sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

TROPEÇO ou FUNDAMENTO

“E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mateus 11:6).

Encontramos muitos motivos para tropeçar em nossa caminhada: o amigo que trai, a perda da pessoa amada, o patrão que demite, o líder que decepciona, entre tantas outras coisas nas quais dificilmente alguém nunca tenha encontrado razão para cair.

Na verdade, não é nem um pouco difícil encontrarmos tais motivos de tropeço quando confrontamos o mundo em que vivemos e as pessoas que nele vivem, e se formos bem honestos nos incluiremos entre essas pessoas.

Nosso estilo de vida competitivo, ambicioso, capetalista (sic) e egoísta nos conduz ao instinto animalesco de preservação do domínio conquistado, ou que pensamos ter conquistado. A partir de então, para manter o status, o cargo, a imagem, o primeiro lugar, vale tudo: desde uma simples mentirinha, a uma ação desleal; da compra ou venda de um produto pirata, a uma fraude fiscal milionária; de um comportamento anti-ético, ao ato de contratar um pistoleiro para executar o semelhante que está próximo demais. Por mais pequeno que seja o crime praticado, um grande problema será originado: a ideologia permissiva de que tudo está certo, desde que ninguém fique sabendo de nada.

Diante disso, difícil é não encontrar motivos de tropeço entre os homens! Mas porque encontraríamos motivo para tropeçar em Cristo? Por qual de seus atos de amor cairíamos em desgraça? Por qual de suas palavras de vida deixaríamos de ser bem-aventurados? Como poderia, Jesus, ter causado tropeço a alguém?

Creio que a resposta está no nosso senso de direção relacionado ao efeito do mal que praticamos. Praticamos o mal pensando que assim nos daremos bem; que os outros é que tropeçarão nas ciladas que armamos; que nossas mentiras nos protegerão; que nossas atitudes fraudulentas nos proporcionarão o sucesso desejado. Quanto engano!

Jesus jamais praticou coisa má para qualquer homem ou mulher. Mas quem fez mal a Ele, nEle tropeçou. Os líderes judeus pensaram ter feito Jesus tropeçar. Entregaram-no às autoridades romanas forjando um julgamento absolutamente injusto, compraram falsas testemunhas, manipularam o povo e traíram sua própria fé, pois tudo o que Cristo fez foi trazer vida e verdade a fé que aqueles mesmos homens diziam defender. Eles não imaginavam que enquanto intentavam matar Jesus, matavam primeiro a si mesmos. A esse respeito já havia profetizado Isaias (Is 8.14): “Ele vos será santuário; mas será pedra de tropeço e rocha de ofensa às duas casas de Israel, laço e armadilha aos moradores de Jerusalém”.

O verdadeiro efeito de nossa maldade não se dá em direção a quem queremos mal. Ele se dá em nossa própria direção. Nossa maldade poderá lesar física, mental, espiritual ou financeiramente alguém. Mas seremos nós os verdadeiros lesados, pois quem recebe o mal, com grande ou pequeno esforço se livrará naturalmente dele, todavia quem o pratica é seu escravo.

Ainda hoje, encontramos motivos de tropeço em Cristo quando dizemos “não” à vida, “não” ao próximo, “não” à terra. Quando a importância que damos aos lucros esta acima da ética e do valor da vida. Foi o próprio Mestre quem disse ser a vida. Não só vida espiritual, não vida religiosa, mas toda vida. Vida pela qual tudo que existe se fez. Vida da qual o ateu, mesmo vivendo, diz não haver.

Não se pode amar a Vida sem amar a Cristo, nem se pode amar a Cristo sem amar a Vida, pois são intrínsecos e inseparáveis, uma só essência.

Bem-aventurados seremos ao nos doarmos em favor da justiça, da paz e do amor.

Encontraremos a vida ao perdê-la em seu favor.

Encontraremos a felicidade ao sentirmos sua dor.

Quando assim for, a mesma pedra em que temos tropeçado nos será por fundamento sólido de toda bem-aventurança.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

DIA DE PROMESSAS

Então mais um ano se vai. Essa noite (31 de dezembro) muitos farão promessas: parar de fumar, dedicar mais tempo aos filhos, dedicar-se mais ao relacionamento conjugal, consagrar-se mais, começar o regime, malhar, caminhar, praticar esportes, aderir a uma dieta saudável, enfim, repetir todas as mesmas promessas feitas há exato um ano e que, possivelmente, serão repetidas nos próximos anos.

O que mais me intriga é que a maioria das conquistas do ano que se encerra, são conquistas que nem se imaginava quando o ano se iniciava. Ao que parece, as promessas que fazemos produzem em nós um efeito muito maior do que o seu simples cumprimento. Até porque dificilmente as cumprimos todas. Mas prometê-las faz com que nos sintamos vivos, promove esperança e força suficiente para conquistarmos tantas outras coisas que sequer imaginávamos.

Não são as conquistas que nos movem, e sim os sonhos. Talvez algumas coisas jamais devam deixar de ser um sonho. É possível que certas realizações sejam danosas à nossa caminhada, pois é somente na busca do inatingível que nos movemos constantes por um caminho repleto de tantas outras conquistas surpreendentes.

Então, ‘ta tudo bem! No dia de hoje prometa, planeje, sonhe, alveje, imagine. Amanhã, tendo prometido, planejado, sonhado, alvejado, imaginado, busque realizar tudo o que for possível. O que não for possível, que seja parte das promessas do próximo fim de ano. Só não deixe sonhar, não desista dos seus sonhos. Deus é sempre surpreendente!

Que o Senhor fortaleça nossos braços, a fim de que muitas sejam as conquistas em 2010.

Um SURPREENDENTE 2010 para todos.

A Cristo digamos:
2010 revelando ao mundo quem Tu és.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Árvore de Natal é Protestante

A arte é um dom de Deus, e a arte sacra é um dom de Deus e para Deus. Basta lembrar os cuidados do Senhor com a arquitetura, mobiliário e decoração do Templo, bem como as vestes sacerdotais. É lamentável a confusão entre arte sacra e idolatria feita pelos cristãos radicais iconoclastas. Isso empobrece a Liturgia, empobrece a Espiritualidade, e promove o preconceito, o sectarismo e ignorância.

Tem muito “líderes” radicais por aí “metendo o pau” em toda simbologia natalina e associando a árvore de Natal com a sua presença em cultos pagãos. É claro que árvores, como dados da natureza, são encontradas em toda a parte, e servem para todo o uso, inclusive estiveram nas culturas e cultos pré-cristãos. Mas, daí "queimar toda a árvore" é de doer...

A Árvore de Natal, tal como conhecemos hoje, e as crianças cantam: “Ó Pinheirinho de Natal”, teve origem no século XVI na residência do reformador Martinho Lutero. Foi ele quem, impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve e encimado pelas estrelas desse "céu que proclama", tomou um galho, decorou com papéis, e ornamentou a sua casa em uma noite de Natal. Essa decoração foi popularizada entre os luteranos e, depois em quase toda Cristandade.

Enquanto essa turma que prega uma “religião purgante de óleo de rícino” vai entristecendo e adoecendo as suas ovelhas, nós, os cristãos que amam a beleza e a arte (e buscamos a sanidade) vamos enfeitando nossos lares e templos com a Árvore de Natal. Afinal, nada tão protestante!

Olinda (PE), 26 de dezembro de 2009, Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A JUSTIÇA

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6).

A grande falácia da interpretação deste ensinamento de Cristo se dá na analogia dos sentidos. O sentido relativo ao que Jesus falou é o paladar, ao passo que as pessoas, de modo geral, tomam-no por visão. Em outras palavras, o ser humano tem ardente desejo de ver a justiça, mas não de degustá-la.

Como já dizia um velho ditado: “pimenta nos olhos dos outros é colírio”. È muito fácil percebermos o que está diante dos olhos e constatarmos as injustiças praticadas pelos políticos corruptos, empresários capetalista (sic), pelo vizinho mal-caráter, ou o comerciante sovina. Difícil é bebermos da mesma justiça que os olhos apreciam quando é imposta a outrem.

Os bem-aventurados não são os que anseiam ver justiça. Nossa sociedade mergulhou no caos, exatamente, porque cada indivíduo espera que os outros sejam justos, e que assim o sejam conforme o conceito de justiça que ele mesmo impôs. Numa sociedade onde o valor do altruísmo está quase extinto, o conceito de justiça, para o cidadão, não é nada mais do que o cumprimento do seu interesse particular, por mais injusto que este seja.

A justiça não é unilateral. Portanto, não saciará sua fome e sede quem tão somente desejar vê-la. Saciará, sim, quem dela comer e beber.

Quão diferente seria nossa sociedade se este ensinamento de Cristo fosse posto em prática! Infelizmente a sociedade quer ver líderes honestos, mas ela mesma trai a si própria, pois não se alimenta da justiça que deseja ver em seus governantes. Ela exige boa administração dos recursos públicos, mas não deixa de comprar produtos piratas; exige transparência dos políticos, mas se esconde atrás das fôrmas religiosas, ou das fantasias carnavalescas; critica as regalias do congresso; mas também não abre mão dos modismos, das aparências e do consumismo.

E assim, caro leitor, nós, que também compomos essa sociedade, vamos criando nossas crianças no mesmo espírito daqueles que os antecederam, desejando apenas ver a justiça que de geração em geração vai ficando cada vez mais distante. Em breve, essas mesmas crianças estarão governando sem nunca terem sentido, ao menos, o cheiro de justiça.

Bem-aventurados são aqueles que desejam, primeiramente, saborear a justiça, degustá-la, ser justificado. Não é impondo justiça aos outros que se alcançará a bem-aventurança. Se assim o fosse, as cadeias resolveriam o caos social. O que se precisa é viver a justiça de forma pessoal e exemplar. Mesmo que isso não mude o mundo (a priori), deixará sementes de mudança que certamente germinarão ao tempo certo.

Por hora, saibamos que não podemos controlar as ações das pessoas, mas podemos provocar reações diferentes. E provocar reações diferentes consiste em realizar ações diferentes. Ações injustas jamais provocarão reações justas. Quem se julga esperto e espera levar vantagens sobre tudo e todos, provoca reações similares e não se dá conta do mal que faz para si mesmo, pois ninguém é uma ilha para que sua injustiça não retorne, de alguma forma, para si.

Tens tu fome e sede de justiça? come e bebe dela. Tem-na em teu interior para que a possas ver além de ti. Mas não queiras vê-la sem antes prová-la. A bem-aventurança (felicidade plena) consiste da fé e a prática dos ensinamentos de Cristo, justiça de todo o que crê.

“Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei”
(Isaias 55:1).

domingo, 20 de dezembro de 2009

NÃO QUERO MAIS SER EVANGÉLICO

Não estou brincando! A indignação toma conta de meu ser, pois não dá mais. Evangélico no Brasil virou sinônimo de movimento financeiro religioso, algo meio sem ética – ou totalmente se preferir – em que se rouba e depois ora pedindo perdão a Deus. O “mensalão” de Brasília revela não apenas o que há de pior na política brasileira, mas algo cheira mal na fé evangélica também (ou plagiando o filme, “Fé de mais não cheira bem”). Como é possível alguém orar e dizer que o “financiador” é uma bênção para a cidade?

A verdade é que hoje a cristandade está com a síndrome de Geazi, servo do profeta Eliseu (2Reis 5:20-27). Correndo atrás dos tesouros de Naamã, a cristandade gananciosa (2Reis 5:20) mente e camufla situações para justificar seus pecados (2Reis 5:22); pior, esconde o pecado (2Reis 5:24), mostrando a hipocrisia em que vivem (2Reis 5:25). Desta vez foi a gota d’água, ver um pastor, que é deputado distrital – o que já é incoerente, pois ou é pastor ou deputado – e o presidente da Câmara, orando e pedindo a Deus pelo gestor das fraudes, chamando-o de “instrumento de bênção para nossas vidas e para a cidade”. Para a cidade de Brasília eu não sei, mas parece que o gestor financeiro do mensalão foi uma “bênção” para outros.

Não é apenas isso (ou tudo isso), mas a Igreja Evangélica no Brasil virou um monstrengo, uma colcha de retalhos, que mistura “alhos com bugalhos”, Bíblia com água e óleo ungido. Os pastores deixaram de ser homens de reconhecida piedade para serem executivos da fé; jogaram no lixo a orientação de Paulo para serem ministros de Cristo, que se ocupassem da leitura da Escritura, “à exortação e ao ensino” (1Timóteo 4:12,13), para serem ministros de si mesmo, onde a “escritura” agora é auto-ajuda, e a exortação e o ensino viraram barganha de promessas. Não me escandalizo mais, pois o que sinto é uma revolta contra aqueles que “seguiram pelo caminho de Caim, e por causa do lucro se lançaram no erro de Balaão…” (Judas 11).

Por isso não me chamem de “evangélico”, pois este termo implicava numa atitude baseada no Evangelho de Cristo. Mas hoje isso virou um termo jocoso e maldoso. Não quero mais compactuar com pastores que vendem e compram igrejas (isso mesmo!) como se fossem propriedades privadas, investimentos financeiros lucrosos. Não quero mais saber deste evangelicalismo sem ética, sem doutrina e que está mandando milhares para o inferno. Chega deste evangelho de faz-de-conta, em que Jesus é apresentado como um “amigão”, mas nunca como Senhor. Chega deste “evangelho” sem cruz, sem vergonha e mentiroso. Com certeza, Pedro está certo quando afirma pelo Espírito Santo: “… Tais homens têm prazer na luxúria à luz do dia… enganam os inconstantes e têm o coração exercitado na ganância. São malditos. Eles se desviaram, deixando o caminho reto e seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” (2Pedro 2:13-15).

E agora? Onde estão os apóstolos que pedem dinheiro e se envolvem com as maracutaias religiosas? Onde estão aqueles que oram pelo dinheiro sujo e pedem em nome de Deus que os abençoe? Onde estão aqueles que vendem igrejas com membros e tudo mais? Que pedem “trízimo” (não estou brincando), ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo? Onde estão os profetas com suas “profetadas” e palavras “ungidas”? Onde está a Igreja que diz proclamar em alta voz que o Brasil é do Senhor Jesus? Ouçamos Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que transformam trevas em luz e luz em trevas, e ao amargo em doce, e o doce em amargo!… Por isso a ira do SENHOR acendeu-se contra o seu povo, e o SENHOR estendeu a mão contra ele e o feriu…” (Isaías 5:20,25a).

Aqui não é um julgamento. Que ninguém me venha com a falácia de “Não julgueis para não serdes julgados”, pois isso é um simplismo de que se aproveitam muitos daqueles que são desonestos e usam a Bíblia para justificar suas ações. Diante da injustiça não podemos nos calar, seja ela de um evangélico ou não. Não me chamem de evangélico, pois não quero este evangelho mercadológico. Quero apenas ser cristão, quero apenas seguir a Cristo e viver para Ele.

Autor: Gilson Souto Maior Junior, é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento e Hebraico da Faculdade Teológica Batista de Bauru – Fateo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Breve diálogo entre o teólogo Leonardo Boff e Dalai Lama

Leonard Boff explica: “ No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre povos, no qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga: “Santidade, qual é a melhor religião?” (Your holiness, what’s the best religion?) -Esperava que ele dissesse: “É o budismo tibetano” ou “São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo.” O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos – o que me desconcertou um pouco, porque eu sabia da malicia contida na pergunta – e afirmou: “A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus, do Infinito”. “É aquela que te faz melhor.” Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar; “O que me faz melhor?” Respondeu ele: - “Aquilo que te faz mais compassivo” (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...A religião que conseguir isso de ti é a melhor religião... Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando a sua resposta sábia e irrefutável... Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo ou mesmo se tem ou não religião. O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo... Lembremos: “O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos”. A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal. Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: “terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros”. Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.


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Fonte desconhecida (se alguém souber, por favor, me informe. Grato)

sábado, 31 de outubro de 2009

CRER SEM VER

Por Julio Zamparetti

“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”
(João 20:29).


Fé e ciência

Alguém me disse que a doutrina que segue é a única doutrina que se constitui de uma ciência. Honestamente, eu acho isso hilário! Como as pessoas podem ser tão indoutas? Será tão difícil entender que fé é fé e ciência é ciência?

A fé é mística, enquanto a ciência é física. Logo, o raciocínio é muito simples: quando a fé é constituída da certeza, daquilo que se vê, ou da exatidão de um conhecimento científico, tal fé não é fé, pois a fé é o fundamento da esperança a respeito daquilo que não se vê, não se mensura, não se sabe, apenas se crê. Uma vez visto, mensurado e constatado, o que era tido por místico foi desmistificado.

Há pouco tempo cria-se que a epilepsia era uma manifestação de possessão demoníaca. Cria-se assim porque não se sabia do que se tratava. Hoje, o diagnóstico desta patologia não constitui mais uma crença, mas uma certeza. O que antes se cria, agora se sabe; o que antes era demônio, agora é problema neural.

Assim, a fé por si só pressupõe uma incógnita. E é por isso que Deus nos é sempre surpreendente!

Só pode ser mistificado aquilo que não é místico, pois o que é realmente místico não necessita de qualquer mistificação. Por sua vez, só pode ser desmistificado aquilo que, sem ser místico, tenha sido previa-mente mistificado. Todavia o que de fato é místico é indesmistificável. A ciência pode apenas desmistificar o que foi mistificado, mas não pode comprovar nem contrariar o que é essencialmente místico. Portanto, a desmistificação da crença resulta tão somente na descrença, sem, contudo, alterar a verdadeira essência.

Deus não se tange, a fé não se explica, o amor não se mensura. Todavia, infeliz daquele que não vive a percepção do intangível, inexplicável e imensurável.

Dirá alguém: Faltam provas, pelo que não creio que Deus existe. Direi-lhe prontamente: Faltam provas, por isso creio, pois se houvessem provas desnecessário seria crer. É nessa convicção que vivo bem-aventurado, porque isso é tudo que Ele espera de mim: Que eu creia sem ver, isto é, sem me certificar, sem constatar, sem comprovar.

Infeliz daquele que tenta cientificar a fé, ou mistificar a ciência, pois esse engana-se a si mesmo. Cientificar a fé é como produzir água em pó. Não por acaso ensinava, o Apóstolo São Paulo, que as coisas espirituais se conferem com as espirituais. Portanto, prefiro colocar cada coisa dentro de sua correta perspectiva, e uso da ciência para entender ciência e fé para entender fé.

"porque andamos por fé e não por vista" (2 Coríntios 5:7).