Os Sacrifícios de sangue remontam as mais antigas civilizações. Muito antes dos hebreus, civilizações antigas sacrificavam animais e até crianças com a intenção de aplacar a ira dos deuses.Quando as coisas não iam bem, a colheita era fraca, a caça escassa, a chuva era pouca, os terremotos intensos, a guerra iminente, ou por ocasiões de pestes e moléstia, sacrificavam aos deuses a fim de obter misericórdia e ajuda.
Era comum ter rituais, animais e deuses específicos para os sacrifícios, conforme o tipo de mal a ser vencido. O sacrifício de crianças era a maior oferta possível a se dar a um deus. Reservado, portanto, aos deuses mais poderosos diante dos problemas mais sérios. Se o sacrifício de uma criança ou de uma moça virgem (por causa da pureza) não aplacasse a ira dos deuses e o tormento não cessasse, não haveria mais o que fazer, não havia oferta mais agradável aos deuses.
Assim, o costume adentrou à civilização fenícia, primos distantes dos hebreus, e mais tarde até os hebreus cometeram o mesmo sacrilégio (vd. Jeremias 7:31).
Não fica difícil entender porque Abraão não relutou ao pedido que Deus lhe fez para que sacrificasse seu filho Isaque. Afinal, essa prática era comum e recente no histórico de sua linhagem. Não obstante, era um orgulho para um pai entregar seu filho ou filha para ser sacrificado aos deuses. Quanto maior seria, o orgulho, sacrificar ao Deus Eterno!
Não quero desmerecer Abraão, mas qual pai em são juízo, nos dias de hoje, faria o mesmo? Eu, que não posso ser hipócrita, confesso: jamais faria isso! No entanto, se eu vivesse naquela época, certamente o faria com o maior orgulho! Afinal, para a época, ser escolhido para tal honra era sinal de pureza e dignidade.
Não se pode interpretar a Bíblia sem avaliar o contexto histórico, social e cultural da época em que foi escrita.
Sei que muitos não gostarão desta maneira de encarar o sacrifício de Abraão, afinal, este é o texto predileto de muitos líderes religiosos para induzirem suas pobres ovelhas a “sacrificarem” na salva ou gazofilácio o “seu Isaque”, isto é, a cédula de maior valor que estiver na carteira ou o bem que mais ama, seja sua casa ou carro.
O fato é que Deus jamais quis qualquer sacrifício. O pedido feito a Abraão não serviu para Deus saber que Abraão o amava, pois Deus já sabia disto antes mesmo que o próprio Abraão o soubesse. Na verdade, o episódio serviu para mostrar a Abraão que Deus sabia de seu amor e isso era tudo que Deus queria dele. Amor sim, sacrifício não. Deus não se agrada de sacrifícios e como prova disto proveu um cordeiro, prefigurando Jesus, o cordeiro de Deus, que faria o sacrifício único e perfeito de uma vez por todas afim de cessar o sacrifício.
Quanto a Moisés, Deus jamais ordenou algum sacrifício. O que Moisés fez foi regulamentar aquilo que já existia. Para aquele povo, só os sacrifícios poderiam favorecê-los diante de Deus. Era assim que criam. Era-lhes necessário ser feito um sacrifício maior do que o que eles podiam fazer, para que compreendessem o favor de Deus.
Então, Moisés destituiu os sacrifícios humanos e instituiu sacrifícios que prefigurassem Cristo, o Filho de Deus. Cada sacrifício de cordeiro, ou novilho, ou pomba tornou-se uma manifestação de fé de que o Filho de Deus seria sacrificado em favor dos homens para expiar os pecados e satisfazer a justiça divina. Desde então, o povo que cria na vinda do Messias não mais sacrificaria seus filhos, pois nenhum homem teria um filho que fosse mais puro que o Filho de Deus para ser sacrificado.
Como previa o profeta Daniel, Jesus faria cessar o sacrifício. Foi Ele último sacrifício de sangue oferecido a Deus. Nenhum outro corpo seria oferecido a Deus com morte, mas somente com vida. Não haveria mais sacrifícios mortos, mas somente sacrifícios vivos. O auge do culto a Deus não seria mais a morte, mas sim a vida e o raciocínio, constituindo um culto racional.
Há, ainda hoje, um sério resquício “primitivo” que nos faz pensar que só se alcança o favor de Deus por meio de sacrifícios. Pensa-se que Deus só manifesta do seu amor a quem merece, esquecendo-se que o amor de Deus é incondicional e quem não o merece é quem mais precisa. Pensa-se que se pode comprar o favor de Deus com “ofertas de sacrifício” como se fosse possível oferecer a Deus algo que Ele não seja dono. Pensa-se em dar o melhor sacrifício, como se o melhor já não tivesse sido ofertado na cruz do Calvário.
Jejuns, campanhas, velas, procissões, têm sido usados como meio de auto-aflição e devoção para comover o coração de Deus e mover as suas mãos. Como se Deus se agradasse disso! Como se o sacrifício de Jesus fosse insuficiente!
O que Deus espera de nós é um sacrifício vivo, racional, de quem compreende a mensagem de Cristo e faz dela seu viver.
“Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?” (Isaias 58:6-7 - NTLH).
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Mensagem extraída do livro 'O Cristianismo que os Cristãos rejeitam' de autoria do mesmo autor deste blog.




