quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PERDEMOS O MESSIAS

Por Julio Zamparetti

“Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido o testemunho de João e seguido Jesus. Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias” (João 1.40-41).

Talvez a euforia de André não fosse a mesma nos dias de hoje. Alguns indícios levam-nos a crer que se o mesmo André estivesse entre nós, vendo no que se tornou a igreja que se diz de Cristo, ele certamente diria: Pedrão, meu querido irmão, perdemos o Messias!

A verdadeira religião não oprime, não domina, não tende a ser um império, não impõe sua vontade como faz normalmente o mundo da política e dos negócios. Ao contrário, tal qual ensinou Jesus Cristo em seu próprio modo de vida (que logo ao nascer recebeu a adoração de astrólogos pagãos), a verdadeira religião liberta, respeita as diferenças culturais, religiosas e sociais, defende o direito alheio, serve ao próximo e ama sem esperar retorno. Entre os próprios discípulos de Cristo podemos ver que a presença de Cristo torna possível a convivência de pessoas diferentes em suas culturas, como no caso de Lucas, um médico e Pedro, um pescador; ou diferentes religiões, como Simão, um zelote e Filipe, um místico helenista; também de diferentes temperamentos, como Tiago menor, melancólico e Mateus, colérico. O verdadeiro religare nos torna tão unidos quanto livres, pois a ação de Cristo é fundamentada no amor que, entre outras coisas, tudo suporta, não procura seus próprios interesses e nem arde em ciúmes. Diante do fato de vivermos uma religiosidade que nem de longe reflete esse preceito, só nos resta reconhecer que perdemos o Messias!

Em nome de Deus, os defensores da “santa da fé” mataram viuvas macumbeiras, velhas feiticeiras, pregadores hereges, curandeiros ocultistas, mágicos satanistas, pessoas que por mais que eu tente usar adjetivos que denigram suas imagens não deixarão de ser pessoas, vidas por quem Cristo amou e se doou, mas que nós insistimos em focarmos os maus adjetivos que lhes damos em vez de vermos as pessoas que realmente elas são. Fato natural para nós que perdemos o Messias!

Diante da necessidade de reformas na igreja e diante do protesto do século XVI, o alto clero se posicionou irredutível e intensificou os processos inquisitórios a fim de não perder o domínio e os lucros advindos das cobranças de indulgências. Mantiveram os lucros... Mas perderam o Messias!

Perdeu a igreja de Roma e perderam também os fiéis separados, tendo feito cada um a si mesmo por seu próprio Papa. E esta é a causa de termos, hoje, tantas igrejas nas quais seus líderes não têm o mínimo de conhecimento histórico, cultural e bíblico do que é o cristianismo. A maioria destas igrejas acaba contrariando os próprios princípios da reforma protestante, pois desconhece sua raíz, sua história e sua própria fé. Libertara-se do domínio papal e tornara-se escrava de seu próprio papismo. Diante desse pressuposto, não nos resta dúvida de que além de perdermos a unidade da igreja e a fé genuína, obviamente, perdemos o Messias!

Max Weber, no século XIX, já dizia que a ética protestante havia fundamentado o capitalismo, motivando os crentes a se voltarem ao trabalho com afinco egoísta, considerando que as riquezas eram sinais da graça de Deus sobre suas vidas. Weber estava certo em criticá-los. Pena que sua crítica foi absolutamente ineficaz, de forma que os protestantes de hoje evoluíram ao ponto de não exercerem mais a fé, senão em função do enriquecimento próprio. Nesse viés, as aglomerações ganharam status de igrejas e as igrejas tornaram-se impérios, ou, no mínimo, empresas com fins muito lucrativos. Como igreja (ou será empresa?), ganhamos status, ganhamos fama, mas... Perdemos o Messias!

Agora, depois de tantos descaminhos, temos nos ocupado demasiadamente com nossos conceitos apologéticos, discutindo incansavelmente, cada um com o mesmo fim de concluir que “eu estou certo e que o outro é o herege”. Todos pobres miseráveis buscando o andar correto no prédio errado. Ser ortodoxo ou herege a essa altura da caminhada já não faz diferença, pois... Perdemos o Messias!

sábado, 15 de janeiro de 2011

AÇÃO SOLIDÁRIA

ESTENDAMOS MÃOS SOLIDÁRIOS PARA AJUDAR AS VÍTIMAS DAS CHUVAS NO RJ

O QUE DOAR: preferencialmente água mineral, produtos de higiene pessoal (escova e pasta de dente, absorvente, fralda…) e de limpeza (rodo, vassoura, desinfetante, detergente, sabão em pó…) roupas de cama, mesa e banho e colchonetes, além de alimentos não perecíveis (arroz, café, feijão, óleo, sal…).

EM SANTA CATARINA, todos os batalhões de bombeiros, postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Sistema Nacional de Emprego (Sine/SC) recebem doações para o envio às vítimas. O subcomandante-geral do CBMSC, Marcos de Oliveira, orienta que a doação de roupas ocorra apenas após o governo do Rio de Janeiro anunciar a necessidade. Por enquanto, o mais importante são os alimentos não-perecíveis, água, produtos de limpeza e higiene.

DOAÇÕES FINANCEIRAS
- A prefeitura de Teresópolis abriu uma conta bancária, para deposito de qualquer quantia, no Banco do Brasil com o nome “SOS Teresópolis – Donativos”, ela está disponível na agência 0741-2, com o número 110000-9. - O Viva Rio disponibilizou sua conta corrente do Banco do Brasil: 411396-9, agência: 1769-8; Qualquer quantia aceita! - No site Mega Abelha (http://www.megabelha.com.br), de compra coletiva, você poderá doar qualquer valor acima de R$5,00, que será repassado aos orgãos municipais, para ajudar às vitimas.

- Conta bancária da Cruz Vermelha: BANCO REAL – Ag: 0201 – C/C: 1793928-5

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NASCER PARA DEUS

Por Julio Zamparetti

Aqueles que refletem sobre o Natal, têm em voga o conceito de que Natal, para nossos dias, é o princípio espiritual de se acolher o nascimento do Filho de Deus em seus corações, permitindo assim que a paz e esperança floresçam no campo da vida.

Todavia, apenas Ele nascer em nós não basta. Esta é uma via de mão dupla em que a reciprocidade é a ordem do dia. É dando que se recebe. Então, quem quer ter Cristo nascido em si, tem que também nascer para Cristo. Caso contrário, ninguém nasceu em ninguém.

Os Cristão têm, de forma geral, o batismo como o sacramento do nascimento para Deus. Tanto o termo sacramento, quanto nascimento, nos remete a entendermos o batismo como dom de Deus, um meio de graça pelo qual Deus se achega a nós e se faz conhecido em nosso meio. Entretanto, mesmo esta via tem sua duplicidade, requer de nós uma caminhada. Se engana feio quem acha que basta ser batizado. Pois o principal fator de validação de um sacramento está na fé e o comprometimento credal. Já dizia São João: “Se alguém diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso” (I João 2.4). Assim, a vida do cristão só é vida de cristão se reflete os princípios básicos que o batismo representa: perdão, justiça, serviço e unção.

Perdão. O aspecto da purificação dos pecados é inerente ao batismo praticado não só no cristianismo como em diversas outras culturas religiosas. Nas Escrituras Sagradas ele é encontrado nos banhos de purificação da Lei Mosaica, no batismo ministrado por João Batista e também no batismo cristão instituído por Jesus e praticado por seus discípulos.

Enquanto em outras culturas batiza-se novamente uma pessoa sempre que esta deseja o perdão dos pecados, o cristianismo tem no seu batismo uma marca indelével, dispensando assim a necessidade de repetição do rito, requerendo-se apenas arrependimento e mudança de atitude. Um único batismo faz-se previamente eficaz por toda a vida, válido a todo e qualquer momento em que o batizado, arrependido, desejar honrar seus votos.

Essa consciência de uma marca indelével do prévio perdão de Deus sempre disponível sobre todo aquele que se arrepende, também compromete o cristão a perdoar, previa e indelevelmente, a todo que lhe ofende.

Justiça. Outra característica inerente ao batismo é a justiça. Jesus Cristo não necessitava do perdão, pois era sem pecados. Este fato está claro nas palavras de João Batista: “Eu é quem devo ser batizado por ti, e vens tu a Mim”. Entretanto, era necessário que Jesus se submetesse a justiça de Deus e dos homens, para que os homens pudessem ter nEle a justificação. Não é justo, nem pode ser justificador quem a si mesmo não se submete à justiça. Por isso Ele disse: “nos convém cumprir toda justiça”.

Eis que novamente se descortina diante de nós uma via de mão dupla. Justiça não deve ser desejada aos olhos, mas sim ao paladar. Não é bem-aventurado quem quer ver justiça, mas sim quem dela tem fome e sede. Justiça não é coisa para se ver, mas para degustar. Somos justificados por Cristo, quando desejamos que seu conceito de justiça seja vivido em nós.

Serviço. O batismo de Jesus foi carregado de um significado a mais, o início de seu ministéro. Embora seja comum às pessoas considerarem ministério apenas as atividades que se referem ao serviço clerical, não podemos nos esquecer que o Sacerdócio Universal é concernente a todos os cristãos, leigos e clérigos. Todos somos chamados a ser soldados de Cristo, trabalhando segundo os dons que nos são concedidos pelo Espírito Santo.

Unção. No batismo Jesus se fez nascido da mesma água e do mesmo Espírito que nós nascemos. O mesmo Espírito que repousou sobre Ele, repousa também sobre nós A mesma voz que dizia sobre Ele: “este é meu Filho amado”, também nos chama de filhinhos queridos, pois no batismo filiamo-nos ao Pai e irmanamo-nos a Jesus, razão pela qual temos a autoridade (unção) de realizarmos sua obra em seu nome.

Mas não só temos essa autoridade, como temos também a responsabilidade. Uma vez que, pelo batismo, nossa filiação ao Pai é indelével, sempre carregaremos sobre nós o nome de Cristo, seja para a honra ou para a desonra. Como um filho não pode deixar de ser filho por um momento sequer, também não podemos deixar de carregar o nome de Cristo ainda que vivamos em pecado. Neste caso, o tesouro depositado para salvação, poderá vir a ser peso de condenação.

Conclusão

Ser batizado não requer apenas rito, requer fé; não requer apenas água, requer arrependimento todos os dias; não requer somente fórmula, requer obediência; não requer um novo nome, mas uma nova vida, um nascimento para Deus.

Bendito seja Cristo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

QUEM SEMPRE NOS SOCORRE

Por José Fernandes

“ Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?”
. (Lc 15,4)


Desde criança fomos acostumados, durante muito tempo, a ter a imagem de Deus como um Deus que castiga e que nos amedronta. Era mais fácil para nós ficarmos quietinhos nas cadeiras da catequese. Dava-nos medo. Mas, esta visão é errada, não colabora em nada para a evangelização e muito menos para nossa proximidade com Deus. Mas, mesmo assim, de vez em quando, repetimos esta idéia. Deus é quem nos acolhe, quem vem ao nosso encontro, quem toma a iniciativa. É bom estender esta imagem de Deus que busca, que se preocupa, que nos mostra a sua grande bondade e a sua imensa compaixão para conosco. O nosso dia será mais verdadeiro se pensarmos num Deus que ama e não num Deus austero, vingativo e que condena. Precisamos ter em mente que Deus é pai, é amor, Deus é misericórdia. Como o pastor foi a procura da ovelha que se dispersou do rebanho, tenhamos certeza que Deus, na sua infinita bondade, virá sempre em nosso socorro.

Pense nisso. Tenha um Feliz Ano Novo e... Fique na paz e no amor de Deus!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

LEI OU LUZ?

Baseado em João 1.1-18 e Gálatas 3.23-25,4.4-7

Enfim, passou o Natal! Passou? Possivelmente! Infelizmente!

Depois de um período de preparativos dos presentes, da ceia e de um espírito geralmente hipócrita de filantropia que só aparece nesse tempo como se pobre só tivesse fome uma vez ao ano, a vida continua como sempre foi.

Os baladeiros alienados já traçam os planos para mais uma festa de virada de ano e um ano cheio de festas, outros pensam nas férias e cada um pensa em si deixando pra trás o Natal e todo espírito filantrópico que tão penosamente o envolveu. Diga-se de passagem, a filantropia do período natalino é, na verdade, não mais que uma forma de expurgarmos o incômodo que a pobreza e a miséria nos provocam em tempos de tanto consumismo. Talvez por isso Jesus, que foi tão pobre, esteja a cada ano que passa mais fora de moda para um mundo tão consumista e uma igreja tão cheia de “prosperidade”.

Mas enfim, o Natal passou e as festas que virão não terão nenhuma conotação religiosa, pelo que poderemos nos esbaldar sem que o sofrimento alheio nos atormente. Ano novo, carnaval, verão, sol, praia, muita festa e a vida “como o diabo gosta”.

E não dá pra esquecer dos mais religiosos, que depois desse período de amor e reflexão natalina, voltarão ao habitual legalismo, usando da mesma Escritura que ensina o amor para agora condenar o infrator.

Sabe o que é pior? Para a maioria das pessoas (e dizendo isso sou otimista) Jesus não fez diferença em seu advento. Pois sendo Cristo a luz, eles permanecem na lei. Até mesmo as atitudes filantrópicas do período natalino se tornaram leis, pois não são frutos de um espírito que clama Aba Pai, pois se assim fosse, frutificariam o ano todo, amariam a todo tempo e jamais condenariam quem carece de simples atenção e sincera amizade. Assim, estes apenas trocaram a Lei de Moisés por uma nova e estranha lei a qual, por pura ignorância, atribuíram ao evangelho de Jesus, mesmo que esta nova lei contrarie o que o próprio Jesus falou.

Uma igreja que joga pedras nos homossexuais, impõe proibições e obrigações, não tolera diferenças religiosas, não respeita a cultura nativa, discrimina os pobres e se preocupa tanto com as aparências, está vivendo sob a luz de Cristo, ou apenas mudou de lei?

Infelizmente o estudo apologético de nossos dias tornou-se um mero artifício sob o qual caminha a religiosidade meramente proselitista, que mais se preocupa em mostrar estar certa do que corrigir seus próprios erros; o poder das Escrituras foi restringido a exortação dos ouvintes, mas não a correção do palestrante; é largamente usada para retirada do cisco no olho alheio, mas impotente à trave do próprio olho. Neste ínterim, religiosos e alienados baladeiros, por mais diferentes que sejam, erram igualmente, e nem de longe se parecem com Cristo.

Se Cristo de fato nasceu em nós, e se de fato vivenciamos um verdadeiro Natal, é de se esperar que alguma coisa em nós mude. Não porque temos sobre nós novas obrigações e proibições, mas porque em nós brotou a luz do Espírito de Cristo que clama Aba Pai - Paizinho Querido -. Quem assim o chama em seu coração, quer bem a todos os filhos deste mesmo Pai; se irmana aos homens, à terra e ao cosmos; não necessita de leis, pois já tem a luz; faz a Sua vontade não por que O teme, mas porque O ama.

Sob a luz de Cristo, um feliz ano novo para todos, sem exclusões.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O EQUILÍBRIO

Nada é mais difícil de compreender, na caminhada espiritual, do que o equilíbrio. Isso porque o equilíbrio consiste da simetria de movimentos opostos, ou diferentes. A verdade é que não somos habituados a conviver com as diferenças. Normalmente queremos impor nosso ritmo, nossos hábitos, nosso gosto, nosso estilo de vida sobre aqueles que nos acompanham em nossa caminhada. Comumente excluímos aqueles que agem diferente da gente sem nos percebermos que, excluindo-os, estamos comprometendo o equilíbrio do corpo todo.

Sem diferença não há equilíbrio. Os braços são iguais, porém movimentam-se em sentidos opostos, seja para caminhar, abraçar ou pegar um objeto. Assim, compreendemos que mesmo sendo diferentes, fazemos parte de um mesmo corpo; que mesmo trabalhando em sentidos opostos, cooperamos para um mesmo fim.

Um advogado e um promotor desempenham papéis diferentes, trabalham em sentidos opostos, buscam interesses diferentes, mas juntos cooperam para um bem comum: a verdade dos fatos. Imagine um julgamento conduzido unicamente pela via de acusação, ou então, um julgamento em que o processo seja montado inteiramente de mecanismos de defesa. Que justiça poderia se esperar disso?

Essa é a razão pela qual o mundo cambaleia e as religiões manquejam. Os mecanismos de exclusão e isolamento provocam uma ferida em nossa sociedade, um apartait em nossa religiosidade.

O problema é que nosso senso de justiça e equilíbrio estão centrados em nosso ego, e queremos que todas as demais coisas girem em torno de nós. Nos esquecemos que o posto de Sol da Justiça já fora ocupado e pertence a Cristo. Neste sistema Cristo-solar sempre teremos astros semelhantes que estarão em órbitas diferentes, mas que são igualmente regidos pelo mesmo Astro-Rei. Portanto, na esfera espiritual, havemos de entender que ser regido por Cristo não significa exercer a mesma religiosidade, nem mesmo pensar uníssono, entre diferentes ou semelhantes cristãos.

De que outra forma seríamos exercitados em amor fraternal? A unidade do cristianismo verdadeiro e autêntico não se baseia nas semelhanças, mas sim no amor. Afinal, o amor encobre (não remove) multidão de diferenças, ou erros.

O sucesso de nossos relacionamentos não consiste em sermos parecidos. Os casamentos mais bem sucedidos não são aqueles em que os cônjuges mais se parecem um com o outro, seja intelectual, moral ou fisicamente. Nem são aqueles que removem as diferenças anulando-se ou anulando o outro. Os relacionamentos mais bem sucedidos são aqueles em que as diferenças (que, acreditem, sempre existem e persistem) submergem ante o amor.

Quero, neste livro, fazer um desafio semelhante ao que fiz em ‘O Cristianismo que os Cristãos Rejeitam’: Que tal alicerçar nossos relacionamentos no amor, e respeitarmos as diferenças? Que tal amar o hinduísta, o budista, o umbandista, o católico, o evangélico, o espírita, o ateu ou qualquer outro que não professe nossa mesma fé, mesmo sabendo que ele jamais a professará? Ou será que estamos destinados a morrer condicionando os relacionamentos à falsa sensação de que serão bem sucedidos quando estabelecidos entre iguais? Por acaso teria Cristo, amado somente os seus seguidores? Não amou, Deus, o mundo inteiro quando enviou Jesus?

Sob a bandeira de reis e reinos muitos conquistadores subjugaram nações, dominaram povos, aniquilaram inocentes, destruíram cidades, queimaram vilarejos, arrasaram civilizações, conquistaram mundos, enfraqueceram fortes e escravizaram fracos.

Hoje, sob a bandeira religiosa, os homens querem conquistar o mundo, dominar o povo, crescer em número, construir seu próprio reino, reinventar a igreja.

Esquecem-se que a igreja tem dois mil anos de caminho alternado entre erros e acertos que constitui um amplo aprendizado numa história que não se pode apagar. No que erraram, erramos nós. No que sofreram, sofremos nós. A sua história é nossa história. A sua glória, é nossa glória.

Já erramos muito ao longo da história. Nossas conquistas não melhoraram o mundo, nossas cruzadas não cristianizaram ninguém, nossas campanhas não estabeleceram o Reino de Deus. Isso porque nos esquecemos que o Reino de Deus não é homogêneo, não é composto de uma única tribo, não fala uma única língua, não é formado unicamente de patrícios, não tem uma única cultura, não privilegia alguns, não faz distinção de cor, raça, etnia, nem mesmo credo.

O mundo não precisa ser conquistado. O mundo precisa ser transformado. E a transformação só pode ser gerada pelo amor, ou seja, quando soubermos amar sem distinção, compreendendo que as diferenças proporcionam o equilíbrio necessário para se caminhar, então nossa luz resplandecerá e todos chegarão ao entendimento da graça e compreenderão o senhorio de Cristo.

Quando Cristo orou para que fôssemos aperfeiçoados na unidade, a fim de que o mundo o conhecesse e conhecesse seu amor (João 17:23), não se referia a sermos todos iguais. Referia-se a sermos um só corpo, composto de membros diferentes que agem em movimentos diferentes, mas que não se agridem, nem se matam, não se isolam, nem excluem. Ao contrario, caminham juntos, se condoem e se ajudam. Dessa forma, e só dessa forma, manifestaremos o Reino de Deus em sua multiforme graça e todos provarão do seu terno e eterno amor.


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Texto extraído de meu livro: ESPIRITUALIDADE DINÂMICA

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ONDE TEMOS ERRADO?

Baseado em Isaías 35:1-10 e Mateus 11.2-11

Quando tratamos de escatologia (estudo das últimas coisas) sempre somos remetidos, ao menos tentados, a pensar em coisas que estão por vir e que estão fora de nossa realidade. A expressão “últimos dias” tem levado muitos a excluir do conceito escatológico os dias atuais, bem como os dias passados.

Nesse ínterim, muitas profecias referentes à primeira vinda de Cristo são conotadas, erroneamente, à sua segunda vinda, contando-se que toda transformação a ser executada nessa terra se dará por conta pessoal de Cristo, que virá, supõe-se, trazendo transformação instantânea de todo mal em benesse. O problema disso é que, com esse pensamento, a igreja se exime da responsabilidade de promover a salvação deste mundo, função que lhe é claramente atribuída pelas Escrituras Sagradas e especialmente por ninguém menos que o próprio Senhor Jesus. Muito se fala em salvação individual e o que as igrejas, em sua maioria, tem feito é “guiar” os fiéis aos crivos que lhe garantam um pedaço do céu e, claro, regalias na terra.

Com isso, a religiosidade mesquinha de nossos dias tem conduzido as pessoas a cada vez mais se preocuparem unicamente com seus próprios problemas, esquecendo-se dos problemas sociais, ambientais e culturais, isolando-se de tudo que de fato iluminaria a terra. Quando as igrejas manifestam alguma preocupação do tipo, o fazem pensando em impor sua cultura. Trata-se, na verdade, de um ato muito mais proselitista do que caridoso, pois o que fazem, fazem sem acreditar que o mundo possa ser transformado, senão por uma intervenção extraordinária, milagrosa e pessoal de Cristo, em razão de sua volta.

O que, de forma geral, tem se esquecido, ou não se quer crer, é que as transformações propostas nas páginas sagradas não dizem respeito a um futuro distante, mas sim a um passado presente; que os últimos dias descritos na Bíblia reportam-se à última aliança de Deus com os homens; e que tal aliança já se deu há dois mil anos, por meio de Cristo. Esta aliança é última porque é eterna e é a partir dela que todas as coisas são transformadas.

Deus não realizará a obra que destinou os homens a fazê-la. O tempo profetizado por Isaías, de dias sem choro, sem dor, em que cegos veriam, mudos falariam e coxos saltariam não diz respeito a uma nova aliança por vir, mas a nova aliança que veio. Quando Jesus mandou dizer a João Batista que os cegos enxergavam, os mudos falavam e até os mortos ressuscitavam, Jesus trouxe ao seu tempo presente a promessa que Isaías fizera ao futuro. Portanto, Cristo fez o futuro presente.

Para nós, não nos cabe crer que o futuro nos reserva o melhor, mas que o melhor está oculto no presente a espreita de que o revelemos. Se ainda choramos e sofremos em meio a maldade humana, possivelmente ainda não descobrimos o poder da mensagem de Cristo. Talvez tenhamos andado em direção errada, tão preocupados com os dogmas, as exegeses e as regras de hermenêutica; brigando, discutindo e criando cismas em função das concepções escatológicas, eclesiológicas e cristológicas, enquanto tudo o que Jesus ensinou foi amar. Que fruto haverá das orações por paz no mundo se nem entre os que oram existe paz? Atrevo-me a dizer que se soubéssemos amar não precisaríamos da Bíblia. Em contraponto, a mesma Bíblia que compila a maior história de amor que a humanidade pode ter conhecimento, é motivo de discórdia e desamor entre os que a divulgam. Alguma coisa está muito errada!

Segundo Isaías, no “caminho de santidade”, ímpios não entrariam, mas até tolos trilhariam por ele sem errar. Como então tantos teólogos, mestres, lideres religiosos e nós que somos tão sabidos temos errado tanto?

Se eu lhe parecer tolo, já nem me importo. Mas pela primeira vez em minha vida reescreverei a frase de Martinho Lutero que até aqui tanto defendi e a utilizei em palestras, estudos e homilias.

Frase original: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir."

Frase reescrita: Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom do amor, que me da instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir. Pois sem amor, que serventia tem as Escrituras Sagradas e todo conhecimento que ao homem possa ser dado?

Se eu estiver pecando nesse meu critério, que assim seja, pois prefiro pecar por amor, a “acertar” sem amar. “Porque o amor cobre multidão de pecados” (I Pedro 4.8b).