terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NASCER PARA DEUS

Por Julio Zamparetti

Aqueles que refletem sobre o Natal, têm em voga o conceito de que Natal, para nossos dias, é o princípio espiritual de se acolher o nascimento do Filho de Deus em seus corações, permitindo assim que a paz e esperança floresçam no campo da vida.

Todavia, apenas Ele nascer em nós não basta. Esta é uma via de mão dupla em que a reciprocidade é a ordem do dia. É dando que se recebe. Então, quem quer ter Cristo nascido em si, tem que também nascer para Cristo. Caso contrário, ninguém nasceu em ninguém.

Os Cristão têm, de forma geral, o batismo como o sacramento do nascimento para Deus. Tanto o termo sacramento, quanto nascimento, nos remete a entendermos o batismo como dom de Deus, um meio de graça pelo qual Deus se achega a nós e se faz conhecido em nosso meio. Entretanto, mesmo esta via tem sua duplicidade, requer de nós uma caminhada. Se engana feio quem acha que basta ser batizado. Pois o principal fator de validação de um sacramento está na fé e o comprometimento credal. Já dizia São João: “Se alguém diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso” (I João 2.4). Assim, a vida do cristão só é vida de cristão se reflete os princípios básicos que o batismo representa: perdão, justiça, serviço e unção.

Perdão. O aspecto da purificação dos pecados é inerente ao batismo praticado não só no cristianismo como em diversas outras culturas religiosas. Nas Escrituras Sagradas ele é encontrado nos banhos de purificação da Lei Mosaica, no batismo ministrado por João Batista e também no batismo cristão instituído por Jesus e praticado por seus discípulos.

Enquanto em outras culturas batiza-se novamente uma pessoa sempre que esta deseja o perdão dos pecados, o cristianismo tem no seu batismo uma marca indelével, dispensando assim a necessidade de repetição do rito, requerendo-se apenas arrependimento e mudança de atitude. Um único batismo faz-se previamente eficaz por toda a vida, válido a todo e qualquer momento em que o batizado, arrependido, desejar honrar seus votos.

Essa consciência de uma marca indelével do prévio perdão de Deus sempre disponível sobre todo aquele que se arrepende, também compromete o cristão a perdoar, previa e indelevelmente, a todo que lhe ofende.

Justiça. Outra característica inerente ao batismo é a justiça. Jesus Cristo não necessitava do perdão, pois era sem pecados. Este fato está claro nas palavras de João Batista: “Eu é quem devo ser batizado por ti, e vens tu a Mim”. Entretanto, era necessário que Jesus se submetesse a justiça de Deus e dos homens, para que os homens pudessem ter nEle a justificação. Não é justo, nem pode ser justificador quem a si mesmo não se submete à justiça. Por isso Ele disse: “nos convém cumprir toda justiça”.

Eis que novamente se descortina diante de nós uma via de mão dupla. Justiça não deve ser desejada aos olhos, mas sim ao paladar. Não é bem-aventurado quem quer ver justiça, mas sim quem dela tem fome e sede. Justiça não é coisa para se ver, mas para degustar. Somos justificados por Cristo, quando desejamos que seu conceito de justiça seja vivido em nós.

Serviço. O batismo de Jesus foi carregado de um significado a mais, o início de seu ministéro. Embora seja comum às pessoas considerarem ministério apenas as atividades que se referem ao serviço clerical, não podemos nos esquecer que o Sacerdócio Universal é concernente a todos os cristãos, leigos e clérigos. Todos somos chamados a ser soldados de Cristo, trabalhando segundo os dons que nos são concedidos pelo Espírito Santo.

Unção. No batismo Jesus se fez nascido da mesma água e do mesmo Espírito que nós nascemos. O mesmo Espírito que repousou sobre Ele, repousa também sobre nós A mesma voz que dizia sobre Ele: “este é meu Filho amado”, também nos chama de filhinhos queridos, pois no batismo filiamo-nos ao Pai e irmanamo-nos a Jesus, razão pela qual temos a autoridade (unção) de realizarmos sua obra em seu nome.

Mas não só temos essa autoridade, como temos também a responsabilidade. Uma vez que, pelo batismo, nossa filiação ao Pai é indelével, sempre carregaremos sobre nós o nome de Cristo, seja para a honra ou para a desonra. Como um filho não pode deixar de ser filho por um momento sequer, também não podemos deixar de carregar o nome de Cristo ainda que vivamos em pecado. Neste caso, o tesouro depositado para salvação, poderá vir a ser peso de condenação.

Conclusão

Ser batizado não requer apenas rito, requer fé; não requer apenas água, requer arrependimento todos os dias; não requer somente fórmula, requer obediência; não requer um novo nome, mas uma nova vida, um nascimento para Deus.

Bendito seja Cristo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

QUEM SEMPRE NOS SOCORRE

Por José Fernandes

“ Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?”
. (Lc 15,4)


Desde criança fomos acostumados, durante muito tempo, a ter a imagem de Deus como um Deus que castiga e que nos amedronta. Era mais fácil para nós ficarmos quietinhos nas cadeiras da catequese. Dava-nos medo. Mas, esta visão é errada, não colabora em nada para a evangelização e muito menos para nossa proximidade com Deus. Mas, mesmo assim, de vez em quando, repetimos esta idéia. Deus é quem nos acolhe, quem vem ao nosso encontro, quem toma a iniciativa. É bom estender esta imagem de Deus que busca, que se preocupa, que nos mostra a sua grande bondade e a sua imensa compaixão para conosco. O nosso dia será mais verdadeiro se pensarmos num Deus que ama e não num Deus austero, vingativo e que condena. Precisamos ter em mente que Deus é pai, é amor, Deus é misericórdia. Como o pastor foi a procura da ovelha que se dispersou do rebanho, tenhamos certeza que Deus, na sua infinita bondade, virá sempre em nosso socorro.

Pense nisso. Tenha um Feliz Ano Novo e... Fique na paz e no amor de Deus!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

LEI OU LUZ?

Baseado em João 1.1-18 e Gálatas 3.23-25,4.4-7

Enfim, passou o Natal! Passou? Possivelmente! Infelizmente!

Depois de um período de preparativos dos presentes, da ceia e de um espírito geralmente hipócrita de filantropia que só aparece nesse tempo como se pobre só tivesse fome uma vez ao ano, a vida continua como sempre foi.

Os baladeiros alienados já traçam os planos para mais uma festa de virada de ano e um ano cheio de festas, outros pensam nas férias e cada um pensa em si deixando pra trás o Natal e todo espírito filantrópico que tão penosamente o envolveu. Diga-se de passagem, a filantropia do período natalino é, na verdade, não mais que uma forma de expurgarmos o incômodo que a pobreza e a miséria nos provocam em tempos de tanto consumismo. Talvez por isso Jesus, que foi tão pobre, esteja a cada ano que passa mais fora de moda para um mundo tão consumista e uma igreja tão cheia de “prosperidade”.

Mas enfim, o Natal passou e as festas que virão não terão nenhuma conotação religiosa, pelo que poderemos nos esbaldar sem que o sofrimento alheio nos atormente. Ano novo, carnaval, verão, sol, praia, muita festa e a vida “como o diabo gosta”.

E não dá pra esquecer dos mais religiosos, que depois desse período de amor e reflexão natalina, voltarão ao habitual legalismo, usando da mesma Escritura que ensina o amor para agora condenar o infrator.

Sabe o que é pior? Para a maioria das pessoas (e dizendo isso sou otimista) Jesus não fez diferença em seu advento. Pois sendo Cristo a luz, eles permanecem na lei. Até mesmo as atitudes filantrópicas do período natalino se tornaram leis, pois não são frutos de um espírito que clama Aba Pai, pois se assim fosse, frutificariam o ano todo, amariam a todo tempo e jamais condenariam quem carece de simples atenção e sincera amizade. Assim, estes apenas trocaram a Lei de Moisés por uma nova e estranha lei a qual, por pura ignorância, atribuíram ao evangelho de Jesus, mesmo que esta nova lei contrarie o que o próprio Jesus falou.

Uma igreja que joga pedras nos homossexuais, impõe proibições e obrigações, não tolera diferenças religiosas, não respeita a cultura nativa, discrimina os pobres e se preocupa tanto com as aparências, está vivendo sob a luz de Cristo, ou apenas mudou de lei?

Infelizmente o estudo apologético de nossos dias tornou-se um mero artifício sob o qual caminha a religiosidade meramente proselitista, que mais se preocupa em mostrar estar certa do que corrigir seus próprios erros; o poder das Escrituras foi restringido a exortação dos ouvintes, mas não a correção do palestrante; é largamente usada para retirada do cisco no olho alheio, mas impotente à trave do próprio olho. Neste ínterim, religiosos e alienados baladeiros, por mais diferentes que sejam, erram igualmente, e nem de longe se parecem com Cristo.

Se Cristo de fato nasceu em nós, e se de fato vivenciamos um verdadeiro Natal, é de se esperar que alguma coisa em nós mude. Não porque temos sobre nós novas obrigações e proibições, mas porque em nós brotou a luz do Espírito de Cristo que clama Aba Pai - Paizinho Querido -. Quem assim o chama em seu coração, quer bem a todos os filhos deste mesmo Pai; se irmana aos homens, à terra e ao cosmos; não necessita de leis, pois já tem a luz; faz a Sua vontade não por que O teme, mas porque O ama.

Sob a luz de Cristo, um feliz ano novo para todos, sem exclusões.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O EQUILÍBRIO

Nada é mais difícil de compreender, na caminhada espiritual, do que o equilíbrio. Isso porque o equilíbrio consiste da simetria de movimentos opostos, ou diferentes. A verdade é que não somos habituados a conviver com as diferenças. Normalmente queremos impor nosso ritmo, nossos hábitos, nosso gosto, nosso estilo de vida sobre aqueles que nos acompanham em nossa caminhada. Comumente excluímos aqueles que agem diferente da gente sem nos percebermos que, excluindo-os, estamos comprometendo o equilíbrio do corpo todo.

Sem diferença não há equilíbrio. Os braços são iguais, porém movimentam-se em sentidos opostos, seja para caminhar, abraçar ou pegar um objeto. Assim, compreendemos que mesmo sendo diferentes, fazemos parte de um mesmo corpo; que mesmo trabalhando em sentidos opostos, cooperamos para um mesmo fim.

Um advogado e um promotor desempenham papéis diferentes, trabalham em sentidos opostos, buscam interesses diferentes, mas juntos cooperam para um bem comum: a verdade dos fatos. Imagine um julgamento conduzido unicamente pela via de acusação, ou então, um julgamento em que o processo seja montado inteiramente de mecanismos de defesa. Que justiça poderia se esperar disso?

Essa é a razão pela qual o mundo cambaleia e as religiões manquejam. Os mecanismos de exclusão e isolamento provocam uma ferida em nossa sociedade, um apartait em nossa religiosidade.

O problema é que nosso senso de justiça e equilíbrio estão centrados em nosso ego, e queremos que todas as demais coisas girem em torno de nós. Nos esquecemos que o posto de Sol da Justiça já fora ocupado e pertence a Cristo. Neste sistema Cristo-solar sempre teremos astros semelhantes que estarão em órbitas diferentes, mas que são igualmente regidos pelo mesmo Astro-Rei. Portanto, na esfera espiritual, havemos de entender que ser regido por Cristo não significa exercer a mesma religiosidade, nem mesmo pensar uníssono, entre diferentes ou semelhantes cristãos.

De que outra forma seríamos exercitados em amor fraternal? A unidade do cristianismo verdadeiro e autêntico não se baseia nas semelhanças, mas sim no amor. Afinal, o amor encobre (não remove) multidão de diferenças, ou erros.

O sucesso de nossos relacionamentos não consiste em sermos parecidos. Os casamentos mais bem sucedidos não são aqueles em que os cônjuges mais se parecem um com o outro, seja intelectual, moral ou fisicamente. Nem são aqueles que removem as diferenças anulando-se ou anulando o outro. Os relacionamentos mais bem sucedidos são aqueles em que as diferenças (que, acreditem, sempre existem e persistem) submergem ante o amor.

Quero, neste livro, fazer um desafio semelhante ao que fiz em ‘O Cristianismo que os Cristãos Rejeitam’: Que tal alicerçar nossos relacionamentos no amor, e respeitarmos as diferenças? Que tal amar o hinduísta, o budista, o umbandista, o católico, o evangélico, o espírita, o ateu ou qualquer outro que não professe nossa mesma fé, mesmo sabendo que ele jamais a professará? Ou será que estamos destinados a morrer condicionando os relacionamentos à falsa sensação de que serão bem sucedidos quando estabelecidos entre iguais? Por acaso teria Cristo, amado somente os seus seguidores? Não amou, Deus, o mundo inteiro quando enviou Jesus?

Sob a bandeira de reis e reinos muitos conquistadores subjugaram nações, dominaram povos, aniquilaram inocentes, destruíram cidades, queimaram vilarejos, arrasaram civilizações, conquistaram mundos, enfraqueceram fortes e escravizaram fracos.

Hoje, sob a bandeira religiosa, os homens querem conquistar o mundo, dominar o povo, crescer em número, construir seu próprio reino, reinventar a igreja.

Esquecem-se que a igreja tem dois mil anos de caminho alternado entre erros e acertos que constitui um amplo aprendizado numa história que não se pode apagar. No que erraram, erramos nós. No que sofreram, sofremos nós. A sua história é nossa história. A sua glória, é nossa glória.

Já erramos muito ao longo da história. Nossas conquistas não melhoraram o mundo, nossas cruzadas não cristianizaram ninguém, nossas campanhas não estabeleceram o Reino de Deus. Isso porque nos esquecemos que o Reino de Deus não é homogêneo, não é composto de uma única tribo, não fala uma única língua, não é formado unicamente de patrícios, não tem uma única cultura, não privilegia alguns, não faz distinção de cor, raça, etnia, nem mesmo credo.

O mundo não precisa ser conquistado. O mundo precisa ser transformado. E a transformação só pode ser gerada pelo amor, ou seja, quando soubermos amar sem distinção, compreendendo que as diferenças proporcionam o equilíbrio necessário para se caminhar, então nossa luz resplandecerá e todos chegarão ao entendimento da graça e compreenderão o senhorio de Cristo.

Quando Cristo orou para que fôssemos aperfeiçoados na unidade, a fim de que o mundo o conhecesse e conhecesse seu amor (João 17:23), não se referia a sermos todos iguais. Referia-se a sermos um só corpo, composto de membros diferentes que agem em movimentos diferentes, mas que não se agridem, nem se matam, não se isolam, nem excluem. Ao contrario, caminham juntos, se condoem e se ajudam. Dessa forma, e só dessa forma, manifestaremos o Reino de Deus em sua multiforme graça e todos provarão do seu terno e eterno amor.


*********
Texto extraído de meu livro: ESPIRITUALIDADE DINÂMICA

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ONDE TEMOS ERRADO?

Baseado em Isaías 35:1-10 e Mateus 11.2-11

Quando tratamos de escatologia (estudo das últimas coisas) sempre somos remetidos, ao menos tentados, a pensar em coisas que estão por vir e que estão fora de nossa realidade. A expressão “últimos dias” tem levado muitos a excluir do conceito escatológico os dias atuais, bem como os dias passados.

Nesse ínterim, muitas profecias referentes à primeira vinda de Cristo são conotadas, erroneamente, à sua segunda vinda, contando-se que toda transformação a ser executada nessa terra se dará por conta pessoal de Cristo, que virá, supõe-se, trazendo transformação instantânea de todo mal em benesse. O problema disso é que, com esse pensamento, a igreja se exime da responsabilidade de promover a salvação deste mundo, função que lhe é claramente atribuída pelas Escrituras Sagradas e especialmente por ninguém menos que o próprio Senhor Jesus. Muito se fala em salvação individual e o que as igrejas, em sua maioria, tem feito é “guiar” os fiéis aos crivos que lhe garantam um pedaço do céu e, claro, regalias na terra.

Com isso, a religiosidade mesquinha de nossos dias tem conduzido as pessoas a cada vez mais se preocuparem unicamente com seus próprios problemas, esquecendo-se dos problemas sociais, ambientais e culturais, isolando-se de tudo que de fato iluminaria a terra. Quando as igrejas manifestam alguma preocupação do tipo, o fazem pensando em impor sua cultura. Trata-se, na verdade, de um ato muito mais proselitista do que caridoso, pois o que fazem, fazem sem acreditar que o mundo possa ser transformado, senão por uma intervenção extraordinária, milagrosa e pessoal de Cristo, em razão de sua volta.

O que, de forma geral, tem se esquecido, ou não se quer crer, é que as transformações propostas nas páginas sagradas não dizem respeito a um futuro distante, mas sim a um passado presente; que os últimos dias descritos na Bíblia reportam-se à última aliança de Deus com os homens; e que tal aliança já se deu há dois mil anos, por meio de Cristo. Esta aliança é última porque é eterna e é a partir dela que todas as coisas são transformadas.

Deus não realizará a obra que destinou os homens a fazê-la. O tempo profetizado por Isaías, de dias sem choro, sem dor, em que cegos veriam, mudos falariam e coxos saltariam não diz respeito a uma nova aliança por vir, mas a nova aliança que veio. Quando Jesus mandou dizer a João Batista que os cegos enxergavam, os mudos falavam e até os mortos ressuscitavam, Jesus trouxe ao seu tempo presente a promessa que Isaías fizera ao futuro. Portanto, Cristo fez o futuro presente.

Para nós, não nos cabe crer que o futuro nos reserva o melhor, mas que o melhor está oculto no presente a espreita de que o revelemos. Se ainda choramos e sofremos em meio a maldade humana, possivelmente ainda não descobrimos o poder da mensagem de Cristo. Talvez tenhamos andado em direção errada, tão preocupados com os dogmas, as exegeses e as regras de hermenêutica; brigando, discutindo e criando cismas em função das concepções escatológicas, eclesiológicas e cristológicas, enquanto tudo o que Jesus ensinou foi amar. Que fruto haverá das orações por paz no mundo se nem entre os que oram existe paz? Atrevo-me a dizer que se soubéssemos amar não precisaríamos da Bíblia. Em contraponto, a mesma Bíblia que compila a maior história de amor que a humanidade pode ter conhecimento, é motivo de discórdia e desamor entre os que a divulgam. Alguma coisa está muito errada!

Segundo Isaías, no “caminho de santidade”, ímpios não entrariam, mas até tolos trilhariam por ele sem errar. Como então tantos teólogos, mestres, lideres religiosos e nós que somos tão sabidos temos errado tanto?

Se eu lhe parecer tolo, já nem me importo. Mas pela primeira vez em minha vida reescreverei a frase de Martinho Lutero que até aqui tanto defendi e a utilizei em palestras, estudos e homilias.

Frase original: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir."

Frase reescrita: Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom do amor, que me da instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir. Pois sem amor, que serventia tem as Escrituras Sagradas e todo conhecimento que ao homem possa ser dado?

Se eu estiver pecando nesse meu critério, que assim seja, pois prefiro pecar por amor, a “acertar” sem amar. “Porque o amor cobre multidão de pecados” (I Pedro 4.8b).

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

SACRIFÍCIO VIVO

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12:1).

Os Sacrifícios de sangue remontam as mais antigas civilizações. Muito antes dos hebreus, civilizações antigas sacrificavam animais e até crianças com a intenção de aplacar a ira dos deuses.

Quando as coisas não iam bem, a colheita era fraca, a caça escassa, a chuva era pouca, os terremotos intensos, a guerra iminente, ou por ocasiões de pestes e moléstia, sacrificavam aos deuses a fim de obter misericórdia e ajuda.

Era comum ter rituais, animais e deuses específicos para os sacrifícios, conforme o tipo de mal a ser vencido. O sacrifício de crianças era a maior oferta possível a se dar a um deus. Reservado, portanto, aos deuses mais poderosos diante dos problemas mais sérios. Se o sacrifício de uma criança ou de uma moça virgem (por causa da pureza) não aplacasse a ira dos deuses e o tormento não cessasse, não haveria mais o que fazer, não havia oferta mais agradável aos deuses.

Assim, o costume adentrou à civilização fenícia, primos distantes dos hebreus, e mais tarde até os hebreus cometeram o mesmo sacrilégio (vd. Jeremias 7:31).

Não fica difícil entender porque Abraão não relutou ao pedido que Deus lhe fez para que sacrificasse seu filho Isaque. Afinal, essa prática era comum e recente no histórico de sua linhagem. Não obstante, era um orgulho para um pai entregar seu filho ou filha para ser sacrificado aos deuses. Quanto maior seria, o orgulho, sacrificar ao Deus Eterno!

Não quero desmerecer Abraão, mas qual pai em são juízo, nos dias de hoje, faria o mesmo? Eu, que não posso ser hipócrita, confesso: jamais faria isso! No entanto, se eu vivesse naquela época, certamente o faria com o maior orgulho! Afinal, para a época, ser escolhido para tal honra era sinal de pureza e dignidade.

Não se pode interpretar a Bíblia sem avaliar o contexto histórico, social e cultural da época em que foi escrita.

Sei que muitos não gostarão desta maneira de encarar o sacrifício de Abraão, afinal, este é o texto predileto de muitos líderes religiosos para induzirem suas pobres ovelhas a “sacrificarem” na salva ou gazofilácio o “seu Isaque”, isto é, a cédula de maior valor que estiver na carteira ou o bem que mais ama, seja sua casa ou carro.

O fato é que Deus jamais quis qualquer sacrifício. O pedido feito a Abraão não serviu para Deus saber que Abraão o amava, pois Deus já sabia disto antes mesmo que o próprio Abraão o soubesse. Na verdade, o episódio serviu para mostrar a Abraão que Deus sabia de seu amor e isso era tudo que Deus queria dele. Amor sim, sacrifício não. Deus não se agrada de sacrifícios e como prova disto proveu um cordeiro, prefigurando Jesus, o cordeiro de Deus, que faria o sacrifício único e perfeito de uma vez por todas afim de cessar o sacrifício.

Quanto a Moisés, Deus jamais ordenou algum sacrifício. O que Moisés fez foi regulamentar aquilo que já existia. Para aquele povo, só os sacrifícios poderiam favorecê-los diante de Deus. Era assim que criam. Era-lhes necessário ser feito um sacrifício maior do que o que eles podiam fazer, para que compreendessem o favor de Deus.

Então, Moisés destituiu os sacrifícios humanos e instituiu sacrifícios que prefigurassem Cristo, o Filho de Deus. Cada sacrifício de cordeiro, ou novilho, ou pomba tornou-se uma manifestação de fé de que o Filho de Deus seria sacrificado em favor dos homens para expiar os pecados e satisfazer a justiça divina. Desde então, o povo que cria na vinda do Messias não mais sacrificaria seus filhos, pois nenhum homem teria um filho que fosse mais puro que o Filho de Deus para ser sacrificado.

Como previa o profeta Daniel, Jesus faria cessar o sacrifício. Foi Ele último sacrifício de sangue oferecido a Deus. Nenhum outro corpo seria oferecido a Deus com morte, mas somente com vida. Não haveria mais sacrifícios mortos, mas somente sacrifícios vivos. O auge do culto a Deus não seria mais a morte, mas sim a vida e o raciocínio, constituindo um culto racional.

Há, ainda hoje, um sério resquício “primitivo” que nos faz pensar que só se alcança o favor de Deus por meio de sacrifícios. Pensa-se que Deus só manifesta do seu amor a quem merece, esquecendo-se que o amor de Deus é incondicional e quem não o merece é quem mais precisa. Pensa-se que se pode comprar o favor de Deus com “ofertas de sacrifício” como se fosse possível oferecer a Deus algo que Ele não seja dono. Pensa-se em dar o melhor sacrifício, como se o melhor já não tivesse sido ofertado na cruz do Calvário.

Jejuns, campanhas, velas, procissões, têm sido usados como meio de auto-aflição e devoção para comover o coração de Deus e mover as suas mãos. Como se Deus se agradasse disso! Como se o sacrifício de Jesus fosse insuficiente!

O que Deus espera de nós é um sacrifício vivo, racional, de quem compreende a mensagem de Cristo e faz dela seu viver.

“Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?” (Isaias 58:6-7 - NTLH).

***
Mensagem extraída do livro 'O Cristianismo que os Cristãos rejeitam' de autoria do mesmo autor deste blog.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

NATAL, PRA QUEM?

Iniciamos mais um período do advento e uma reflexão se faz necessária: sendo o advento um período de preparação para o Natal, que Natal estamos preparando?

Os pais começam a pensar na Ceia de Natal e a festas de ano novo, as crianças pensam nos presentes, o comércio pensa nos lucros, os empregados no décimo terceiro salário, algumas famílias começam a se preparar para as viagens e outras já começaram a limpeza da casa na praia. Enfim, o roteiro começa em Dezembro e só terá fim após o carnaval, quando tudo, ao que se supõe, volta ao normal.

Seja em período normal ou festivo, a verdade é que os planos de nobres e plebeus estão centrados no bem estar pessoal. Paz, saúde e prosperidade é tudo o que se espera, ficando de lado a partilha, a solidariedade e amor ao próximo. O brilho que estampa a tela da TV esconde a realidade dos pobres e miseráveis, a luz que irradia dos fogos de artifício nos faz pensar que está tudo bem, que todos são felizes, e o espírito do qual somos envolvidos anestesia a nossa mente fazendo-nos esquecer o que é o Natal.

Nesses dias o mundo parece um imenso salão onde se monta uma grandiosa festa de aniversário na qual o aniversariante não é convidado. Tudo porque, como em qualquer outra festa, ninguém quer pensar em quem sofre. Afinal, se pressupõe que as festas sirvam justamente para fazer esquecer os problemas. Eis aí o verdadeiro problema! Natal sem a inclusão do pobre, do preso, do que não tem o que comer e vestir, nem lugar para dormir, é um Natal que exclui Jesus Cristo, o aniversariante, e portanto, não é Natal.

Diferente de outras festas, o verdadeiro Natal traz reflexão. Daí a importância do período litúrgico que estamos vivendo. Para quem tem fartura, o Natal é a festa do encontro com Cristo que vem na pessoa do faminto, enquanto para quem tem fome, o Natal é a festa do encontro com Cristo que vem na Boa Nova das mãos que se estendem para lhe ajudar.

Observando isso e vivendo assim todos dias, não somente descobriremos a felicidade do Natal ao findar do ano, mas felizes seremos por toda vida.

Para um feliz natal, faça boas reflexões durante o período do advento e boas ações durante o ano todo.

Ora vem Senhor Jesus!