domingo, 6 de fevereiro de 2011

A VOZ DE DEUS NA HISTÓRIA

Por Leonardo Boff

Diz a epístola aos hebreus que “muitas vezes e de modos diversos Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1,1). Nunca deixou de se autocomunicar a todos os povos. Seus porta-vozes (...) ajudaram as pessoas a serem mais generosas e atentas à presença de Deus na história.

Para nós, cristãos, Deus se revelou particularmente na história do povo de Israel pelos seus profetas, poetas, salmistas, escritores e sábios. De forma única, em Jesus de Nazaré, em quem testemunhamos que Deus disse sim e amém a todas as promessas (cf. 2 Cor 1,19) e que sentindo-se Filho de Deus e primeiro de muitos irmãos e irmãs (Rm 8,29), nos deu a consciência de que também somos filhos de Deus. Os evangelhos guardam a saga e as palavras de Jesus, alimento permanente para todas as igrejas portadoras de sua herança e para todos os que se mostram sensíveis ao Espírito. Mestres cristãos como Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, Pascal, o Papa João XXIII, Dom Hélder Câmara, irmã Dulce e uma legião de homens e mulheres que filtraram suas vidas pelos evangelhos continuam edificando as pessoas e convocando-as ao caminho do bem.

Precisamos superar um fundamentalismo freqüente entre muitos cristãos, mesmo entre teólogos que, ilusoriamente, imaginam ser as Escrituras Cristãs os únicos textos inspirados pelo Espírito de Deus. Na verdade, o Verbo ilumina cada pessoa que vem a esse mundo (cf. Jo 1,8) e seu Espírito paira sempre sobre toda a criação (Gn 1,2) e faz do corpo humano seu templo (1 Cor 6,19). Ambos inspiram grandes sonhos, visões e ideias que alimentaram milhões e milhões de pessoas pelos séculos afora.

Só leva a Deus aquilo que vem de Deus. Então, todos esses testemunhos cristãos e não-cristãos constituem a Palavra exterior de Deus à humanidade.

Por essa razão, devemos tratar com reverência e respeito tais textos sagrados e revisá-los com frequência para nos empaparmos da Palavra de Deus que nos guia e confirma no caminho do bem.

.............................
Extraído do livro O Senhor É Meu Pastor

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PAZ E TOLERÂNCIA

Fonte: Daily Mail (Via Pavablog)



Na virada do ano, ocorreu o atentado de um homem-bomba na cidade de Alexandria, no Egito, que matou 23 cristãos. Nestes últimos dias dezenas de cristãos foram mortos por extremistas muçulmanos, que se aproveitaram do caos que o país vive. Mesmo assim, a foto acima, registrada por Nevine Zaki, revela uma imagem de paz e tolerância em meio à situação calamitosa que o Egito vive.

Um grupo de cristãos coptas, que são cerca de 10% da população egípcia, decidiram dar as mãos e criaram uma espécie de corrente humana para proteger uma centena de muçulmanos que interromperam os protestos para as orações mandatórias do islamismo. Mesmo em minoria, os cristãos atuaram como uma espécie de equipe de segurança, protegendo seus compatriotas de religião diferente de qualquer ataque inesperado da polícia ou de outros manifestantes. Paz em meio à guerra. Tolerência em meio a repressão. Exemplo de fraternidade resumida em uma imagem.

.........

Por Julio Zamparetti

Não é maravilhoso ver cristãos defendendo o direito dos mulçumanos realizarem suas orações? Ou quem sabe algum fundamentalista diga: “deveriam era evangelizá-los a fim de ganhá-los para Cristo”. E eu pergunto: que maior evangelização pode haver do que esta atitude?

Parafraseando Voltaire: Posso não concordar com nenhuma das orações que você fizer, mas defenderei até a morte o direito de você rezá-las.

Liberdade é um princípio cristão.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

VOCÊ É FELIZ?

Por José Fernandes e
Julio Zamparetti Fernandes


"Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus" (Mt 5,3).

Há quem diga que ninguém é feliz ou infeliz, o que existe são momentos de maior ou menor felicidade. O fato é que nem sempre a alcançamos, porque a medimos pelo critério de posse. É claro que a posse – bens materiais e saúde – pode nos proporcionar momentos de felicidade. Entretanto, momentos passam, e então resta-nos a vida que se segue com tantos outros momentos sortidos de altos e baixos sobre os quais, muitas vezes, o dinheiro pouco ou nada pode influenciar.

Se fizermos uma pesquisa junto às diversas camadas sociais, perguntando: “você é feliz?”, com certeza teremos vários tipos de respostas compridas, cheias de voltas, mal explicadas... mas um simples 'sim' não será tão fácil obter.

Jesus nos apresenta uma escala de valores que pode nos ajudar a sermos felizes. Nessa proposta, sobressai a primeira – felizes os pobres -, que é como um passo inicial, impreterível e indispensável. Com certeza, essa escala de valores que proporcionam felicidade não coincide com as propostas da sociedade moderna, que vê a felicidade mais no ter que no ser, medindo-a segundo as posses, o sucesso e o poder.

A primeira bem-aventurança desafia-nos a sermos pobres. Em si, este não é um valor, na verdade, aos olhos de uma sociedade capitalista, é um desvalor. Por outro lado, ser rico, para muitos, significa ter poder, receber honras e exercer domínio. Aqui é que começa o perigo, porque onde há poder, riqueza e sentimento de superioridade há também oprimidos, esmagados e desprezados.

Tornar-se “pobre em espírito” significa erradicar de nós o espírito consumista e acumulativo; despojar-nos das atitudes próprias da arrogância, ambição, poder, domínio sobre os outros; partilhar o pouco ou o muito que temos com quem não tem; empenhar-nos para resgatar os pobres de sua miséria; trabalhar por uma sociedade mais justa e menos desigual.

Às vezes penso que Deus preparou um punhado de felicidade para cada um de nós. Sobre cada punhado pos o nome daquele a quem aquela felicidade estava destinada. Mas na hora de nos entregar, Ele embaralhou tudo e no-las entregou tudo misturado, a fim de que cada um encontra-se sua felicidade no outro.

Talvez por isso já dissesse um saudoso compositor gauchesco: "A tua felicidade é o prazer da minha vida" (Norinho Cruz)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O CAVALO CEGO

Recebi, gostei, repasso.

“Na estrada de minha casa há um pasto. Dois cavalos vivem lá. De longe, parecem cavalos como os outros cavalos, mas, quando se olha bem, percebe-se que um deles é cego. Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um amigo - um cavalo mais jovem. Isso já seria admirável! Se você ficar observando, ouvirá um sino. Procurando de onde vem o som, você verá que há um pequeno sino no pescoço do cavalo menor. Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele. Ambos passam os dias comendo e no final do dia o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo. E você percebe que o cavalo com o sino está sempre olhando se o outro o acompanha e, às vezes, para para que o outro possa alcançá-lo. E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante que o outro o está levando para o caminho certo.

Como o dono desses dois cavalos, Deus não se desfaz de nós só porque não somos perfeitos, ou porque temos problemas ou desafios. Ele cuida de nós e faz com que outras pessoas venham em nosso auxílio quando precisamos. Algumas vezes somos o cavalo cego guiado pelo som do sino daqueles que Deus coloca em nossas vidas. Outras vezes, somos o cavalo que guia, ajudando outros a encontrar seu caminho. E assim são os bons amigos. Você não precisa vê-los, mas eles estão lá. Por favor, ouça o meu sino. Eu também ouvirei o seu. Viva de maneira simples, ame generosamente, cuide com devoção, fale com bondade. Pense antes de agir, para não se arrepender. E creia, deixando o resto para Deus.”

CHEGA DE FUNDAMENTALISMO

Por Julio Zamparetti

Até quando viveremos sob a tensão das acusações teológicas? Até quando a Bíblia que trás a maior história de amor, compreensão, compaixão e misericórdia será razão de inimizades e intolerância? Será que ninguém percebe que algo está muito errado?

A Bíblia não pode ser interpretada sem se compreender o contexto histórico e cultural sob o qual foi escrita. Caso contrário, reteremos, apenas, sua letra mortal e lançaremos fora todo seu Espírito vivificante. E essa é exatamente a causa da bagunça religiosa de nossos dias.

A verdade é que qualquer forma de interpretação que não seja permeada de amor, tolerância e respeito ao próximo, independentemente de sua cor, CREDO e raça, deve ser extirpada de nossa vida.

A história já nos mostrou o suficiente para entendermos que o fundamentalismo jamais demonstrou o caráter de Cristo, o Príncipe da Paz.

CHEGA! Paradoxalmente não consigo mais tolerar a intolerância!

Quero paz! Quero adorar a Deus e rezar com meu irmão católico; Cantar louvores com meu irmão evangélico; fazer o bem e caminhar com meu irmão espírita; aprender com a sabedoria de meu irmão oriental; proclamar a glória de Deus com meu irmão Sol e minha irmã Lua.; e ter minha religiosidade respeitada por todos. Não importa se somos diferentes, se pensamos diferentes. Se o amor de Cristo não cobrir a medida de nossas diferenças, religiosidade alguma faz sentido.

O mundo conhecerá a Deus, disse Jesus, quando formos um, não disse quando formos iguais.

Diz a liturgia: “O amor de Cristo nos uniu”...

... quem sabe, um dia!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A ORAÇÃO NÃO MOVE AS MÃOS DE DEUS (parte final)

Por Julio Zamparetti

Deus é onipresente, está em todos os lugares, não necessita que o invoquemos para que se faça presente. A invocação que fazemos de seu Santo Espírito nada mais é do que um condicionamento de nosso próprio espírito para recebermos seu mover. Portanto, a oração não move a mão de Deus, mas sim nos move para a dimensão do agir de Deus.

Gosto de pensar nisso como alguém sob a chuva. Lembre-se de que a Bíblia trata a chuva como representação da bênção de Deus e diz que Deus derrama sua chuva sobre todos, indistintamente. Entretanto, nem todos se molham, pois há aqueles que procuram as marquises, abrigos, não saem de casa, ou simplesmente armam um guarda-chuva. Pois bem, quem não deseja se molhar não pode determinar que a chuva não o molhe sem que se proteja dela. Quem deseja se molhar não pode determinar que a chuva o molhe enquanto estiver abrigado. É necessário se expor. A chuva cai sobre todos, mas o que determina quem se molha é localização da pessoa.

A oração não move as mãos de Deus porque Deus não depende delas para se mover. Deus está sempre agindo, sem nunca cansar, sem nunca dormir, nem sequer pestanejar, conforme diz o salmista: É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel (Salmo 121:4). Mesmo enquanto dormimos Deus está trabalhando por nós. Era nessa confiança que o rei Salomão dizia: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Salmos 127:2). O que a oração move é a nossa posição diante do trabalho de Deus, colocando-nos debaixo de sua chuva para que sejamos encharcados de sua graça e misericórdia.

Dessa forma não fica difícil entendermos o que são Paulo queria dizer ao falar: “Orai sem cessar” (Tessalonicenses 5:17). Certamente não se referia a estar vinte e quatro horas diárias falando a Deus durante todo o tempo. Orai sem cessar significa estar sempre exposto ao mover de Deus, confiando-lhe as aflições, sujeito a sua vontade e atento a sua voz.

Segundo Hermes Fernandes (2008, p.86): “Orar sem cessar não é orar ininterruptamente. Orar sem cessar é tão somente estar em sintonia com Deus em todo tempo. O canal entre nós e Ele deve estar constantemente aberto”.

Ainda segundo Hermes Fernandes, a oração precisa ser acompanhada de ações de graças. Neste ponto quero ir além e afirmar que a própria oração gera a gratidão da qual necessita ser acompanhada. Pois aquilo que conquistamos sem o intercurso da oração, leva-nos ao risco de considerarmos uma conquista oriunda dos méritos próprios. Por outro lado, quando temos todas as nossas necessidades entregues a Cristo, em oração, não temos do que nos gloriarmos, pois não podemos tomar os créditos pelas soluções uma vez que tenhamos confiado a Deus nossos problemas.

É importante saber que a diferença entre um homem que credita os méritos a Cristo e outro que os credita a si próprio, está tão somente na consciência, pois em ambos os casos, as conquistas provêm de Deus. Sobre isso já advertia Moisés: “Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, porque é ele o que te dá força para adquirires riquezas”(Deuteronômio 8:17,18a).


............................................
Extraído do livro ESPIRITUALIDADE DINÂMICA
Peça já o seu pelo email juliozamparetti@hotmail.com

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A ORAÇÃO NÃO MOVE AS MÃOS DE DEUS (parte 1)

Por Julio Zamparetti

Deus não precisa de nossa oração para operar o que for de sua vontade, pois Ele é soberano e sua vontade é o que sempre prevalece. Também não depende de nossas orações para inteirar-se de nossos problemas, pois Ele sabe muito bem do que nós necessitamos muito antes que possamos pensar em pedir. Além disso, se pedimos algo errado, Ele simplesmente nos dá o certo, não importa quanta devoção e empenho tenhamos dispensado em tal pedido. A verdade é que Deus é bom, e um Deus tão bom assim sabe muito bem dar boas dádivas aos seus filhos.

Por confiar que Deus sempre nos dá o melhor, mesmo que o melhor não seja exatamente o que pedimos, temos a confiança de pedir-lhe tudo que desejamos. Em primeiro lugar porque a Bíblia diz: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Portanto, peço sempre confiando que meu desejo é operado pelo Santo Espírito e é, portanto, a manifestação do desejo de Deus em mim. Em segundo lugar, porque se o meu desejo não for o desejo de Deus, sei muito bem que o desejo dEle prevalecerá. Nesse aspecto, faço coro a Davi, quando dizia: “O conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações” (Salmos 33:11).

Não se escandalize com o que vou dizer agora, nem deixe de ler antes que eu conclua este pensamento, mas preciso revelar algo sério: a oração não move as mãos de Deus. Deixe-me explicar: Deus é pleno em toda graça, sabedoria e perfeição. Ele não tem o que ser aperfeiçoado, não há como mudá-lo, não há o que ensiná-lo, tampouco determinar o que Ele faz. Não há quem possa sequer entender os seus juízos. Concordo com meu bispo e amigo Hermes Fernandes (2008, p.203) ao dizer: “A oração não visa mudar Deus, mas, sim, mudar a maneira como vemos a vida. Os planos de Deus não são alterados quando oramos. Quem precisa ser transformado somos nós, e não Deus”.

Mas então, qual é o poder que a oração exerce? A oração é um mecanismo de manutenção do corpo de Cristo, é alimento para nosso espírito e transforma a nossa condição diante das circunstâncias. Na oração exercitamos a confiança em Deus, aquietamos nosso espírito, passamos a ter maior clareza dos fatos e visualizamos a melhor forma de solucionar os problemas. Nessa conjuntura nos tornamos mais íntimos de Deus e nos ligamos a Ele que é força, bondade e bênção. Assim, podemos entender que mais importante do que aquilo que falamos a Deus é o simples fato de falarmos com Deus e sabermos ouvi-lo. Pois Ele sabe, bem melhor do que nós, o que necessitamos. Diante disso, não há como as circunstâncias não serem transformadas.


.........................................
Extraído do livro ESPIRITUALIDADE DINÂMICA