dê a este tempo o sentido que Cristo o deu. Partilhe o seu alimento com quem passa fome, partilhe seu tempo com quem sofre, partilhe seu ombro com quem chora, partilhe seu ouvido com quem precisa desabafar e partilhe palavras boas com quem carece de fé.

Uma quaresma autenticamente cristã para todos. Uma feliz Páscoa será conseqüência.

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Artigo postado originalmente em 25/03/2009

terça-feira, 8 de março de 2011

CONTRA QUEL LUTAMOS (II) Demônios feitos por mãos humanas

Por Julio Zamparetti

Demônios - Feitos por mãos humanas

Quando digo que o Termo “demônio” não ocorre no Antigo Testamento, alguém poderia objetar, afirmando que o mesmo ocorre no plural em Levítico 17:7 "Nunca mais oferecerão os seus sacrifícios aos demônios, com os quais eles se prostituem; isso lhes será por estatuto perpétuo nas suas gerações", Deuteronômio 32:17 "Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; a deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, dos quais não se estremeceram seus pais" e Salmos 106:37 "pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios". O detalhe é que esses textos foram escritos em hebraico, enquanto a palavra “demônio” tem sua origem na palavra grega “daimónion”. O termo hebraico, traduzido por demônios, nesses textos é “elilin” que significa literalmente “ocos”, e refere-se a ídolos, falsos deuses. Logo, a tradução mais adequada para essas passagens seria ídolos e não demônios. O próprio texto de Deuteronômio 32:17, como vimos, descreve “elilin” como deuses desconhecidos, deuses novos, que apareceram há pouco. Ou seja, ídolos feitos por mãos humanas, que são ocos, vazios, falsos e sem valor, “têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem” (Salmo 115:5). A razão da maioria das versões trazerem, nesses textos, o termo “demônios” em lugar de “ídolos”, dá-se por influência da “septuaginta”, versão grega do Antigo Testamento. Os gregos entendiam “elilin” como semi-deuses ou deuses de segunda categoria, isto é, demônios.

Contudo, não é de todo errado traduzir “elilin” por “demônios”. Afinal, dentro deste contexto, isso nos traz a compreensão de que “ídolos” são demônios feitos por mãos humanas. Nesse ponto não posso deixar de pensar nas palavras do apóstolo Paulo: “sabemos que um ídolo nada é no mundo” (1 Coríntios 8:4). Uma vez aceita a tradução de “elilin” como “demônios”, podemos então transcrever este versículo da seguinte forma: “sabemos que um demônio nada é no mundo”.

Comumente se ouve falar (entre os evangélicos protestantes) que os espíritos demoníacos agem “por traz (ou através) dos ídolos (imagens de escultura)”. Não quero aqui defender nenhuma prática de veneração de imagens, mas em defesa da fé baseada nas Escrituras devo dizer que a única força que opera através de uma imagem é a força que o próprio homem manifesta de si mesmo, por via daquilo que acredita. Em outras palavras, todo poder de um ídolo está na fé de quem o venera e não no próprio ídolo que, na verdade, nada é. Assim, uma escultura é apenas uma escultura até que o coração do homem a torne um ídolo. A esse respeito escreveu o profeta Isaias: “Ajoelhar-me-ia eu diante de um pedaço de árvore? Tal homem se apascenta de cinza; o seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem dizer: Não é mentira aquilo em que confio?” (Isaias 44:19b,20).

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Continua na próxima terça!

quinta-feira, 3 de março de 2011

TEMOS ALGO A APRENDER COM O CARNAVAL

Por Hermes C. Fernandes


Seria lícito tomar o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria dirá que não. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas.

Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural?

Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo?

Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval.

Porém Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Acredito que sim.

Embora jamais tenha participado, talvez por ter nascido em berço evangélico tradicional, posso enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco.

Destaco a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos, do samba-enredo. Eles buscam a perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho.

Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade.

O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins.

A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor.

Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão em-si-mesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ser um fim em si mesmo.

A avenida nos espera!

À frente vai a comissão de frente, seguida pelo carro alegórico abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão.

A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue à populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Chegamos a esta conclusão quando lemos o que escreveu aos coríntios: “Para anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2 Co.10:16). Ele preferia pescar em alto mar, e não aquário dos outros.

A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa. No meio do desfile encontramos o casal de porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas.

É triste verificar o quanto a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho.

Os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.

Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos de que sua escola seja a campeã. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas nos pés. Mesmo assim, ninguém reclama.

Todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo:

“...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm.4:6b-8).

Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões.

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Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2009/02/temos-algo-aprender-com-o-carnaval.html

quarta-feira, 2 de março de 2011

PERMITA-SE VIVER

Por Aislan Rodrigues


Existe uma ânsia de urgência no ar. Percebe?

As pessoas estão com muita pressa, correndo.

Parece que querem chegar rápido a algum lugar, mas, sabem aonde querem chegar?

Talvez a pergunta mais adequada seja: para onde estamos indo?

Qual foi a ultima vez que você sentiu a fragrância daquela flor? Aquela por qual você passa todo dia. Qual? Aquela do seu jardim. Você já sentiu?

Sim, você tem um jardim. Já se permitiu pegar uma chuva, se molhar, e não ficar uma fera? Simplesmente você sente o frescor e agradece por ter a oportunidade de estar sentindo.

Quando criança, você ficaria feliz por sair correndo na chuva com pés em poças de água e lama. O que mudou? Agora você cresceu, tem muitas responsabilidades e pouco tempo. Boa desculpa esfarrapada.

Tente perceber o que está acontecendo. Qual o sabor da comida? Consegue saboreá-la? Não precisa enchê-la de tempero para ter uma leve sensação. Já reparou que a comida em si tem sabor ou você só a engole?

Muitas coisas estão passando desapercebidas. Percebe?

Não se trata apenas de flor, chuva, comida, trata-se de sua vida. De sentir a vida.

Eu tenho dois filhos. Nasceram ontem. Uma menina de dois, e um menino de quase quatro anos. Fico triste por mim. Triste por não ter percebido algumas coisas. Não quero ficar triste por você. Tenho uma linda esposa que sempre deixo pra amar amanhã. Mas há tempo, enquanto há vida, há. Hoje olhei-os de forma diferente. Espero que esse olhar possa fazer parte de mim agora.

Parei. Pare você também. Por um instante esqueça tudo. Apenas olhe, sinta, dê atenção, perceba.

As coisas estão passando e não queremos chegar aos oitenta, noventa anos, ou menos, olhando para traz como se tudo que deixamos fosse ontem. Tente fazer passar mais devagar. Essas coisas podem ser uma flor ou sua vida. Por que tanta pressa de viver. Permita-se viver.

terça-feira, 1 de março de 2011

CONTRA QUEM LUTAMOS

Por Julio Zamparetti

OS DEMÔNIOS

O termo demônio aparece exclusivamente no Novo Testamento. Isso graças à influência literária grega da época. Na Grécia, os demônios eram deuses de segunda categoria, filhos bastardos dos deuses que podiam ser bons ou maus. A eles eram atribuídos os traumas, as revoltas, as inspirações, os desejos e os desgostos da vida. Sócrates, por exemplo, atribuía toda inspiração do que falava a um demônio1. Para ele seus sofrimentos e desilusões o inspiravam a falar sem qualquer preocupação de agradar ou desagradar a quem fosse que o ouvisse. Afinal, é exatamente isso que nos faz refletir profundamente na busca por mudança e renovação.

Nenhuma reforma ou revolução teria acontecido na história se não houvesse, antes, um sentimento de revolta e insatisfação por parte dos reformadores ou revolucionários, nem eu estaria escrevendo este livro se não fosse a decepção quanto ao sistema político-religioso-teológico a que foi submetido o evangelho de Cristo por parte daqueles que em nome da fé pregam o evangelho do medo.

Você também, assim como eu, é levado a agir, pensar, falar ou escrever por sentimentos de indignação, sede de justiça, ou mesmo o conformismo e satisfação. Se Sócrates estivesse em nosso meio, com certeza diria que esses são demônios que nos inspiram. Isso porque em Atenas demônios não eram pintados com a mesma caricatura que os cristãos têm pintado ao longo dos séculos. Enquanto Sócrates atribuía sua sabedoria a um demônio (espécie de voz interior), Salomão atribuía a sabedoria às tristezas da alma2. Na verdade, nomes diferentes dados ao mesmo “boi”.

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1. Sócrates. Os Pensadores. Editora Nova Cultural. São Paulo, 2004. pg.25.

2. Eclesiastes 7:2-4 – Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria.


Até a próxima terça...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

QUEM SÃO OS HERÓIS DESTA GERAÇÃO

Por Hermes C. Fernandes


ÍCONES

Na última sexta-feira,acompanhado de um amigo, Rev. Jonathas Moreira, fui a um hotel aqui de Orlando em busca de espaço para um evento de líderes que estamos programando para Maio deste ano. Qual foi minha surpresa quando nos deparamos com uma convenção de fãs e imitadores de Elvis Presley. Nunca vi tanto “Elvis” juntos. Tinha até um jovem com síndrome de Down vestido a caráter. 99,9% da audiência eram de idosos, eu disse idosos, bem idosos. Alguns precisavam de se apoiar em andadores. Havia stands com todo tipo de buginganga, desde velhos discos, até broches, roupas, e produtos que supostamente foram usados pelo rei do rock.

Quem diria? Os fãs de Elvis envelheceram. Aquelas senhoras de cabelos brancos, são as mesmas que assistiam aos seus shows completamente histéricas. Quando essa geração partir, o que sobrará de Elvis? Como um ícone da juventude americana poderia tornar-se num ícone da terceira idade? E se ele não houvesse morrido, ainda teria essa legião de fãs? Acredito que sim. Boa parte dos seus fãs sequer acredita que ele tenha morrido. Muitos afirmam que sua morte não passou de um embuste, e que Elvis estaria vivo ainda hoje, morando numa ilha paradisíaca do Pacífico. Aqueles velhinhos que todavia curtem sua música, sentem-se órfãos até hoje.

Particularmente, gosto de Elvis. Curti muitos dos seus filmes na sessão da tarde. E olha que não sou tão velho assim… Aprecio sua música, sua rebeldia, e até sua espiritualidade, cultivada discretamente em sua vida privada. Mas parece que, diferente dos Beatles, seu legado não conseguiu ser repassado às novas gerações. Ou será que estou equivocado? Seus fãs continuam fiéis, mas não logram contagiar os jovens com sua fidelidade.

E quanto à geração jovem atual? Quem são suas referências? Seus heróis? Acho perturbador assistir à esta onda de filmes biográficos que tenta nos empurrar guela a baixo os novos ícones da indústria do entretenimento. Antigamente, para que um artista ou qualquer outra pessoa pública tivesse sua vida registrada em livro ou filme, teria que ter deixado um enorme legado para a posteridade. Hoje, temos que nos contentar em assistir à biografia de um garoto de 16 anos, que atende pelo nome de Justin Bieber. Nada contra o menino. Apesar de não gostar de seu estilo musical. Além disso, Hollywood nos brinda com a biografia de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook. Não há como assistir à película sem dar-se conta da apologia que se faz à máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios. Sucesso a qualquer custo não é apenas uma mensagem subliminar. Pior que isso só o filme da Bruna Surfistinha, a prostituta da classe média que registrava suas desventuras num blog. Imagine uma adolescente saindo do cinema decidida: Vou ser a nova Surfistinha! Na minha época de juventude, um filme desses era proibido para menores de 18.

Na contramão disso tudo, decidi assistir com os meus filhos adolescentes ao filme “Che”, que conta a biografia do líder revolucionário Che Guevara. Embora tendo que parar o filme de tempo em tempo para explicar aos meus pimpolhos o contexto social, político e cultural em que a história transcorre, valeu a pena ter assistido à essa obra-prima. Prefiro que eles admirem o idealismo de Che (ainda que não estejamos ideologicamente 100% de acordo), a vê-los admirar os ícones superficiais criados pela indústria para serem consumidos.

Surpresa maior eu tive ao ler uma reportagem sobre manifestações em prol da democracia no Iêmem, onde manifestantes muçulmanos traziam sobre os turbantes a imagem de Che Guevara. Quem diria que um dia o Oriente Médio descobria o idealismo desse revolucionário latino-americano…

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Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2011/02/quem-sao-os-herois-desta-geracao.html

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor.

Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore.

Se não conseguir chorar, não se preocupe.

Se tiver vontade de rir, ria.

Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão.

Se me elogiarem demais, corrija o exagero.

Se me criticarem demais, defenda-me.

Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam.

Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo.

Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles.

Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !'

Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar.

E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu.

Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.

E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito.

Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.

Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele !

Chico Xavier

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Por Julio Zamparetti

Pode ter lhe causado estranheza o fato de eu ter colocado a assinatura do autor abaixo do texto e não acima como faço de costume. Mas sabendo que a maioria de meus leitores é evangélica e outra grande parte católica, temi que houvesse quem nem começasse a ler este maravilhoso texto quando visse de imediato quem é o seu autor. É que infelizmente esse preconceito existe. E muitos com medo de raciocinar além do que seu pastor ou padre raciocinou previamente por ele, se privam de boa literatura, apreciação cultural, boa música e diálogo inter-religioso.

Tudo bem! Eu também não creio em reencarnação! Mas não posso negar que Deus suscitou filhos onde víamos apenas pedras, e falou conosco de diversas formas. Tenho certeza que Chico realmente está com nosso Pai Celeste, e agora sabe bem tudo quanto errou no que pregou. Um dia nós também estaremos com o mesmo Pai, no mesmo céu, e da mesma forma também saberemos bem o que de errado pregamos.

O mais importante, creio eu, é que o céu está intimamente relacionado ao que acertadamente cremos, pregamos e vivemos, enquanto os erros se relacionam com a cruz, onde foram pagos. E certamente muitos são nossos erros! Muito mais do que possamos imaginar! Mas com certeza, quem dispõe de amor, amizade, respeito, compaixão e coisas semelhantes a essas, ao menos nisso, nunca erra. E se podemos confiar nas Escrituras, temos a certeza de que “o amor cobre multidão de pecados” (I Pedro 4.8).