segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA

É inegável a tensão existente entre aqueles que defendem uma deificação de Maria e aqueles que por não aceitarem essa postura acabam incorrendo no erro de se colocarem no outro extremo, fazendo pouco caso da mãe do Salvador, ou mesmo demonstrando desprezo a ela.

Não queremos incorrer nem em um erro, nem em outro. Diz o provérbio latino: “Virtus in médio” (A virtude está no meio). Acreditamos que uma teologia equilibrada estará sempre mais próxima a verdade.

O papel de Maria no mistério da encarnação do Messias, não se deu em lhe transmitir a vida sem pecado, tão pouco a deidade. Estes atributos Ele herdou do Pai, que é Deus. Para Maria cabia-lhe o papel de ser mulher, transmitindo a Jesus Cristo o atributo de ser humano. A esse respeito disse São Paulo: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher”.

Assim, o que podemos aprender das Escrituras, especificamente do cântico de Maria (Lucas 1.46-55), é que Maria não é bem-aventurada por ser salvadora, mas sim por ter um Salvador (v.47); não é bem-aventurada por ter-se engrandecido, mas sim por engrandecer ao Senhor (v.46); não é bem-aventurada por ser Senhora, mas por ser serva (v.48); nem é bem-aventurada por seus feitos, mas sim porque por ela o Poderoso fez grandes coisas (v. 49).

Alguém pode pensar que com isso estou diminuindo a virtude de Maria. De fato, eu estaria diminuindo o conceito da virtude mariana, se ao homem, ou mesmo a Maria, fosse possível maior virtude do que ser usado(a) por Deus.

Para o conceito humano, espera-se que os grandes feitos sejam precedidos pela virtude pessoal, de forma que a bem-aventurança acaba sendo arrolada ao mérito próprio, à capacidade cognitiva, à habilidade dialética, ou a força física. Entretanto, na visão cristã, todo mérito é de Cristo que, pelo seu Espírito, opera, nos seus servos, segundo o Seu querer. É a partir da força do Senhor dos exércitos que um pequeno garoto vence um gigante, 300 vencem milhares, um só homem com uma queixada derruba um exército, poderosos são derribados do seu trono e humildes são exaltados; famintos são fartos de bens e ricos são despedidos vazios; uma mulher simples, frágil, pobre, habitante de uma sociedade excludente justamente dos pobres, dos fracos e das mulheres, traz ao mundo o Salvador da humanidade.

Uma grande lição que aprendemos da Bem-Aventurada é que nós, mesmo sendo pecadores, fracos e insignificantes, também podemos ser bem-aventurados se bem-aprendermos-com-Maria, nos dispondo a ação de Deus, dizendo a Ele algo semelhante ao que ela disse: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”. Para isso não precisamos ser deuses ou super-homens. Precisamos tão somente ser humanos.

Do atributo da virgem enaltecemos o nascimento virginal do Filho de Deus, o mistério intelectualmente inexplicável, humanamente inconcebível, e que somente é recebido pela fé. Pois unicamente com fé se discerne o que é da fé. Como dizia o Apóstolo São Paulo: “Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais” (1 Coríntios 2:13). A fé neste mistério carrega em si o benfazejo de uma vida bem-aventurada.

Seja, Maria, considerada bem-aventurada também nessa geração. E aprenda, essa geração, a ser bem-aventurada tal qual a mãe do Salvador.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MOISÉS, JESUS E NÓS

Diz a Bíblia que enquanto Moisés ouvia a voz de Deus seu rosto se iluminava (vd.Ex.34:29-35). Essa experiência foi peculiar, de forma que não se tem registro de que uma experiência semelhante tenha ocorrido com outra pessoa, nem há razão para que alguém queira ter essa experiência da mesma forma como se deu a Moisés.

Também diz que Jesus se transfigurou (vd.Lc.9:28-36), ou seja, transportou-se da figura física para a figura visionária, integrando-se a visão que seus discípulos tiveram de Moisés e Elias, que figuravam a Lei e os profetas que, segundo o próprio Cristo, testificavam dEle.

Não se tratava de contato entre vivos e mortos, como interpretam erroneamente alguns, mas sim da manifestação da glória de Deus testificando, aos discípulos, que Cristo era aquele de quem falava a Lei (figurada em Moisés) e os profetas (figurados em Elias). Portanto, a visão denotava o relacionamento íntimo de Cristo com a Palavra Profética. Em meio a esse relacionamento, suas veste resplandeciam.

Assim como a experiência de Moisés não se repetiu jamais a outros, muito menos a transfiguração será repetida. Todavia, a realidade da comunicação com o altíssimo e o resplandecer da luz divina sobre todos aqueles que interiorizam a Palavra Profética, é o ensinamento que essas passagens bíblicas nos fornecem.

O exercício da oração e o contato com a voz de Deus, que se dá através das Santas Escrituras, da consciência e da razão, nos iluminam e nos fazem resplandecer, não da mesma forma relatada a respeito de Cristo e Moisés, mas da forma como o Espírito de Deus opera em nós, iluminando nosso âmago e resplandecendo na caridade em nós.

De fato, no exercício da comunhão com Deus somos transportados dos limites da figura humana, para a ilimitada ação da essência divina. Não obstante, somos transformados à medida que nos aprofundamos no conhecimento de Deus e nos entregamos integralmente ao núcleo de Seu amor.

O fruto da verdadeira comunhão com Deus não se dá em experiências de êxtase emocional, gritarias ou fanatismo religioso. Embora a comunhão com Deus nunca deixe de ser emocionante, seu fruto se dá no serviço a que somos impulsionados, pelo Espírito de Deus, a oferecer ao próprio Deus, na pessoa do próximo, promovendo assim um mundo melhor, mais justo e menos desigual, sem jamais desfalecermos da esperança.

“Assim temos mais confiança ainda na mensagem anunciada pelos profetas. Vocês fazem bem em prestar atenção nessa mensagem. Pois ela é como uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia amanheça e a luz da estrela da manhã brilhe no coração de vocês” (II Pd.1:19).

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O QUE TENS(?), PRA QUEM SERÁ?

No episódio em que Jesus conta a parábola do homem rico (Lc.12:13-21), o texto nos traz, ao menos, três pontos importantes de reflexão:

Já de início, o texto aborda um problema de conflito familiar causado pela avareza de dois irmãos. Ao que parece, não é de hoje que as pessoas rompem suas amizades e até laços familiares por conta de interesses pessoais onde a lei da vantagem é posta acima de qualquer valor. Se já não bastasse, como foi no episódio descrito, ainda hoje as pessoas recorrem a Jesus, ou religião, em prol de sua avareza e detrimento do próprio irmão. Fazem de Deus, advogado e juiz de suas causas injustas, principiadas num desejo egoísta capaz de sobrepor e ferir o bem comum, o direito do semelhante, a liberdade do diferente. Como poderemos denominar isso, senão cegueira espiritual? Certamente a sede de dinheiro, poder e fama anestesia os sentidos do ser humano, fazendo-o incapaz de enxergar além do seu próprio nariz, amar além de seu próprio umbigo.

Em segundo lugar, aborda o problema da idolatria empregada ao “deus dinheiro”. Não por acaso, São Paulo afirma que a avareza é idolatria (vd.Cl.3:5). O problema de se ter o dinheiro como um deus é que as perspectivas de cada um deles (dinheiro e deus) são incompatíveis, pois o conceito de divindade é de um ser eterno, coisa que o dinheiro jamais será. Você já ouviu dizer que “dinheiro na mão é vendaval”? É por isso que o apóstolo Paulo advertiu: “buscai as coisas lá do alto” (Cl.1:1). Quem não fizer assim, poderá até terminar seus dias deixando os celeiros fartos, mas não desfrutará deles, nem terá frutos a colher na eternidade, pois “assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc.12:21). Este não tem herança do Pai. Portanto, sirvamos ao Deus único e verdadeiro e façamos de nosso legado aquilo que o “vendaval” não pode levar: o amor, a fidelidade, a compaixão, a honestidade, a paz, a justiça e coisas semelhantes a essas aos quais tempo, dinheiro e vida são sempre bem empregados.

Por fim, o terceiro problema se reporta àqueles a quem deixaremos nosso legado (espiritual ou financeiro). Não basta deixarmos um bom legado, precisamos de bons herdeiros. Erra-se quando todo esforço é empregado no trabalho, na aquisição de bens materiais e por essa causa se sacrifica o tempo com os filhos, o laser da família, o convívio dos amigos e o exercício da espiritualidade; ou quando se cuida tanto da saúde espiritual de “todo mundo” e se esquece da própria casa. O sábio rei Salomão se deu conta disso, pelo que disse a respeito de quem assumiria seu lugar: “Quem sabe se ele será um sábio ou um idiota?” (Ec.2:17). O que sabemos é que bons herdeiros é a melhor herança. Precisamos de um equilíbrio entre a dedicação na construção do legado e a aplicação na formação dos sucessores, para que um não ponha o outro a perder.

Pense nisso.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CAMISINHAS NAS ESCOLAS

Mais alguns milhões de reais serão tirados da saúde pública, que já anda a beira da morte, para disponibilizar máquinas de camisinha nos pátios das escolas, a fim de que cada aluno tenha até 20 camisinhas disponíveis por mês. Ou seja, uma transa por dia letivo!!!! Contando que o(s) parceiro(s) também tem a mesma cota, este número passa para duas transas diárias. Será que sobrará tempo pra estudar?

Mas o que mais me deixa intrigado é o seguinte: Onde os alunos usarão o preservativo? Em sala de aula ou no banheiro? O governo também disponibilizará quartos com camas? Afinal, o sistema de educação já é uma zona, mesmo!

Onde isso vai dar, todo mundo já sabe: mais promiscuidade, menos valores cristãos, desestruturação familiar, etc. Enquanto nós não nos importamos com isso, meia dúzia de espertalhões embolsa milhões de nossa pobre saúde. E ainda há trouxas que aplaudem essa vergonha, fazendo um discurso de modernismo!

Ademais, depois que aprovarem essa nojeira, não queiram dar suspensão para os alunos flagrados fazendo sexo nas dependências da escola. Quem dá a comida também dispõe a mesa.

Depois não digam que eu não avisei.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

E se não houver demônios?

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (Atos 1:8).

A razão pela qual o Espírito Santo foi derramado sobre a igreja é para que esta fosse testemunha de Cristo sobre toda a terra, sendo Ele próprio a força propulsora da igreja. Logo, nossas motivações deveriam girar em torno da comunhão com o Espírito de Deus. Entretanto, o que se observa desde os tempos remotos até hoje, é que a fé tem sido sustentada não pelo conhecimento da Palavra de Deus, mas sim e simplesmente pela crença no diabo. São tantos os dogmas surgidos de superstições, fábulas, contos e lendas, infiltrados com tanta incisão em nossas igrejas, que já tomaram o posto da infalibilidade, sendo pregados e ensinados como se a Bíblia assim dissesse. Tudo porque o diabo tem sido tão ou mais necessário para a fé dos crentes do que o próprio Deus Eterno. Então eu pergunto: Onde ficariam as pessoas que lotam os acentos das catedrais, se ficasse provado que o diabo, satanás ou os demônios não existem? Provavelmente, nem os acentos ficariam mais lá. Ei, ei, ei! – diria o pregador – Sentem-se, por favor! O Espírito de Deus está aqui! É por Ele que estamos aqui, não é? Sua Palavra é viva! É dela que nos alimentamos espiritualmente, certo?

Será mesmo o Espírito Santo a força propulsora desta “igreja”, ou será o medo do diabo? As igrejas tem se enchido por ocasião do amor a Deus, ou pela simples fascinação pelo “sobrenatural”, “mundo paralelo” e outras superstições que nos remetem a um dualismo meramente besuntado de evangelho? Podemos dizer: ah, se não fora o Senhor? Ou deveríamos assumir: ah, se não fora o diabo? Sim, porque se não houvesse diabo, com certeza, o número de crentes seria muito menor do que o registrado em nossos atuais róis de membros. Então será que o diabo se tornou bonzinho, se converteu, para encher as igrejas? Não, o poder do engano continua tão mal quanto sempre foi, só que agora enche as igrejas de pessoas vazias que expulsam demônios, falam novas línguas, profetizam, operam maravilhas, sem, contudo, conhecerem ou serem conhecidos pelo Senhor. Pois se conhecessem a Deus, certamente, se desviariam. Afinal, o deus a que se converteram não é o Deus verdadeiro, mas sim um deus (com letra minúscula, mesmo) condicionado aos preceitos e preconceitos, sujeitos às ordens e desordens de quem se diz “servo de Deus”. Isso porque a qualificação do verbo servir restringe-se à concupiscência carnal-satânica da sede de poder. Digo isto, porque a maioria dos que o “servem” não tem vocação ministerial alguma, apenas possuem o puro afã de se verem poderosos aos próprios olhos, “exorcistas infalíveis”, verdadeiros “super-homens” que tomam para si a glória daquele que não divide sua glória com ninguém. Daí, posso dizer que se o diabo não existisse já não seriam apenas os acentos das catedrais que estariam vazios, provavelmente, seus púlpitos também.

O mais interessante nisso tudo é que aqueles que se chamam pelo nome de Cristo, ditos como comissionados a evangelizar, fazem exatamente o oposto a isso. Vale lembrar que evangelizar significa anunciar as boas novas ou cristianizar, pois Cristo é a boa-nova a ser anunciada. Ele se fez homem, assim humanizou os céus, afim de que nós cristianizássemos a terra. Mas, ao invés de cristianizar, a igreja tem, cada vez mais, “demonizado” a tudo quanto pode, ainda que não devesse. Demonizam a enfermidade que o próprio Jesus disse que era pra glória de Deus; demonizam tudo o que não conseguem explicar (afinal, demonizar é mais fácil do que estudar a causa); demonizam as decisões erradas (é mais fácil pôr a culpa no diabo); demonizam as ganjas das crianças (sai delas... em nome da “Super-Nanny”). Por fim, demonizam o bom vinho, a boa música, o prazer da mulher amada. Quando pensam nisso, até mesmo Deus é demonizado e repreendido “em nome de Jesus” por aqueles que não conhecem a revelação de Deus contida em Eclesiastes 9:7-9 – “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz”.

Deixo aqui duas perguntas: Como o seu deus tem que ser e o que Ele tem que fazer, pra que você o tenha por Deus? E se não houver demônios, onde fica a tua fé?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

PARA VER DEUS

“Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, prostrou-se em terra e disse: Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo; traga-se um pouco de água, lavai os pés e repousai debaixo desta árvore; trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, visto que chegastes até vosso servo; depois, seguireis avante. Responderam: Faze como disseste” (Gênesis 18:1-5.

Já dizia Santo Agostinho que anjo não é substância, anjo é encargo. Ou seja, anjo é alguém enviado por Deus, encarregado de uma missão relacionada a alguém ou a alguma causa. Nesse contexto, anjos podem ser de substância humana ou divina. Há quem acredite que os três homens citados no texto acima fossem anjos de substância divina. Entretanto, as necessidades que estes tinham em relação à comida, bebida e limpeza dos pés, denotam a humanidade deles. Que fossem anjos, eu não discordo, pois Deus os havia enviado. Quanto à substância desses, a Bíblia é claríssima: eram “três homens”, eram de carne e osso mesmo.

O fato do aparecimento desses homens ser relatado como um aparecimento do Senhor a Abraão, não deveria nos causar estranheza. Tal estranheza só nos ocorre porque, ao contrário de Abraão, não sabemos reconhecer a presença de Deus na pessoa do próximo. Achamos possível a comunhão com o Divino sem comungarmos com a natureza, as pessoas e a terra. Quanto engano!

Servir ao próximo é servir a Cristo. Foi o que Ele próprio garantiu. Por isso, a espiritualidade não pode ser entendida apenas no âmbito da contemplação, pois a verdadeira contemplação conduz ao serviço. Isto é, ninguém que realmente deseje contemplar a Cristo, deixará de contemplá-lo na pessoa do próximo; e ninguém que contemple Cristo no próximo, deixará de servi-lo como se a Cristo o fizesse.

Quando vemos Abraão servindo a homens com a absoluta convicção de que a Deus estava servindo, algo nos parece errado. Isso porque errados estamos nós, que tratamos nossos semelhantes com a mais cruel discriminação e preconceito.

Aquele que disse que fazer ao pobre, ao cego, ao nu, ao forasteiro, ao faminto e sedento, é o mesmo que disse que quem o visse veria o Pai. Assim, se queremos ver Deus, precisamos deixar de olhar para cima e olhar para os guetos, para os prostíbulos, para as sarjetas, para as favelas, para os excluídos. Dar-lhes água, pão, carne, lavar-lhes os pés; dar-lhes oportunidade, uma segunda chance; estender-lhes as mãos e, então, sermos tocados por Deus.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A LEI E O ESPÍRITO DAS ESCRITURAS

“E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 10:25-27).

A pergunta que Jesus fez ao intérprete da lei é crucial para nós. Não basta saber o que está escrito, a maior importância recai sobre como se interpreta os escritos. Afinal, uma coisa é o que está escrito, mas o que está dizendo pode ser outra.

O homem que conversava com Jesus poderia ter citado diversos textos da Lei que contemplasse o zelo religioso e a moralidade como princípios para herdar a vida eterna. Ao invés disso, como bom intérprete que era, sabia que tudo que estava escrito na Lei tinha uma única interpretação, amar.

A Lei mandava extinguir os inimigos, mas Jesus, que não veio ab-rogar a Lei e sim trazer a verdadeira interpretação dela, ensinou que devemos amar os nossos inimigos. Com isso Jesus não contrariou a Lei, apenas lhe deu um sentido mais amplo e eficaz: ao invés de extingui-los ao fio da espada, propôs sua extinção acabando com a inimizade, se dispondo a amar; ao invés de expulsar o pecador do meio dos santos, propôs livrá-lo do pecado se aproximando dele.

São Tiago nos dá o princípio hermenêutico mais precioso e fundamental, que infelizmente muita gente deixa de lado. Assim diz ele: “observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg.2:8). Isto é, o amor ao próximo é a lei que rege todas as demais leis.

Com isso, podemos dizer que qualquer cumprimento da lei será ilegítimo se o amor não lhe for o seu princípio e finalidade, sua causa e efeito. Por outro lado, até mesmo a violação de certos legalismos não é imputada sobre o infrator, quando as ações são regidas pelo amor. Sobre isso disse São Pedro: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados (1 Pedro 4:8).

Se para os homens dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é a lei), para Deus verus amor omnia vincit (o amor verdadeiro vence tudo), pois o amor é maior que tudo e nele se concentra toda vontade divina para o homem.

A verdade é que a Bíblia é uma só, mas milhares são suas interpretações. É exatamente aí que se concentra nossa dificuldade, pois em vez de termos, da Bíblia, uma Lei com diversas interpretações, deveríamos, sim, extrair dela seus vários princípios de conduta, mas com uma só intenção, a saber, o amor a Deus e ao próximo.

Este é o Espírito das Escrituras. Quem não o tem, morre na letra.