terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Árvore de Natal é Protestante

A arte é um dom de Deus, e a arte sacra é um dom de Deus e para Deus. Basta lembrar os cuidados do Senhor com a arquitetura, mobiliário e decoração do Templo, bem como as vestes sacerdotais. É lamentável a confusão entre arte sacra e idolatria feita pelos cristãos radicais iconoclastas. Isso empobrece a Liturgia, empobrece a Espiritualidade, e promove o preconceito, o sectarismo e ignorância.

Tem muito “líderes” radicais por aí “metendo o pau” em toda simbologia natalina e associando a árvore de Natal com a sua presença em cultos pagãos. É claro que árvores, como dados da natureza, são encontradas em toda a parte, e servem para todo o uso, inclusive estiveram nas culturas e cultos pré-cristãos. Mas, daí "queimar toda a árvore" é de doer...

A Árvore de Natal, tal como conhecemos hoje, e as crianças cantam: “Ó Pinheirinho de Natal”, teve origem no século XVI na residência do reformador Martinho Lutero. Foi ele quem, impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve e encimado pelas estrelas desse "céu que proclama", tomou um galho, decorou com papéis, e ornamentou a sua casa em uma noite de Natal. Essa decoração foi popularizada entre os luteranos e, depois em quase toda Cristandade.

Enquanto essa turma que prega uma “religião purgante de óleo de rícino” vai entristecendo e adoecendo as suas ovelhas, nós, os cristãos que amam a beleza e a arte (e buscamos a sanidade) vamos enfeitando nossos lares e templos com a Árvore de Natal. Afinal, nada tão protestante!

Olinda (PE), 26 de dezembro de 2009, Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A JUSTIÇA

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6).

A grande falácia da interpretação deste ensinamento de Cristo se dá na analogia dos sentidos. O sentido relativo ao que Jesus falou é o paladar, ao passo que as pessoas, de modo geral, tomam-no por visão. Em outras palavras, o ser humano tem ardente desejo de ver a justiça, mas não de degustá-la.

Como já dizia um velho ditado: “pimenta nos olhos dos outros é colírio”. È muito fácil percebermos o que está diante dos olhos e constatarmos as injustiças praticadas pelos políticos corruptos, empresários capetalista (sic), pelo vizinho mal-caráter, ou o comerciante sovina. Difícil é bebermos da mesma justiça que os olhos apreciam quando é imposta a outrem.

Os bem-aventurados não são os que anseiam ver justiça. Nossa sociedade mergulhou no caos, exatamente, porque cada indivíduo espera que os outros sejam justos, e que assim o sejam conforme o conceito de justiça que ele mesmo impôs. Numa sociedade onde o valor do altruísmo está quase extinto, o conceito de justiça, para o cidadão, não é nada mais do que o cumprimento do seu interesse particular, por mais injusto que este seja.

A justiça não é unilateral. Portanto, não saciará sua fome e sede quem tão somente desejar vê-la. Saciará, sim, quem dela comer e beber.

Quão diferente seria nossa sociedade se este ensinamento de Cristo fosse posto em prática! Infelizmente a sociedade quer ver líderes honestos, mas ela mesma trai a si própria, pois não se alimenta da justiça que deseja ver em seus governantes. Ela exige boa administração dos recursos públicos, mas não deixa de comprar produtos piratas; exige transparência dos políticos, mas se esconde atrás das fôrmas religiosas, ou das fantasias carnavalescas; critica as regalias do congresso; mas também não abre mão dos modismos, das aparências e do consumismo.

E assim, caro leitor, nós, que também compomos essa sociedade, vamos criando nossas crianças no mesmo espírito daqueles que os antecederam, desejando apenas ver a justiça que de geração em geração vai ficando cada vez mais distante. Em breve, essas mesmas crianças estarão governando sem nunca terem sentido, ao menos, o cheiro de justiça.

Bem-aventurados são aqueles que desejam, primeiramente, saborear a justiça, degustá-la, ser justificado. Não é impondo justiça aos outros que se alcançará a bem-aventurança. Se assim o fosse, as cadeias resolveriam o caos social. O que se precisa é viver a justiça de forma pessoal e exemplar. Mesmo que isso não mude o mundo (a priori), deixará sementes de mudança que certamente germinarão ao tempo certo.

Por hora, saibamos que não podemos controlar as ações das pessoas, mas podemos provocar reações diferentes. E provocar reações diferentes consiste em realizar ações diferentes. Ações injustas jamais provocarão reações justas. Quem se julga esperto e espera levar vantagens sobre tudo e todos, provoca reações similares e não se dá conta do mal que faz para si mesmo, pois ninguém é uma ilha para que sua injustiça não retorne, de alguma forma, para si.

Tens tu fome e sede de justiça? come e bebe dela. Tem-na em teu interior para que a possas ver além de ti. Mas não queiras vê-la sem antes prová-la. A bem-aventurança (felicidade plena) consiste da fé e a prática dos ensinamentos de Cristo, justiça de todo o que crê.

“Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei”
(Isaias 55:1).

domingo, 20 de dezembro de 2009

NÃO QUERO MAIS SER EVANGÉLICO

Não estou brincando! A indignação toma conta de meu ser, pois não dá mais. Evangélico no Brasil virou sinônimo de movimento financeiro religioso, algo meio sem ética – ou totalmente se preferir – em que se rouba e depois ora pedindo perdão a Deus. O “mensalão” de Brasília revela não apenas o que há de pior na política brasileira, mas algo cheira mal na fé evangélica também (ou plagiando o filme, “Fé de mais não cheira bem”). Como é possível alguém orar e dizer que o “financiador” é uma bênção para a cidade?

A verdade é que hoje a cristandade está com a síndrome de Geazi, servo do profeta Eliseu (2Reis 5:20-27). Correndo atrás dos tesouros de Naamã, a cristandade gananciosa (2Reis 5:20) mente e camufla situações para justificar seus pecados (2Reis 5:22); pior, esconde o pecado (2Reis 5:24), mostrando a hipocrisia em que vivem (2Reis 5:25). Desta vez foi a gota d’água, ver um pastor, que é deputado distrital – o que já é incoerente, pois ou é pastor ou deputado – e o presidente da Câmara, orando e pedindo a Deus pelo gestor das fraudes, chamando-o de “instrumento de bênção para nossas vidas e para a cidade”. Para a cidade de Brasília eu não sei, mas parece que o gestor financeiro do mensalão foi uma “bênção” para outros.

Não é apenas isso (ou tudo isso), mas a Igreja Evangélica no Brasil virou um monstrengo, uma colcha de retalhos, que mistura “alhos com bugalhos”, Bíblia com água e óleo ungido. Os pastores deixaram de ser homens de reconhecida piedade para serem executivos da fé; jogaram no lixo a orientação de Paulo para serem ministros de Cristo, que se ocupassem da leitura da Escritura, “à exortação e ao ensino” (1Timóteo 4:12,13), para serem ministros de si mesmo, onde a “escritura” agora é auto-ajuda, e a exortação e o ensino viraram barganha de promessas. Não me escandalizo mais, pois o que sinto é uma revolta contra aqueles que “seguiram pelo caminho de Caim, e por causa do lucro se lançaram no erro de Balaão…” (Judas 11).

Por isso não me chamem de “evangélico”, pois este termo implicava numa atitude baseada no Evangelho de Cristo. Mas hoje isso virou um termo jocoso e maldoso. Não quero mais compactuar com pastores que vendem e compram igrejas (isso mesmo!) como se fossem propriedades privadas, investimentos financeiros lucrosos. Não quero mais saber deste evangelicalismo sem ética, sem doutrina e que está mandando milhares para o inferno. Chega deste evangelho de faz-de-conta, em que Jesus é apresentado como um “amigão”, mas nunca como Senhor. Chega deste “evangelho” sem cruz, sem vergonha e mentiroso. Com certeza, Pedro está certo quando afirma pelo Espírito Santo: “… Tais homens têm prazer na luxúria à luz do dia… enganam os inconstantes e têm o coração exercitado na ganância. São malditos. Eles se desviaram, deixando o caminho reto e seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” (2Pedro 2:13-15).

E agora? Onde estão os apóstolos que pedem dinheiro e se envolvem com as maracutaias religiosas? Onde estão aqueles que oram pelo dinheiro sujo e pedem em nome de Deus que os abençoe? Onde estão aqueles que vendem igrejas com membros e tudo mais? Que pedem “trízimo” (não estou brincando), ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo? Onde estão os profetas com suas “profetadas” e palavras “ungidas”? Onde está a Igreja que diz proclamar em alta voz que o Brasil é do Senhor Jesus? Ouçamos Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que transformam trevas em luz e luz em trevas, e ao amargo em doce, e o doce em amargo!… Por isso a ira do SENHOR acendeu-se contra o seu povo, e o SENHOR estendeu a mão contra ele e o feriu…” (Isaías 5:20,25a).

Aqui não é um julgamento. Que ninguém me venha com a falácia de “Não julgueis para não serdes julgados”, pois isso é um simplismo de que se aproveitam muitos daqueles que são desonestos e usam a Bíblia para justificar suas ações. Diante da injustiça não podemos nos calar, seja ela de um evangélico ou não. Não me chamem de evangélico, pois não quero este evangelho mercadológico. Quero apenas ser cristão, quero apenas seguir a Cristo e viver para Ele.

Autor: Gilson Souto Maior Junior, é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento e Hebraico da Faculdade Teológica Batista de Bauru – Fateo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Breve diálogo entre o teólogo Leonardo Boff e Dalai Lama

Leonard Boff explica: “ No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre povos, no qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga: “Santidade, qual é a melhor religião?” (Your holiness, what’s the best religion?) -Esperava que ele dissesse: “É o budismo tibetano” ou “São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo.” O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos – o que me desconcertou um pouco, porque eu sabia da malicia contida na pergunta – e afirmou: “A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus, do Infinito”. “É aquela que te faz melhor.” Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar; “O que me faz melhor?” Respondeu ele: - “Aquilo que te faz mais compassivo” (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...A religião que conseguir isso de ti é a melhor religião... Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando a sua resposta sábia e irrefutável... Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo ou mesmo se tem ou não religião. O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo... Lembremos: “O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos”. A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal. Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: “terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros”. Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.


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Fonte desconhecida (se alguém souber, por favor, me informe. Grato)

sábado, 31 de outubro de 2009

CRER SEM VER

Por Julio Zamparetti

“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”
(João 20:29).


Fé e ciência

Alguém me disse que a doutrina que segue é a única doutrina que se constitui de uma ciência. Honestamente, eu acho isso hilário! Como as pessoas podem ser tão indoutas? Será tão difícil entender que fé é fé e ciência é ciência?

A fé é mística, enquanto a ciência é física. Logo, o raciocínio é muito simples: quando a fé é constituída da certeza, daquilo que se vê, ou da exatidão de um conhecimento científico, tal fé não é fé, pois a fé é o fundamento da esperança a respeito daquilo que não se vê, não se mensura, não se sabe, apenas se crê. Uma vez visto, mensurado e constatado, o que era tido por místico foi desmistificado.

Há pouco tempo cria-se que a epilepsia era uma manifestação de possessão demoníaca. Cria-se assim porque não se sabia do que se tratava. Hoje, o diagnóstico desta patologia não constitui mais uma crença, mas uma certeza. O que antes se cria, agora se sabe; o que antes era demônio, agora é problema neural.

Assim, a fé por si só pressupõe uma incógnita. E é por isso que Deus nos é sempre surpreendente!

Só pode ser mistificado aquilo que não é místico, pois o que é realmente místico não necessita de qualquer mistificação. Por sua vez, só pode ser desmistificado aquilo que, sem ser místico, tenha sido previa-mente mistificado. Todavia o que de fato é místico é indesmistificável. A ciência pode apenas desmistificar o que foi mistificado, mas não pode comprovar nem contrariar o que é essencialmente místico. Portanto, a desmistificação da crença resulta tão somente na descrença, sem, contudo, alterar a verdadeira essência.

Deus não se tange, a fé não se explica, o amor não se mensura. Todavia, infeliz daquele que não vive a percepção do intangível, inexplicável e imensurável.

Dirá alguém: Faltam provas, pelo que não creio que Deus existe. Direi-lhe prontamente: Faltam provas, por isso creio, pois se houvessem provas desnecessário seria crer. É nessa convicção que vivo bem-aventurado, porque isso é tudo que Ele espera de mim: Que eu creia sem ver, isto é, sem me certificar, sem constatar, sem comprovar.

Infeliz daquele que tenta cientificar a fé, ou mistificar a ciência, pois esse engana-se a si mesmo. Cientificar a fé é como produzir água em pó. Não por acaso ensinava, o Apóstolo São Paulo, que as coisas espirituais se conferem com as espirituais. Portanto, prefiro colocar cada coisa dentro de sua correta perspectiva, e uso da ciência para entender ciência e fé para entender fé.

"porque andamos por fé e não por vista" (2 Coríntios 5:7).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Você daria a vida por um amigo?

Pítias, condenado à morte pelo tirano Dionísio, passava na prisão os seus últimos dias. Dizia não temer a morte, mas, como explicar que seus olhos se enchessem de lágrimas ao ver o caminho que se abria diante das grades da prisão? Sim, era a dura lembrança dos velhos pais! Era ele o arrimo e o consolo deles. Não mais suportando, um dia Pítias disse ao tirano:

- Permita-me ir à casa abraçar meus pais e resolver meus negócios.
Estarei de volta em quatro dias, sem acrescentar nem uma hora a mais.

- Como posso acreditar na sua promessa? Os caminhos são desertos. O que você quer mesmo é fugir - respondeu Dionísio, irônica e zombateiramente.

- Senhor, é preciso que eu vá. Meus pais estão velhinhos e só contam comigo para se defenderem - insistiu Pítias com o olhar nublado de lágrimas.

Vendo que o tirano se mantinha irredutível, Damon, jovem e amigo de Pítias, interveio propondo:

- Conceda a licença que meu amigo pede; conheço seus pais e sei que carecem da ajuda do filho. Deixe-o partir e garanto sua volta dentro dos dias previstos, sem faltar uma hora, para lhe entregar a cabeça.

A resposta foi um não categórico. Compreendendo o sofrimento do amigo, Damon propôs ficar na prisão em lugar de Pítias e morreria no lugar dele se necessário fosse. O tirano, surpreendido, aceitou a proposta e depois de um prolongado abraço no amigo, Pítias partiu.

O dia marcado para sua execução amanheceu ensolarado. As horas passavam céleres e a guarda já se mostrava inquieta. Entretanto, Damon procurava restabelecer a calma, garantindo que o amigo chegaria em tempo.

Finalmente chegara a hora da execução. Os guardas tiraram os grilhões dos pés de Damon e o conduziram à praça, onde a multidão acompanhava em silêncio a cada um dos seus passos.

Subiu, então, ao cadafalso. Uma estranha agitação levou a multidão a prorromper em gritos. Era Pítias que chegava exausto e quase sem fôlego.

Porém, rompendo a multidão, galgou os degraus do cadafalso, onde, abraçando o amigo, entregou-se ao carrasco sem o menor pavor.

Os soluços da multidão comovida chegaram aos ouvidos do tirano.

Este, pondo-se de pé em sua tribuna, para melhor se convencer da cena que acabava de acontecer na praça, levantou as mãos e bradou com firmeza:

- Parem imediatamente com a execução! Esses dois jovens são dignos do amor dos homens de bem, porque sabem o quanto custa a palavra. Eles provaram saber o quanto vale a honra e o bom nome!

Descendo imediatamente daquela tribuna, dirigiu-se a Pítias e a Damon. Dionísio estava perplexo, e os abraçando comovidamente, lhes falou:

- Eu daria tudo para ter amigos como vocês!


"Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a própria vida pelos seus amigos" (Jo.15:13).

"Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos" (I Jo.3:16).


Fonte: http://hermesfernandes.blogspot.com/

terça-feira, 20 de outubro de 2009

OS PERSEGUIDOS

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mateus 5:10-12).


INFELIZES OS PERSEGUIDOS

A princípio cabe-nos entender que as perseguições não nos fazem bem-aventurados, mas bem-aventurados somos quando as bem-aventuranças são a razão de sermos perseguidos. Portanto, não é qualquer perseguição que denota nossa bem-aventurança. Muitas perseguições denotam apenas nosso infeliz proceder. Não é feliz quem é perseguido por praticar injustiças. Não é bem-aventurado quem é perseguido por amar conchavos políticos. Não é alegre de espírito quem é perseguido por causa de má conduta, nem tem do que se gloriar quem é perseguido por não respeitar as diferenças.


FELIZES OS PERSEGUIDOS

Felizes quando somos perseguidos por não agir por conveniência.
Num mundo de tanto jogo de interesses, os princípios da honestidade e caráter têm sido subjugados e renegados a segundo, terceiro, último, ou mesmo fora de plano por aqueles que acham que o importante é se dar bem, julgando por certo o que lhe seja conveniente. Quem assim procede pode até pensar que é feliz, mas como pode ser feliz quem nem sequer é alguma coisa? Quem age por conveniência não tem caráter, não tem opinião própria, não é nada além de uma folha seca ao vento, não passa de um infeliz. Quanto aos que se expõem, se impõem e se põem contra as injustiças praticadas pelos poderosos, serão perseguidos, atribulados, atormentados, mas serão felizes, pois não passarão pela vida sem que nela tenham feito diferença deixando a sua contribuição e legado.

Felizes quando somos perseguidos por não trairmos a consciência.
Quem trai sua consciência, trai a Deus duas vezes, pois trai a consciência que por Deus lhe foi dada, e trai a Deus que lhe fez consciente. Deus não nos impõe idéias, nem nos obriga a nada. Ele nos atrai ao seu convívio, nos ensina seu caminho e, se houvermos aprendido, o seguiremos por convicção.

Felizes quando somos perseguidos por lutar por igualdade e justiça social
. Cristo humilhou a si mesmo, viveu entre os excluídos, identificou-se com eles, morreu como bandido, fez-se igual ao mais sofrido. Por que haveríamos de nos achar superiores? Somos todos iguais, diferidos tão somente pelas circunstâncias, que se fossem inversas seríamos nós no lugar daqueles a quem excluímos. Por mais sofrido que seja o nosso semelhante, ainda é semelhante a nós.

Felizes quando somos perseguidos por defender os mais fracos
. Defender o semelhante mais fraco é defender a nós mesmos que somos todos semelhantemente fracos. Ninguém vive numa ilha para pensar que o problema do fraco não é seu problema. Quando se vive em sociedade, a fraqueza de qualquer cidadão é uma fraqueza social, e uma fraqueza social é uma fraqueza de todo cidadão. Portanto, defender os mais fracos é fortalecer a sociedade e beneficiar a todo cidadão. Feliz quem entende isso e por isso trabalha. É bem-aventurado, ainda que sua bem-aventurança gere o descontentamento e desencadeie a perseguição daqueles que enriquecem às custas da exploração dos mais fracos.


INFELIZES OS NÃO PERSEGUIDOS

Infeliz daquele que não é perseguido pela própria consciência
ao explorar a fé dos indoutos condicionando a ação de Deus aos lenços, toalhinhas, fitinhas, castiçais, sais ungidos e ofertas de sacrifício.

Infeliz daquele que não é perseguido pela própria consciência ao explorar o empregado, não ajudar o pobre, não se compadecer do sofredor.

Infeliz daquele que não é perseguido pela própria consciência ao buscar lucros ilícitos, tirar vantagens sobre o sofrimento alheio e se promover na desgraça dos outros.

Infelizes somos nós quando nossa consciência se cauteriza
de forma a não sentirmos mais a dor da mazela humana, nem sofrermos com quem sofre.