quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

JUSTIÇA NOSSA, TRAPO DE IMUNDÍCIA

Por Julio Zamparetti


Lembro-me que desde criança fui ensinado a agir com justiça a fim de que todas as coisas corram bem na vida. Assim crescemos motivados pelo desejo de nos dar bem na vida e sob a ameaça de que aqui se faz, aqui se paga, evitamos fazer o mal aos outros, não porque os amamos, mas porque queremos distância de qualquer mal que possa se voltar contra nós.


Já dizia o profeta Isaias que nossa justiça é como trapo da imundícia (Isaias 64:6). Entendamos o porquê: Trapo da imundícia é como era chamado os panos que as mulheres da época usavam para conter o fluxo menstrual. Pode, hoje, isso não parecer muita coisa, mas na época era uma ocasião de vergonha e horror. A mulher menstruada era considerada imunda e sobre ela recaiam sérias privações como não frequentar lugares públicos e nem mesmo rezar. O simples toque de uma mulher neste estado, tornava tudo o que fosse tocado ou tocasse nela imundo também. Imagine, agora, o valor que teria naquela época o tal trapo da imundícia. É exatamente isso o quanto vale nossa justiça.

O problema é que nosso senso de justiça está baseado no que consideramos certo para nos favorecer, ou naquilo que um dia já nos desfavoreceu. Isto é, ou lutamos por justiça porque nessa causa teremos algum benefício, ou se lutamos por alguma causa sem perspectiva de ganho é porque já tivemos uma perda similar da qual o sentimento de remorso nos constrange a agirmos de forma compulsória. Em termos práticos, só lutamos contra a violência depois de sermos vítimas dela. Só nos mobilizamos em prol do meio ambiente quando percebemos que nós mesmos estamos sendo destruídos. Ou seja, nossa justiça não tem propósito de favorecer a ninguém mais senão a nós mesmos.

Quando nosso senso de justiça é voltado para nossos próprios interesses, está totalmente desprovido de qualquer justiça, porque justiça é aquilo que torna a coisa justa, ajustada, encaixada às demais coisas, idéias ou pessoas. Sem justiça, ou seja, sem estar justa, contendo folgas, a engrenagem, fatalmente, tranca e quebra.

É por essa razão que sempre estamos correndo atrás do prejuízo. Já é hora de mudar isso.

domingo, 11 de janeiro de 2009

FESTAS MAQUIADAS

“Crente não pode ouvir música profana”. É isso o que a maioria dos crentes diz. Tocá-la então, nem pensar! Rodar música secular em uma festa de crente, “misericórdia”! “Só ouço música gospel”! – dizem.

Confesso que minha indignação em relação a esse pensamento só não é maior que minha vergonha em ver que, entre os que se chamam pelo nome de Cristo, haja um pensamento tão hipócrita e pervertido!

Pensamento hipócrita porque fazem suas festinhas ao som das mesmas batidas de qualquer festa profana, com a mesma pobreza melódica, harmônica e poética de qualquer baile funk. A única diferença é que trocam o “chupa que é de uva” por “chuta que é laço”, “é nois na fita” por “é nois na fé”. Diferença que pouco importa para quem está ali, já que tudo que se quer é festar.

Não sou contra boas festas. Muito pelo contrário: acho muito bom o hábito de sair com amigos, dançar e se alegrar sem bebedeiras, sem drogas, nem promiscuidade. O que sou contra é às más festas e às versões “gospel” de festas seculares que são propagadas como espirituais. Não há nada de espiritual nisso. Isso não passa de maquiagem barata. E nem me venham dizer que é diferente, que na festa gospel não rola drogas nem sexo, porque isso não é verdade. Basta ver quantas moças solteiras tem voltado grávidas dos retiros “espirituais”, ou de festas gospel, ou mesmo de reuniões de pequenos grupos. Isso pra não falar daquelas que não engravidaram pela simples razão de serem “prevenidas”.

Pensamento pervertido porque vê maldade em tudo. Pensam que todos que estão num show, estão ali para “aprontar”. Quem pensa isso, prova para si mesmo que é um pervertido. Pois faz juízo dos outros pelo pressuposto de sua própria conduta. Afinal, se já apronta num ambiente religioso, o que não faria num ambiente secular?

Não faço apologia aos bailes e festas. Mas o título de festa gospel não caracteriza que a mesma seja cristã. Assim como na música, há festas boas e festas ruins, cabe-nos saber distingui-las como distintos somos. Entretanto, festa realmente gospel, só conheço uma, chama-se Celebração Eucarística, ou Culto.

sábado, 10 de janeiro de 2009

COMO CRISTO AMOU

Ame a todos indistintamente
Ame até mesmo o pior inimigo
Seja-lhe misericordioso
e também compreensivo

Chore por ele
Sinta a sua dor
Faça-te fraco como ele
Dê-lhe o pão de teu labor

Beije-lhe o rosto e chame-o de amigo
Ao lado dele ande duas milhas
Peça que o Pai o perdoe sempre
Ame-o a ponto de dar-lhe tua própria vida

Depois de tudo isso feito
Com amor profundo e paterno
Tomando ele em teus braços
lançarias ele no inferno?

Só de Sacanagem

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
" - Não roubarás!"
" - Devolva o lápis do coleguinha!"
" - Esse apontador não é seu, minha filha!"
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
“ - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
”- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
" - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” - Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

Composição: Elisa Lucinda

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A VOZ DE DEUS

Por 13 vezes as Escrituras dizem: “Quem tem ouvidos, ouça”. A pergunta que nos cabe é: Como ouvir? Muito do que se anuncia como voz de Deus, não passa de engano e engodo, enquanto isso, muitas vezes, a verdadeira voz de Deus é ignorada.

A voz de Deus, no entanto, é a ferramenta pelo qual nos guiamos em caminho seguro, é o alimento que nutre e sustenta a fé, é a água que limpa e excreta toda a sujeira de nossa mente. Quanto mais damos ouvidos à voz de Deus, mais vivos estamos no Espírito. Ao passo que se deixarmos de ouvi-la, fatalmente nossa espiritualidade entra em colapso e ocorre a falência múltipla dos órgãos espirituais.

Diante de algo tão sério, é preciso que se tenha um extremo cuidado com relação à alimentação espiritual que estamos trazendo a nossa mesa. Pois a qualidade da alimentação é fundamental para a manutenção de uma vida sadia.

A voz de Deus não está no fundamentalismo religioso, onde em nome de Deus se provoca as mais traumáticas divisões e contendas, por conta de interpretações particulares e tendenciosas, onde o principal objetivo não é encontrar a verdade e sim mostrar estar certo em detrimento do diferente. Daí nasce a intolerância, o desrespeito e incompreensão da fé e dos direitos do próximo.

A voz de Deus não está no liberalismo, onde qualquer um faz as suas próprias leis ou as interpreta como bem quiser, a fim de agradar seu próprio ego.

A voz de Deus está no amor. Assim, não ouve a voz de Deus quem simplesmente lê a Bíblia, mas sim quem a lê com amor. A Bíblia não foi escrita com a finalidade de que, lendo-a, pudéssemos ter argumentos para condenar ou ignorar alguém, seja quem for. Muito pelo contrário, quem a lê por amor tem nela toda informação e inspiração para encontrar e amar Cristo no próximo, ainda que este próximo seja um faminto, sedento, andarilho, nu, preso, maltrapilho, ou mesmo seu próprio inimigo.

A voz de Deus nos é revelada através das Escrituras, da natureza e da consciência, quando estas estão submetidas e ouvidas sob a perspectiva do amor.

“Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4:8).

Vejo tanta gente ocupada em acusar os “erros” de quem é diferente que fico realmente preocupado, por que as diferenças seriam insignificantes se houvesse amor. Quando as pequenas diferenças são capazes de destruir grandes amizades, casamentos, irmandades e comunidades, isso denota quão débil é nosso amor. Quão surdos estamos diante da voz de Deus!

Quem tem ouvidos ouça. Ouviu?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

MÚSICA E POESIA, DONS DIVINOS

Há muito tempo defendo o estudo de poesia e MPB nos seminários. Não me refiro aos livros poéticos bíblicos, pois conhecimento bíblico é o mínimo que se pode exigir de um seminarista. Refiro-me aos poemas de Cruz e Souza, Manuel Bandeira, Henriqueta Lisboa, Casimiro de Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Mario Quintana, Junqueira Freire e tantos outros gigantes da literatura brasileira. Na música, defendo que se estude, Tom Jobim, Vinícios, Cartola, Noel Rosa, e os roqueiros dos anos oitenta, como Renato Russo, Cazuza, etc.

O fato é que encontramos nesses a expressão de vida comum, de circunstâncias, de decepções e desilusões nos fazendo compreender pela poesia e pela música aquilo que só compreenderíamos se vivêssemos na pele as mesmas circunstâncias. O problema é que se tivéssemos que viver todas essas circunstâncias para obtermos todo esse conhecimento, provavelmente sucumbiríamos.

Assim, é importante aprender e sentir, através da arte, o que sente a alma do ser vivente diante das mais diversas circunstâncias.

Muitas vezes quando estou aconselhando alguém, ao ouvi-lo contar suas angústias, posso identificar melhor o seu sentimento, mesmo que nunca o tenha sentido na pele. Pois dificilmente algum sentimento humano já não tenha sido retratado em versos e canções. E muitas vezes pelo retrato musical ou poético, previamente obtido, posso saber o que se passa, ainda melhor do que aquele que está passando pelo problema. Assim, conhecendo melhor o problema, posso ajudar a encontrar a saída com muito mais propriedade e segurança. É como se eu já tivesse vivido aquilo.

Honestamente, esse benefício só é possível por meio das poesias e músicas fora do meio evangélico. Salvo raras exceções, como João Alexandre e “similares”, a música, bem como a pregação evangélica generalizou uma solução comum pra tudo, sem sequer saber o problema. Quanto à poesia evangélica, me apresentem, por favor. Daí a razão da pobreza cultural, poética e musical do meio “gospel”.

Pra mim, só existem dois tipos de música: Música boa e música ruim. E está difícil encontrar música boa entre as produções evangélicas! A maioria é um amontoado de jargões que nem de longe expressam a realidade da alma, contendo erros doutrinários e fantasias que deturpam a fé.

Se Renato Russo, ou Tom Jobim e outros, erraram em algumas de suas considerações, ao menos foram sinceros, cantaram o que criam e não cometeram a heresia de creditarem o que cantavam a uma “revelação de Deus”, não diziam o que lhes vinha à mente argumentando que era Deus quem estava falando. E olha que o dom que neles havia, inegavelmente, era divino!

Salve a poesia e a boa música!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

QUEM SE DISPÕE?

Aos 12 anos de idade, garoto é pego pela décima vez roubando carro. Pela décima vez também é solto, pois a lei não permite que fique preso um garoto dessa idade. Sua mãe é ex-presidiária e o pai não se sabe quem é. O que fazer? Como resolver esse problema? Essas são as primeiras perguntas que vem a mente. Entretanto, não se trata de um problema. Trata de uma vida uma criança.

Portanto, a pergunta que se deve fazer é: como salvar essa criança? Como transmitir-lhe os valores que os pais sequer tiveram para lhe transmitir? Não adianta mais a sociedade lançar a culpa sobre os irresponsáveis e incapacitados pais, pois isso não resolverá nada.

Acima de tudo esse garoto é um filho da pátria mãe gentil que trouxe seus antepassados a essa terra como escravos e depois os deu alforria entregando-lhes à escravidão da discriminação racial e social, tolhendo-lhes o direito de voz e vez. Isso é o problema, o garoto é apenas vítima disto.

De quem cobrar a responsabilidade? Ora, a maioria dos responsáveis já morreu e o restante não está nem aí! Portanto, a questão não é essa. A questão é: Quem se dispõe a comprometer-se? Quem se compromete a acolher esse garoto e dar-lhe educação e amor? 12 anos, ainda há tempo. Quanto custará isso? Muitos cachorrinhos de madames tem um custo bem maior! Isso eu garanto por experiência própria.

Acho que, ao menos, devemos refletir sobre o que cantou Eduardo Dusek, nos anos 80: “Troque seu cachorro por uma criança pobre”.