É muito difícil para nós seres humanos abrirmos mão do controle da situação; é difícil confiarmos nos outros; admitamos: é difícil confiar em Deus.
Para tudo impomos normas, regras e condições por uma única razão: queremos a garantia de que tudo sairá do jeito que desejamos.
As igrejas não confiam que seus fiéis saberão escolher entre o bem e o mal. Por isso lançam cartilhas e dogmas determinando o que é bom ou mal, que lugares freqüentar, o que se deve ou não beber, assistir, ouvir, vestir, etc.
Também os pais não confiam que seus filhos são capazes de tomarem suas decisões, pois não os prepararam para essa hora. Agora, querem decidir por eles a decisão que só a eles pertence tomar.
Na verdade a carência que temos de leis que estabeleçam nossa conduta diária é congruente a deficiência que temos em expressar o caráter de Cristo. Isso porque todo aquele que expressa em sua vida a vida de Cristo, ainda que não conheça uma só lei, cumprirá, essencialmente, toda ela, pois, por amor a Deus, jamais fará aos outros aquilo que ele não quer que lhe seja feito, ao mesmo tempo em que fará ao próximo aquilo que deseja que lhe façam os outros.
Portanto, fazer o bem a quem quer que seja não deveria ser uma imposição arbitrária, exigida por uma terceira pessoa. O ideal é que a bondade seja um fruto gerado no âmago da primeira pessoa (EU), isto é, só é bondade o bem gerado no íntimo do coração.
Não digo com isso que toda lei seja má. De forma alguma! Elas podem ser boas e necessárias, na mesma medida em que somos maus e débeis. A boa lei nos serve exatamente para regular e remediar nossas maldades e debilidades. Seria, ela, absolutamente desnecessária se fôssemos realmente bons, pois então faríamos o mesmo bem que a lei pretende, porém faríamos não por obrigação, mas sim por simples expressão do ser.
É nesse sentido que Cristo nos propõe algo muito superior que a lei. Já dizia o sábio que prevenir é melhor que remediar. Segundo Jesus, os antigos falavam: “Não matarás”. Ele, no entanto, disse: “se te irares contra teu irmão, serás levado a juízo”. Graças a Deus não era essa uma nova lei, mas uma nova perspectiva de condução moral. Antes de proibir o assassínio, que é o efeito da ira, Jesus propôs tratar a ira, que é a causa do assassínio; Antes de reprimir o adultério, que é o efeito da cobiça, propõe tratar as nossas cobiças que são a causa do adultério; Antes de coibir a exploração, devemos tratar as ambições.
É claro que não somos perfeitos (ainda), por isso necessitamos de regras, normas, costumes, leis e alguns dogmas. Mas é indispensável que essas leis, ou religiosidade, sejam regidas pelo amor e produzam no coração daqueles que a seguem, algo maior e muito mais precioso que a própria lei, ou religiosidade em si.
O valor de uma ostra está na pérola que ela produz. O valor de uma religiosidade está no tesouro precioso, o Reino de Deus, que é gerado no interior daquele que crê. Fora isso, a ostra não tem valor... nem as leis e a religiosidade.




